terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Falando (mal) do trabalho do trabalho dos outros - 3

- Pai, por quê o mar é salgado?
- Ora, filho, porque um dia afundou um navio carregado de bacalhau...

A anedota, segundo conta o New York Times, logo deixará de fazer sentido: A Portuguese Tradition Faces a Frozen Future
:

"ÍLHAVO, Portugal — Cod, the salted, cured, dried, smelly kind, may be the closest thing this country has to a national symbol. Bacalhau, as the fish is called here, is to Christmas Eve in Portugal what turkey is to Thanksgiving in America. Treasured since the 16th century, when Portuguese fishermen first brought it back from Newfoundland, it bore the nickname fiel amigo — faithful friend. Its correct preparation is a source of pride, a sign of respect for family values. (...) But the preparation — a ritual of soaking stiff, smelly slabs of fish in cold water that must be changed every few hours for two to three days before cooking — is less romantic than it once was. These days, more and more Portuguese are opting for frozen bacalhau.

"Frozen is the best! Frozen is the future!" said Gonçalo Guedes Vaz, managing director of Rui Costa e Sousa, a major producer of both frozen and traditional bacalhau, at the company's state-of-the-art processing plant in this northwestern port city. "Women have no time to stay home and soak. So we do the job for them. Traditional cod soon will be a thing of the past." (...)"

Bacalhau sem sal, congelado, sem cheiro de bacalhau - é bacalhau? Ora pois, às batatas!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Para quem está terminando tese

"Que devo ser eu, eu que penso e que sou o meu pensamento, para eu ser o que eu não penso, para que o meu pensamento seja o que eu não sou?"

(Michel Foucault, As Palavras e as Coisas)

sábado, 6 de dezembro de 2008

Slow Blogging

(Dica do Pedro)

Provavelmente, aderimos involuntariamente ao movimento de Slow Blogging. O bom é que na reportagem há diversos motivos filosóficos, sociológicos e práticos para que se demore um pouco mais a publicar novos posts.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Para brincar de Pollock

Não tem nada a ver com o tema do blog (pelo menos diretamente), mas é bem legal: http://www.jacksonpollock.org/

Não mancha o chão nem as roupas. É só ir clicando e 'mouseando'.
(via Circuito Integrado) .

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Depois do meu feriado-imersão, voltei com várias ideias (aprendi hoje que, segundo a nova regra gramatical, ideia não tem acento; terrível, ideia sem o acento-lâmpada lhe aureando o estalo da descoberta) para escrever o post que o Mauricio há algum tempo propusera a todos nós.

Já tivemos o post da Ana, divertido e melancólico ao mesmo tempo, falando da margem que é quase a beira de um abismo: o momento em que nos deparamos com a aparente incoerência da questão mesma que nos movera ao exercício de pensar.

Hoje temos o post do Edu, propondo uma adorável sociologia às colheradas e provocando a pensar se nós estamos na margem olhando o fluxo ou se estamos no fluxo, procurando a margem.

O que me resta dizer? A ideia inicial desse blog era para ser algo como "sociologia em bom português", que dizia deste espírito de tratar e falar de sociologia em uma linguagem menos técnica, mais acessível portanto, e mais exploratória do que definidora. Na hora de criar o blog, porém, este nome me pareceu ao mesmo tempo bobo e pedante, e acabou virando Margens.

A marginalidade é um tema que é caro à sociologia latino-americana. Dá notícia do imenso esforço intelectual de pensar nossa especificidade, nosso lugar no mundo, na história, na divisão internacional do trabalho... Dá notícia assim de uma posição, um lugar a partir do qual se pensa, duma perspectiva portanto que é a de quem está de fora, à margem. Nesse mesmo universo, marginal é nossa modernidade inconclusa, travada na reprodução das estruturas que não conseguimos modificar.

(Lembro-me que até meus 8, 9 anos, quando tinha que passar por São Paulo, ficava desesperada por que teria que passar pelas "marginais". É difícil explicar o terror que essa palavra me provocava. Na minha percepção infantil, olhando as favelas e moradores de rua debaixo dos viadutos, passar pelas marginais era passar pelas margens da sociedade, ali na tênue fronteira entre os homens de bem e os deserdados da sorte).

Conforme fui pensando no entanto sobre o tema das "margens", me lembrei ainda do Drummond, meu poeta amado, com quem propus passar um mestrado junto, mas que acabei abandonando no começo do caminho. Tudo porque, como a Ana bem notou, tive que abrir mão da poesia lúcida e tensa para ficar com a crônica - leve, inteligente, mas muito diferente da dor que aparece, por exemplo, no poema "O relógio do rosário": "(...) E nada basta,/ nada é de natureza assim tão casta/ que não macule ou perca a sua essência/ ao contato furioso da existência./ Nem existir é mais que um exercício/ de pesquisar de vida um vago indício,/ a provar a nós mesmos que, vivendo,/ estamos para doer, estamos doendo" (em Claro Enigma).

Dor que no último livro, Farewell, aparece de forma ainda mais acabada.

E, me lembrando do Drummond, me lembrei de duas coisas, ambas presentes de algum modo na ideia das margens.

A primeira é do "Poema de Sete Faces", que tem alguns dos versos mais citados do Drummond, inclusive esse, o primeiro: "Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: 'Vai, Carlos! Ser gauche na vida." Condenação do poeta ao desajeito e à incompreensão, tensão de se fazer literatura após o fim da eternidade (início da modernidade - esse tempo que se define pelo presente). O poeta à margem do mundo, porque incapaz de entender a fúria da existência, que sem cessar destrói os ideais.

A segunda coisa de que me lembrei foi que, durante toda a graduação, Ana, Mauricio e eu, "lemos a seis mãos". Todo final de semestre, o rito de trocarmos nossos trabalhos, de nos escrevermos looongas cartas comentando o semestre, os trabalhos uns dos outros, nossas descobertas e crises (desde aquela época) com a sociologia. Três gauches, sempre um tanto desajeitados nas bordas definidas pelo conhecimento de tipo sociológico. Eu e a Ana flertando com a Letras; o Mauricio namorando a Filosofia.

Fui eu quem saí da Sociologia, para ir para a Teoria Literária. E, por ironia, fui eu quem voltei para fazer Sociologia num de seus temas mais clássicos, que é o trabalho. Ainda que do jeito mais torto possível, pensando o desemprego oculto pelo desalento: a liminaridade da situação liminar.

Ainda assim, continuei gauche. Continuamos todos, acho. Meio soltos no meio do fluxo de um rio que nos desafia. Sentados à margem, tentando convencer o pensamento a se reorganizar de outra maneira. Parados à margem do rio, tentando sorver-lhe às colheradas em suas densidades, temperaturas e na vida que carrega. Albatrozes de asas imensas se arrastando pelo chão, andando à margem da praia.

Margem como o que nos define, como o que nos move a pensar e como o que nos incita ao transbordamento. Era disso que eu gostaria de falar.

Margens, marginais, margaridas, margarinas

"Margens: reflexões sociológicas" é uma iniciativa proposta pela Fabiana. Basicamente, viveremos de provocações - no bom sentido. Então vamos lá: sugerida pelo Maurice a primeira provocação: para uma sociologia das margens...

Pensemos numa imagem daquelas de antigos calendários de armazém: o campo, a cabaninha, o caboclo pitando apoiado na cerca, o cachorro, a montanha ao fundo e o lago na frente, refletindo tudo de ponta-cabeça (lembrei agora que em casa, quando eu era criança, havia um quadro assim... gozado como escrever puxa certas coisas da memória). Da margem de um lago num dia calmo todo mundo acorda aquele Narcisozinho que mora lá no quarto dos fundos... (alerta de ironia), isto é, nossa face no reflexo-espelho lacustre pode ter uma moldura bonitinha (ainda que brega), mas mesmo sem montanha e companhia é irrestível dar pelo menos uma olhadinha na nossa própria cara, arrumar os cabelos e brincar de jogar pedrinhas e ver a nossa cara pulando as ondinhas. Chega de diminutivos?

Mas é isso que você pensou. Se pro Zygmunt Baumann tudo é líquido, o amor, a vida, o medo, estão se liquefazendo, o que se imaginava sólido está fundindo, derretendo, então tudo escorre e escorrega, e se o que antes era sólido não apenas 'se dissolve no ar' (na frase de Marx), mas se mistura numa torrente de gororoba que não se deixa agarrar, ainda existirá uma margem onde se pise com certa solidez e de onde se aviste um reflexo-espelho?

Se por margem entendermos uma opção metodológica, e se insistirmos na idéia de parar a torrente para olharmos dentro e procurarmos a nós próprios, talvez seja ainda possível, ainda que a custa de baldes ou mesmo colheres. Talvez grande parte da prática sociológica seja mesmo uma sociologia em colheradas, para provarmos o sabor da sopa social (dá pra fazer um lema: se a sociedade é líquida, sociologia às colheradas!).

Por outro lado, margens e reflexões podem ter outros sentidos, por exemplo, 'anotação à margem do texto'. Meu preferido - sublinho o "meu" - é imaginar que, já que estamos em meio à correnteza, o que é meio que subversivo é olhar para daqui para as "margens", e que o reflexo necessário não é aquele nosso na janela do trem desgovernado, mas a imagem distorcida do próprio trem (ou seria barco?) no espelhinho quebrado do carro velho abandonado ali do lado (alerta de plágio involuntário: acho que essa idéia não é minha mas não lembro de quem é).

Se houver algo como uma sociologia das margens, não será por somente ou privilegiadamente buscar a marginalidade, o limítrofe caindo para fora, a estabilidade que remedia a vertigem (e vice-versa), a nitidez alta-definição 200 megapixels mas ainda assim imagem mediada, a documentação impecável e inédita ou o brilhantismo erudito e respeitável. Margem, organizada ou selvagem, talvez seja aquilo muito importante mas que não tenha esperança nem utilidade em ser explicada, como margarida-margarina, mas que, de alguma maneira estranha, nos toca.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A cidade residual

Antes de vir para São Paulo, eu tinha medo de São Paulo. Medo, não: pavor. Quando passei no vestibular para a 2ª fase, em 1995, sonhava to-dos os dias que a cidade era enorme e eu era tão pequena que quase me perdia em cada posto, em cada esquina.

Mesmo depois de ter vindo, eu ainda tinha medo da cidade. Só fui perdendo o medo ao fazer uma das coisas que mais me assustavam: andar no Centro de São Paulo. Primeiro, ia de vez em quando com a Ana Lúcia, que morava no finalzinho da Brigadeiro Luiz Antonio. A gente ia andar na República, no Teatro Municipal, ver o prédio da Light...Era tudo tão intenso. E ao mesmo tempo tão humano. E foi então que entendi que a cidade era viva, o que me fez com que o medo diminuísse consideravelmente.

Quando fizemos Métodos em Pesquisa III, acabamos reunindo um grupo de amigos e escolhendo o Mercado Municipal como "objeto" de pesquisa: durante quase seis meses, uma vez por semana, nos encontrávamos no Café Girondino, no Largo do São Bento, e de lá caminhávamos até o Mercadão. Às vezes, cortávamos caminho pela 25 de março. Aliás, sempre que passo lá me lembro de todos nós caminhando em meio à confusão, gritos, camelôs e do Mauricinho que, um dia, com um ar bem tranquilo, virou para nós e disse "- Tá vendo ali? Naquela esquina? Pois foi ali que o Contrato Social foi rasgado".

Com o Prof. Martins, de Sociologia da Vida Cotidiana, também realizamos vários passeios ao Centro: ao Cemitério da Consolação, ao Mosteiro de São Bento, ao Mercado Municipal, Pátio do Colégio, Museu dos Imigrantes. Com ele, aprendemos a decifrar as camadas das diferentes sociedades presentes nos monumentos, na arquitetura, na arte: a disposição da cidade revelando as maneiras de dispor das pessoas e dispor as pessoas.

Foi com o Martins também que lemos Henri Lefèbrve, sociólogo/filósofo marxiano que dedicou parte de sua obra à análise da vida cotidiana. Lefèbrve construiu uma sociologia rica em tensões e em vida, opondo-se a uma concepção empobrecedora e determinista de Marx. Ele não dividia, por exemplo, a sociedade entre alienados e não-alienados, entendendo que alienados somos todos uma vez que as mediações são parte da vida social e é impossível sempre ter consciência de tudo. De outro lado, o poder nunca é absoluto, há sempre algo que lhe escapa: aquilo que é residual, que não se deixa cooptar, que persiste mesmo que não necessariamente como consciência acabada de alguma coisa: persiste como mal-estar, como pesadelo, como algo que está "fora do lugar". É residual tanto porque é o que "resta" como porque pode restar sob a forma de uma pequena sobrevivência ao qual a sociologia precisa estar atenta (daí a importância de uma sociologia da vida cotidiana).

Lembrei de tudo isso porque, na semana passada, o querido Mauricio Ayer me mandou uma mensagem em que contava um pouco do projeto Cartão Postal, realizado pelo coletivo de artistas do qual ele faz parte - As Rutes - na Mostra Sesc de Artes. Eles selecionaram alguns lugares, "cartões postais" da cidade como o Vale do Anhangabaú, o Parque da Luz, o Viaduto Santa Ifigência e a Bolsa de Valores, entre outros, e prepararam intervenções especiais em cada um deles. A partir da experiência, foram criados Cartões Postais residuais de cada espaço, isto é, cartões que não registram a paisagem morta do cartão postal, mas a vida de quem passa por ali.

Os registros estão no blog O Diário do Viajante e são muito, muito interessantes. Os monumentos que viram cartões-postais em geral são construídos como afirmações de poder, como expressões do desejo de afirmar uma nova ordem (caso do Mercado Municipal, por exemplo, parte de um projeto de higienização da cidade): são feitos de beleza, mas também de opressão; podem ser celebrativos, mas querem fazer desaparecer a vida de todo dia, na medida em que se inserem em outro espaço e outro tempo.

Por isso, é muito legal essa '"brincadeira" de experimentar os espaços dos cartões-postais, seja estimulando os sentidos (vejam o cartão do Viaduto Santa Ifigênia), seja recuperando as histórias que permeiam o espaço e a relação das pessoas com o espaço (vejam os causos do Parque da Luz), seja contrapondo-se ao barulho simplesmente ficando em silêncio (no Vale do Anhangabaú). Mais legal ainda é que o cartão que resulta do processo é muito eloqüente para apontar as tensões, as ambigüidades, a vida que acontece no espaço congelado para ser visto pelos olhos dos turistas. A beleza de quem vive o espaço é diferente da de quem com ele tem uma relação de consumo (aprendi também com o Martins e o Lefèvbre: a lógica do usuário é diversa da lógica do consumidor...). Os turistas consomem o espaço; os cidadãos, o utilizam.

Por isso, os "retratos" que fizeram As Rutes dos nossos cartões-postais resultaram em registros bonitos dos desencontros e dos encontros que acontecem na cidade. Não foram fotos panorãmicas, mas fotos com um zoom muito potente. Tão potente que registrou parte dos resíduos presentes na cidade: a lógica, os sentimentos, as sensações e as críticas de quem está na cidade não para consumi-la, mas para viver nela. Os resíduos de humanização e de esperança que tornam possível que não sejamos engolidos pela cidade e seus intensos fluxos; resíduos que transformam o medo em sedução: nos meus sonhos, a cidade não mais me devora - somos irredutíveis, ela e sua intensidade demoníaca, eu e minha humanidade recalcitrante.

Obrigada, Mau, por ter se lembrado de mim e provocado tantas lembranças e reflexões. Não vejo a hora do meu cartão-postal chegar!





("São, São Paulo, mon amour"; Tom Zé)

domingo, 23 de novembro de 2008

Tu não sabes de nada, minha querida....

A viajante acaba de encerrar seu dia de trabalho na Biblioteca Nacional de Portugal, num dia em que lera nas Figuras e Problemas da Literatura Brasileira Contemporânea, de Adolfo Casais Monteiro, que a parceria entre brasileiros e portugueses durante o Modernismo se poderia resumir à vinda de António Ferro ao Brasil para apresentar sua A Idade do Jazz Band. A viajante interessa-se enormemente, e por isso, vai à grande livraria localizada no Centro Comercial do final da Rua Garret, no Chiado, onde, aliás, costuma passar seus inícios de noite ainda cheios de sol do verão europeu, procurar o livro que pretende trazer na bagagem sem saber ainda que vai por à prova um dos seus preconceitos mais arraigados. Procura um vendedor que, como cá, não é lá muito familiarizado com a bibliografia que lhe interessa, e lhe pede em bom brasileiro: “-Vocês têm A Idade do Jazz Band?”, ao que recebe como resposta um silêncio que traz na entrelinha um “não sei do que estás a falar”, seguido da tomada do “rato” do computador para “checar no sistema”. Não tinha. Como a viajante está acostumada a encontrar pequenas obras que lhe interessam em grandes coletâneas do autor, faz uma nova pergunta: “- O que é que vocês têm do António Ferro?”, pergunta que é surpreendentemente retrucada com uma nova pergunta por parte do vendedor: “- O ministro do Salazar?” É o momento do silêncio da viajante, que é subsumido por sua resposta, agora em bom português: “-Há dois? Porque se há, é o outro.” A isso o vendedor não soube responder. Entrando na Biblioteca no primeiro horário do dia seguinte, a viajante vai em busca de desvendar o que é que o Sr. António Ferro andou fazendo de sua vida depois de vir ao Brasil, e descobriu que, de fato, António Ferro que lhe interessasse só havia um, o futuro diretor do Secretariado Nacional de Informação e Ministro de Portugal em Berna durante o governo de Oliveira Salazar, o mesmo que viera ao Brasil em 1922 apresentar sua performance intitulada A Idade do Jazz Band, tendo sido recebido no Rio de Janeiro por Ronald de Carvalho e, em São Paulo, por Guilherme de Almeida. Nesse dia, a viajante começa a perceber o que é tomar um samba do seu objeto, percebendo que a comparação que, pretensiosamente, meteu-se a estabelecer, se dá entre dois parâmetros de complexidades bastante diversas. Se há margem nessa brincadeira, ela está ocupada pela viajante que, sentada num banquinho sem encosto, com as mãos entre os joelhos, olha desolada para o centro das suas inquietações, incapaz de cercá-las.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Máquina do Tempo - H. G. Wells

O ano é 802.701. A humanidade dividiu-se em duas linhagens: os Eloi, habitantes da superfície, e os Morlock, que vivem nos subterrâneos. Tentando retornar ao seu mundo, o Viajante do Tempo descobre a terrível verdade: os Morlock alimentam-se dos Eloi, e estes não passam de gado nas mãos dos primeiros. "Eu compreendia agora o que estava escondido por baixo de toda essa beleza do mundo exterior. Muito agradável era o dia dos Elois, tão agradável como o dia do gado na pastagem. Como o gado, não conheciam inimigos e tinham quem lhes provesse a todas as necessidades. E o fim deles era o mesmo" (p. 92).

A metáfora é explícita e faz parte das próprias conjecturas do Viajante do Tempo. Os Eloi seriam os descendentes da classe burguesa (e a descrição de sua vida no início do livro em tudo a ela se assemelha, desde a despreocupação com a vida material – pois apenas colhiam os frutos abundantes da terra, produzidos pela classe operária – até a atitude blasé característica desse tipo de vida), e os Morlock, os descendentes da classe operária. Em algum momento no tempo, o jogo se inverteu, apesar das aparências ainda contrárias, e a verdade subterrânea revelou-se definitiva: são os Eloi-burgueses os verdadeiros escravos dos Morlock-proletários, pois deles dependem para a própria sobrevivência, ao utilizarem a sua força produtiva. Nesse sentido, os Eloi e os Morlock são o espelho mesmo das classes tal como as descreve o materialismo dialético: opostas, mas complementares e interdependentes. Não haveria burguesia sem proletariado, nem proletariado sem burguesia. Só que o horizonte da história marxista mostra-se impossível nesse livro sombrio: o choque dialético não daria lugar a uma sociedade sem classes, mas, ao contrário, sua contínua evolução dialética radicalizaria a sua dependência mútua.

Dessa forma, A Máquina do Tempo mostra-se um livro em tudo tributário do gênero que se convencionou chamar ficção científica, tão caro ao século XIX do qual faz parte (foi escrito em 1895). Pode-se dizer que o gênero foi inaugurado com o clássico de Mary Shelley, Frankenstein, que já trazia todas as preocupações que lhe seriam definidoras: a crença no progresso científico da humanidade aliada a uma certa descrença com relação à sua evolução moral. Não havia dúvidas quanto às infinitas possibilidades no campo do saber científico: muito pouco faltava para o homem vencer todas as barreiras que a natureza lhe impunha, como a morte, a criação ou a continuidade temporal. Nesse último caso, talvez o livro seja fantasista ao extremo, o que não importa tanto se se levar em conta suas preocupações metafóricas.

Pode-se dizer também que a literatura sociológica possui essa mesma origem, e as mesmas preocupações. Pois a sociologia de Durkheim, se não duvidava do progresso material que tendia a aumentar cada vez mais, já se revelava cética quanto à evolução moral das sociedades: a anomia era o preço a pagar pelo progresso, ainda que Durkheim acreditasse num retorno à estabilidade social.

Assim, A Máquina do Tempo é um romance que pertence ao XIX, e é herdeiro de suas principais correntes de pensamento: o positivismo e o marxismo. Do positivismo, guardou a crença no progresso científico, e do marxismo o conflito social. Mas ainda é possível lê-lo com interesse. Porque, sendo literatura, não era apenas transformação em romance dessas correntes de pensamento, mas as ultrapassava. Não é do futuro que ele fala, mas do presente. Metaforiza a divisão entre classes, mas principalmente mostra-se cético quanto ao progresso da humanidade. Assim é que pode ultrapassar o positivismo e, principalmente, o marxismo positivista, que via na história um continuum sempre em direção a um progresso, cujo destino histórico final necessário era a sociedade sem classes.

Tudo isso foi perdido na realização do filme pelo bisneto de H.G. Wells, em 2002. Onde não havia razão outra que a curiosidade científica típica de uma personagem do XIX, colocaram razões emocionais (o Viajante do Tempo, que também ganhou um nome, estaria tentando recuperar a vida da namorada). Acrescentaram viagens intermediárias no tempo, dando um motivo cataclísmico para a divisão humana em duas raças. Pior, destruíram toda e qualquer possibilidade metafórica, fazendo dos Eloi uma tribo indígena que ainda sabia falar inglês (!), e dos Morlock uma raça sub-dividida em diversas espécies. Pior ainda, modificaram completamente o final da história, forjando um final feliz em nada condizente com o espírito do livro.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

quase-epígrafe

Essa era a minha epígrafe para a primeira parte da tese, metodológica:

“Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de...de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo” (!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente e apenas é: uma procura humilde. (...) Quando falo em “humildade”, refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refiro-me à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente”.

(Clarice Lispector)


Mas, por pudor, tirei ela de lá. Embora ela seja exata para dizer do que foi todo o esforço de encontrar um jeito de me aproximar das questões que me interessavam: nada mais que uma procura humilde.

Espero que, apesar da supressão da epígrafe, as coisas não me escapem totalmente.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ainda sobre maternidade como experiência

Por coincidência, hoje cheguei no Everyday Sociology Blog e encontrei este post: "What kind of care do american babies receive?", refletindo sobre o que significa para a rotina das crianças passarem seus dias em instituições de cuidado.

Embora a gente tenha a idéia de que nos EUA, a educação pública funciona, há grandes variações regionais e ela inicia apenas a partir do ensino fundamental. Para colocar crianças pequenas em instituições escolares, é preciso pagar, e não é pouco. Como o artigo comenta, uma instituição padrão cobra u$200,00 por semana.

A reflexão que ela propõe tem a ver com algumas das questões que tentei expor ontem.

E só para esclarecer, quando sugeri que deveríamos deslocar o interlocutor do mercado de trabalho para questões de saúde, saúde mental e educação, estava justamente querendo marcar alguns limites de pensar o exercício da maternidade e paternidade apenas como contrapartida do trabalho e seus direitos. Estava propondo uma mudança no foco estratégico: para defender essa perspectiva de que os pais devem poder escolher ficar com os filhos, vamos acumular informações sobre os impactos da presença dos pais nos primeiros anos para a segurança dos filhos, vamos pesquisar o quanto se deixa de gastar com doenças na primeira infância se a mãe tem possibilidade de manter o aleitamento por mais tempo, vamos entender o que significa, para a independência de nossos filhos, que eles tenham tido a chance de serem dependentes quando pequenos.

Vamos mudar a chave iterativa do quem-paga-o-direito-do-pai-e-da-mãe-ficarem-em-casa? para os resultados de sua presença no capital humano e social de nossas crianças, (apelei, admito. Mas é que não sei se falar em felicidade funciona...). Vamos transformar o problema do direito ao afastamento do trabalho em um problema de direito da criança à educação de boa qualidade.

E para isso - concordo inteiramente contigo, Paulinho - precisamos também de uma discussão que não se limite à discussão de gênero, do tipo é preciso liberar o pai para ajudar a mãe. É preciso que ambos sejam vistos como co-responsáveis pela educação do ser nascido.

Daí minha provocação: as mulheres, movidas pelo desejo de estarem próximas a seus filhos e gozando de mais legitimidade social para fazê-lo, tem inventado diferentes formas de trazer os filhos pequenos para sua vida, ao invés de terem que abrir mão da vida para estarem junto aos filhos. Mas isso porque sua necessidade é de aumentar os limites da casa e do papel feminino.

E os pais? Principalmente aqueles cujo desafio não é aumentar os limites da casa, mas restringir os limites do trabalho? Porque a questão não pode se restringir ao gênero, mas é claro que há diferenças na experiência de mães e pais que se relacionam a diferenças de gênero. Provocando: quais os limites da masculinidade que a experiencia da paternidade incita a ultrapassar?

domingo, 16 de novembro de 2008

Maternidade como experiência


Já há algum tempo, por ocasião da aprovação da licença-maternidade de 6 meses às funcionárias públicas e às funcionárias das empresas que aderirem ao projeto, eu tinha iniciado uma reflexão sobre a maternidade, lá no meu Noturnos. Aí, correria total, nunca mais consegui tornar ao assunto.

Naquele primeiro post, a idéia era concordar com a extensão da licença - afinal, se recomenda-se aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, como é que a licença acaba aos 4? Tem muita mulher que consegue tirar e estocar leite, mas isso também tem um custo físico e emocional, especialmente se a mãe precisa ficar 8h ou mais longe do filho.

Além disso, a gravidez e os primeiros meses são períodos de fusão e proximidade intensas. E quem já acompanhou o desenvolvimento de um bebê, sabe que é só depois dos 3, 4 meses que eles vão saindo da fase troca-dorme-mama-faz cocô-dorme-dá banho... Então, no momento em que eles estão começando a perceber o mundo, rompe-se o convívio com aquela que no início é a mediadora entre ele e o mundo. Insegurança danada, pro filho e pra mãe. Dois meses pode parecer pouco, mas nesse processo de diferenciação entre mãe e filho, é bastante tempo.

Mas o sentido daquele post também foi o de provocar um pouco, pensando a possibilidade de se pensar as licenças - da mãe, mas também do pai (vejam a reportagem sobre a campanha "Dá licença, eu sou pai" aqui) - não da perspectiva do mercado de trabalho, mas da perspectiva da educação e da família.

Pra deixar claro: não acho que não seja importante pensar nos significados e nas implicações das licenças maternidade e paternidade para as trajetórias de trabalho dos homens e mulheres que decidem ser pais. Não é isso. Mas acho que ficar apenas nesses termos nos dificulta pensar em outras dimensões da questão.

Eu e o Edu temos um filho (juntos; ele tem mais duas filhas lindas do primeiro casamento). Ele hoje está com 3 anos e nasceu no meu primeiro ano de doutorado.

Antes dele nascer, eu achava super possível conciliar tudo: trabalho, pesquisa, filho, família, amigos. Mas quando ele nasceu, virou tudo de perna pro ar e eu percebi que, ainda que fosse possível, eu não queria conciliar tudo porque os custos dessa conciliação são muito altos, pra todo mundo, mas especialmente pro filhote.

Aqui no Brasil a gente tem ampla oferta de mão-de-obra barata, e por isso certa facilidade na contratação de empregadas e babás. Há também berçários, que abrem às 7h, fecham às 19h, e não param nas férias, para atender às necessidades dos pais. A gente se acostuma, acha normal. Inventa teorias sobre a necessária socialização dos bebês de 4 meses. Mas eu tenho sérias dúvidas sobre esse modelo de "delegação" de tarefas dos cuidados mais rotineiros, acreditando no tal "tempo de qualidade".

Afinal, ter filho é bom, mas de vez em quando um pouco chato. É delicioso, mas também às vezes frustrante. É lindo, mas também cansa. Se o filho, no convívio com os pais, nunca os vê cansados, chateados, frustrados, como é que vai aprender a acolher o próprio cansaço, a própria chateação ou frustração? Que tipo de experiências podemos ter junto aos nossos filhos se nosso convívio com eles está reduzido ao tempo extra-cotidiano dos finais de semanas ou das férias? Que relação entre pais e filhos advém dessa organização do tempo e dessa estrutura em que se delega a outros a tarefa do convívio, com suas dores e delícias? Em que medida esse modelo não tem relação com a dificuldade dos pais em lidarem com o "lado ruim" dos seus filhos?

No caso de quem não tem ajuda, o problema é parecido, mas ao contrário: quando se está com o filho e sempre cansado, irritado e de mau humor, como é que eles vão aprender que ser adulto também pode ser bacana e que crescer não significa perder a liberdade e a alegria? Ou será que significa?

Escapar dos limites de como as coisas estão organizadas é muito difícil. Eu mesma, por ter escolhido me organizar de uma maneira que me permita estar tão presente quanto possível junto ao R., já ouvi várias vezes que sou muito protetora ou que não "largo" meu filho.

Essa forma que fui encontrando de ser mãe pode ser pensada até como uma espécie de movimento, o de Mamíferas ou Maternas. Digo que é movimento, embora não haja exatamente um programa. Acho que a característica principal é a do esforço contínuo em imaginar novas maneiras de experimentar a maternidade, em vários eixos - em relação ao trabalho, em relação à cultura (veja-se o belo trabalho do CineMaterna), em relação ao envolvimento do pai, em relação à feminilidade, em relação ao sexo... E essa imaginação se apóia na troca de experiências, em encontros - como os promovidos pelo GAMA - e em trocas virtuais (como a Materna_SP, por exemplo, já que ela tem dado muitos filhotes - literal e metaforicamente).

Não tem programa, mas tem valores comuns, como a crença na necessidade do bebê estar próximo à mãe, na importância da amamentação, na busca por uma educação não-violenta etc.

Minha provocação é: para escapar da discussão sobre mercado de trabalho, que acaba nos levando a sublinhar o problema de gênero; ou seja, para ser possível pensar mudanças no tempo de convívio entre pais e filhos, ou pelo menos em mudanças de modelos e padrões, é necessário que os pais/homens se envolvam nesse esforço de invenção. A Campanha "Dá Licença, sou pai" é um passo importante, mas será que a gente não tem que procurar inclusive outras formas, além das que a gente já conhece? O que mais além da licença os pais podem desejar, para estarem mais próximos do desenvolvimento de seus filhos?

E você, o que acha disso tudo?

Imagem: www.gettyimages.com.br

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Falando (mal) do trabalho dos outros - 2

Dando uma olhada em cotações online para seguro de carro, achei uma campanha que merece um comentário. Uma companhia oferece um seguro especial para mulheres. A empresa oferece como atrativos: 1) acompanhante para ir à delegacia, em caso de roubo ou furto 2) troca de pneus e auxílio reboque ilimitado 3) motorista amigo, em caso de medo ou falta de condições para dirigir 4) central exclusiva de atendimento (por uma mulher, pelo que dá pra entender) 5) franquia zero na primeira batida. Diz a empresa que é um seguro de carro 'com a essência feminina' (!).

Provavelmente há um mercado para esse tipo de coisa, mas se essas são as soluções que o seguro propõe, quais seriam os problemas que ele resolve? Dou meus palpites:

- Delegacia de polícia não é lugar de mulher sozinha: delegacia seria um lugar inseguro, escuro, cheio de marginais e prostitutas sendo presos e, talvez pior, cheio de policiais. Então mulher para prestar uma queixa numa delegacia, só se acompanhada de um macho marido, macho pai, macho irmão ou macho corretor. Tudo bem que delegacias tem, para a população, uma imagem bem ruim, e a corporação é machista também (mesmo). Anos atrás, eu trabalhei num projeto para tentar melhorar o atendimento nas DPs, implantou-se algumas providências - como não manter presos na carceragem e o BO eletrônico -, que aumentaram a segurança, melhoraram o ambiente e etc. Mas criar um serviço pago para acompanhar você, e só por ser mulher, é dose. É bem mais o caso de queimar sutiãs para exigir do poder público um atendimento decente.

- Mulher não sabe trocar pneu e quebra muito o carro: tudo bem que trocar pneu de um jipão desses que apavoram shopping-centers e portas de escola exige massa muscular, suja as mãos e pode quebrar as unhas, e pode ser uma coisa difícil se você é idosa, grávida ou está de minissaia e salto, mas esse serviço também tem utilidade pra homens, que podem igualmente ser idosos, grávidos e estar de míniss... de terno Armani e sapato de cromo. E todo mundo sabe que mulher, como não sabe dirigir, quebra mais o carro... (alerta de ironia!).

- Mulher é medrosa e indefesa: e não deve andar sozinha na rua à noite. Parece ser um cozidão de costumes arcaicos e modernos, o papel tradicional da mulher dependente e frágil junto com o perigo urbano da hora - o Ricardão de aluguel permite à donzela sair à noite em lugar suspeito, encher a cara e chamar o 'motorista amigo' pra trazer a carruagem de volta pra casa. Mas vá lá que tenha sua utilidade numa roubada.

- Mulher é burra e não sabe o que quer: daí um atendimento especializado por outra mulher, pois que assim já são cinco (2+2) neurônios somados.

- Mulher é barbeira e vai bater o carro: você maridão, que paga o seguro da dondoca, pode ficar tranquilo que a porrada inevitável que a mulher vai dar vai ter isenção de franquia.

Não é mole viver num lugar onde o cidadão se sente ameaçado tanto de ir e vir quanto acha inútil recorrer à uma autoridade ou serviço público, mas daí a ter a manha de insinuar que a 'essência feminina' é esse troço que 'reproduz os estereótipos de gênero' (alerta de clichê!) e precisa comprar mais 'segurança e proteção' dessa maneira é pedir para ser malhado! Essa campanha, aparentemente, mira mais o maridão machista que a mulher independente que sustenta o próprio carro e respectivo seguro, ou seja, insulta metade do público potencial!

Reconheço que há muita gente que precisa de assistência não para dirigir, mas para os imprevistos, mas também que há maneiras melhores de ganhar o seu cliente. Só para ficar no ramo, uma conhecida minha ficou encantada com seu seguro (de um concorrente desse aí): seu carro quebrou, e quando o guincho do seguro chegou, trouxe um kit de sanduíche e suco para a cliente. Ela a-do-rou! Gentileza que essa empresa não alardeia nem vende, mas pratica a custo irrisório e que garantiu elogios e a fidelidade da minha conhecida.

Grifos

"A história de Foucault não é uma história sem sujeito (...), apenas os sujeitos não são uma aparição fenomênica de uma essência transcendental, de uma entidade chamada Homem. Os sujeitos, em Foucault, são radicalmente históricos, com tudo de finitude e efemeridade que isso significa. Os sujeitos foucaultianos não têm natureza humana, são de natureza histórica".

Durval Muniz de Alburquer Jr. "Experiência: uma fissura no silêncio". História: a arte de inventar o passado: Bauru, EDUSC, p.140.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Obama e a inovação

É irresistível dar mais uns pitacos amadores sobre o Obama. Mais precisamente, sobre o que foi quase consensualmente visto como uma inovação, tanto política quanto tecnológica, que foi o uso de tecnologias de comunicação em escala inédita durante a campanha. Internet, celulares, redes sociais, vídeos online - uma grande variedade de ferramentas foi usada não só para informação-propaganda, com a qual estamos aqui mais habituados na forma das campanhas eleitorais, mas também para arrecadar fundos de qualquer um que quisesse contribuir com qualquer quantia (com enorme sucesso, que o diga o endividado McCain), e para mobilizar e organizar um extraordinário contingente de voluntários, com ressonância num país onde metade dos cidadãos tem acesso à banda larga e com grande impacto nos eleitores mais jovens, que usam tecnologia com naturalidade e que se apaixonaram pelo cara que chegou até eles na forma como eles chegam (se relacionam) uns com os outros.

Claro que não adiantaria tanta tecnologia se o Obama não tivesse conteúdo, ou seja, seus próprios méritos. Mantendo seu próprio aparato de informação, Obama deu o drible da vaca nos impérios comunicacionais estabelecidos, encurtou a distância com seus eleitores e neutralizou a gigantesca máquina difamatória, mistificadora e manipuladora do partido republicano, que aliás também tem lá um monte de tecnologia ao seu dispor. Ou, um pouco antes, para vencer as primárias democratas contra a favoritíssima Hillary.

No dia seguinte à eleição, nonstop, já estava no ar o site da transição. É de se imaginar a complexidade do trabalho de bastidores e do planejamento que está rodando a todo vapor - e, até onde dá pra ver, o próprio Obama é o gestor desse trem todo, não sendo mistério que ele é versado nisso (mas Bush acho que também é formado em administração etc.; tirem suas conclusões).

Voltando um pouco para a questão da inovação, se fosse para fazer uma fórmula, dá pra dizer que se Obama fez campanha do século XXI, nossos políticos aqui estão no século XIX. Dezenove, eu disse, tipo primeira república. A campanha de Obama tornou velho todo o aparato eleitoral cá instalado, e não estou falando de urnas eletrônicas, mas de legislação, organização e prática política. Por exemplo, financiamento de campanha: aqui só se fica sabendo quem financiou quem depois da eleição, mas o que parece valer mesmo é o tal caixa 2 (que digam nossos governantes reféns de interesses privados, né Daniel Dantas). Escolha de prioridades de governo - que nada mais é que "o" aspecto da representação política democrática - com mais transparência, debate e participação. Valorização do eleitor, com estímulos e oportunidades variados de participação ao ponto da mobilização voluntária - patrimônio dificílimo de conquistar, inestimável, que o PT aqui tinha, mas perdeu para a 'militância paga' e outros esquemas. Obama não conseguiria fazer uma campanha de mesmo estilo por aqui, e o fato aqui não é tanto a desigualdade no acesso à tecnologia pela população, que embora seja muito grande, é muito dinâmico e vibrante e, se pensarmos na crescente difusão de celulares, telecentros e lan houses, é mais relativizável ainda. Nem é a (falsa) suposição que aqui não existem as mesmas ferramentas e profissionais que saibam usá-las. Mas aqui a Justiça Eleitoral simplesmente impede a livre manifestação e uso de tecnologia. Pelos candidatos e pelos cidadãos. Ponto. Merda.

Todo esse blá (sobre esses pontos e muito mais é só fuçar por aí), para chegar onde estamos agora, que são nas expectativas para o governo Obama. Do ponto de vista de inovação candidato-eleitor para governante-cidadão. Os cenários básicos parecem ser: o aparato burocrático e institucional do Estado, mais a crise econômica, mais o ainda forte peso republicano subjugariam o governo até o nível das práticas tradicionais, e a tecnologia viraria suporte para a espetacularização e legitimação do governo. Outro cenário pode ser: o aparato do Estado e os outros atores citados mantém-se a custo de concessões, inclusive ideológicas (intervenção do Estado agora é bom e tal) e o governo utilizando a tecnologia para sustentação mezzo populista mezzo calabresa. E o cenário de sonho, onde a inovação, vislumbrada na campanha - Change! - seja incorporada como forma de governo, capturando os outros atores e realizando algumas das promessas da tecnologia já pressentidas pelos cyber-ativistas: transparência, participação, democracia, liberdade, informação e educação, mas também como força produtiva senso estrito: reinvenção institucional do Estado, transformação econômica (por exemplo, pela troca das fontes energéticas), novas relações internacionais mais próximas dos cidadãos globais.

Um fragmento de informação hoje dá uma pista esperançosa mesmo distante de delírios oníricos. A equipe de transição de Obama vai, segundo a Folha Online, fazer a lição de casa ("Obama cria força-tarefa com 450 contra burocracia do governo Bush" ). Diz o site que 450 analistas vão percorrer mais de 100 organizações e programas para mudar rapidamente o rumo do pais, a partir da posse. Traduzindo o 'folhês', ou seja, descontando a bobagem insinuada de que Obama é contra a burocracia e tal, e sendo otimista - e no meu caso, um pouco menos amador - 450 analistas em dois meses é o suficiente para um trabalho de Hércules, que imagino ser algo como o mapeamento de todos os macroprocessos (perdão pelo jargão), ou seja, o mapa da mina de tudo o quê e como faz essa organização monstrenga que é o Estado. Para entender melhor, imagine que um macroprocesso seja um fazer, como, por exemplo 'arrecadar o imposto de renda', ou 'distribuir a Bolsa-Família', ou 'prover educação sexual nas escolas'. Agora, imaginemos que esses processos, uma vez mapeados, isto é, descritos e analisados em termos gerenciais (objetivos, responsáveis, orçamento, recursos, cronogramas, resultados, indicadores etc.), estejam em um sisteminha, a um toque dos dedos do governante, aquele cara que sabe o que fazer com essa informação. Sabe quem faz o quê. Sabe quanto custa. Sabe resultados. Sabe como não ser enrolado por assessores ou lobistas. ISSO SIM É CHOQUE DE GESTÃO, não aquela coisa bicuda e emplumada que aparece aqui em São Paulo toda santa eleição.

Não há nenhuma novidade nisso - que o governante tenha a seu dispor um sistema de gestão. Inclusive há empresas que vivem de vender esses sistemas. Mapear todos os processos de governo, ao mesmo tempo, na prática, com quase certeza é inédito, porém. Mas o fato, se for desse jeito que imagino, de colocar um batalhão de analistas olhando tudo o que o Estado faz, demonstra disposição de fazer pelo estado da arte, não esse troço que se compra na esquina. Mapear os processos do estado de São Paulo é promessa esquecida, por exemplo. A sequência lógica (e metodológica) após mapear os macroprocessos, é continuar a análise, espremendo-os até os mais simples procedimentos, e revisá-los e aperfeiçoá-los, visando sua racionalização, automatização, integração, articulação - e inovação. Não é gestão pela planilha do secretário, uma vez por mês, por rubrica orçamentária, pobremente monetarizada e atrasada. Nem gestão por powerpoint, onde o resultado é tanto melhor quanto mais coloridos são os gráficos. Por aqui, a gestão do PAC, por exemplo, se baseia no acompanhamento de projetos priorizados e transversais à máquina setorializada, o que já é um avanço, mas o ideal seria que o Estado inteiro pudesse ser gerido em bases mais, digamos, eficazes.

Obama foi atacado na campanha pelo flanco de sua inexperiência gerencial. Mas, se foi ele mesmo quem gerenciou a própria campanha, como ele diz, a manha de manager ele tem de sobra. Mas isso não fará um governo, nem mesmo garante automaticamente um governo inovador. Governo é, como diz o Lula, o jogo da política - mas isso é pra outro(s) post(s).

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Falando (mal) do trabalho dos outros*

*Talvez vire uma série, mas explicando melhor, uma vez eu quase apanhei da Fabiana por que eu disse que o trabalho do sociólogo é, ao final, falar mal do trabalho dos outros. É claro que críticos de arte, comentaristas econômicos e de futebol, comentarista de costumes (moda etc.), e vários outros profissionais fazem isso bem mais descaradamente e com resultados às vezes mais engraçados e certamente mais bem pagos. Mas a provocação é que falar mal do trabalho dos outros é necessário - quando se tem alguma razão, a ciência, o universo e tudo o mais progridem - não só pra sociólogo, mas pra qualquer situação que eu consigo pensar agora que envolva debate e comparação de posições. Por isso tendo a simpatizar com quem torpedeia dogmatismos e/ou faz ver a nudez dos poderosos (e dos súditos), mesmo sem técnica nem elegância. Mas também com quem domina a arte do guerreiro zen: Stanley Fish comenta a psicologia comportamental e a tortura

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Delicadeza

Era esse o nome da conferência da Maria Rita Kehl que eu e o Maurice fomos assistir há umas três semanas.

Como ela mesma disse, a delicadeza não é algo que seja possível abordar diretamente, sendo necessário realizar aproximações a fim de delinear alguns contornos sobre o tema do qual se fala.

Desde o início da fala dela, porém, ficou claro que ela estava tratando da delicadeza como algo que se contrapõe à velocidade e ao fluxo contínuo do tempo, que nos atropela e nos impossibilita fixar experiências. É à aceleração do tempo rumo a um futuro que nunca chega, portanto, que ela contrapõe a idéia de delicadeza.

Ao longo da exposição, para evitar que se pensasse a delicadeza como um meio para atingir determinados fins, ela tentou marcar a delicadeza como efeito. Porém, em alguns momentos ela tratou a delicadeza como uma atitude, como a possibilidade de criar distância da correnteza da passagem do tempo.

Eu, particularmente, gosto mais dessa maneira de entender a delicadeza.Mas quero seguir na trilha aberta pela Maria Rita Kehl, da contraposição entre a delicadeza e o correr do tempo, que inexoravelmente nos leva em direção à morte.

É um tema sociológico clássico: a modernidade como a passagem do tempo cíclico para um tempo linear, contínuo e inteiramente voltado para o futuro porque ancorado na idéia de progresso. Está lá no Weber, por exemplo, a diferença entre o sentimento de plenitude ao final da vida que pode ter um camponês contraposto ao sentimento de cansaço de um homem moderno, para quem nunca nada é suficiente.

Assim como está no Benjamin a figura do anjo que tenta inutilmente conter a tempestade do progresso, tentando olhar para trás e distinguir no passado os acontecimentos (já comentei aqui sobre essa leitura do Benjamin a respeito do quadro do Klee). Aliás, a Maria Rita Kehl se referiu ao Benjamin, dos textos “Experiência e pobreza”, “O narrador” e os comentários sobre Baudelaire.

Não vou conseguir escrever todas as dimensões que a fala dela me provocou a pensar, então vou ficar apenas com uma. Ela citou o Heidegger, num texto em que ele dizia da “necessidade de proteger a finitude” (ação que ela aproximou da idéia de delicadeza).

Ela tomou outro caminho em sua análise, mas eu fiquei pensando (e era essa a pergunta que eu ia fazer a ela, Maurice) se “proteger a finitude” não significa reinserir a morte do horizonte do tempo. É uma ação que pode ser pensada do ponto de vista individual, claro (e vou aproveitar aqui para fazer propaganda do lindo texto escrito pela Kalu, lá nas Mamíferas, que traz uma bela reflexão sobre as relações entre vida e morte) mas que também pode ser pensada do ponto de vista metodológico – sociologicamente, porque é esse o meu campo, mas acho que valeria para as Ciências Humanas em geral.

Como ultimamente eu tenho lido muito o Foucault, me impressiona na maneira que ele tem de pensar as coisas, esse esforço contínuo de des-naturalizar termos, categorias e formas que a gente acaba tomando por naturais. O Estado; o Poder; a Loucura... À essa “essencialização” dos termos e formas, ele contrapõe um “esvaziamento”, que implica em fazer uma história das relações que preencheram tais termos e formas de um certo sentido. Parece óbvio, mas, infelizmente, não é.

Talvez seja possível entender essa maneira de construir as questões, identificando problematizações, pensando a partir das crises e das impossibilidades que se tornaram possíveis, como uma maneira que se desdobra da inserção da morte e da finitude no horizonte do tempo. Ao invés de ver a continuidade de um Estado essencial, ele vai demarcando os acontecimentos que implicaram em transformação, em inversão, em ruptura ou descontinuidade em uma determinada arte de governar, que assim torna possível uma outra forma. Sob a mesma figura do Estado, tem-se portanto um outro conjunto de governamentalidades ou, ainda, uma nova articulação entre as governamentalidades que já existiam.

Sob a aparência de continuidade e progresso, a análise insere a possibilidade de compreender o fim de alguns mundos. O que, aliás, me lembra de um trecho de uma crônica do Drummond:

Não se sabe ainda se o mundo acabou realmente no sábado, como fora anunciado. Pode ser que sim, e não seria a primeira vez que isso acontece. A falta de sinais estrondosos e visíveis não é prova bastante da continuação. Muitas vezes o mundo acaba em silêncio, ou fazendo um barulho leve de folha. Tempos depois é que se percebe, mas já então vivemos em outro mundo, com sua estrutura e seus regulamentos próprios, e ninguém leva lenço aos olhos pelo falecido.

A inserção da morte no horizonte da vida, então, é uma posição analítica que abre espaço para que seja possível marcar a especificidade que subjaz à aparente continuidade. Não para levar lenço aos olhos, mas para "nomear as heranças" (se quiséssemos falar como a Hannah Arendt) ou para mudar o jogo estratégico (se quisermos falar como o Foucault).

Imagem: Patricia Metola, em http://tipika.blogspot.com/

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Michael Crichton, mega master ninja geek

Michael Crichton morreu ontem. Há um obituário no NYT, muito bom, como de costume. Crichton é (era) dessas figuras onipresentes da cultura pop, que simplesmente não conseguimos evitar, como Madonna, os Beatles, Britney, Brangelina, e assim vai. Mas era escritor, basicamente, então era um pouco 'menos pop' e trabalhava 'feito um mouro' (contador de clichês: engage!). Não me lembro de ter lido um único livro dele - mas como a maioria, até sem saber, vi um monte de filmes baseados em livros dele - a série Jurassic Park, além da série de TV 'ER'. Além disso o cara foi diretor de filmes bem bacaninhas, como Coma e Runaway, e principalmente, Westworld.

O aspecto que eu quero dar uns pitacos é que o cara, aparentemente, era um baita CDF. Nerdão. Cabeção. Fez medicina em Harvard. Manjava de antropologia. E estudando medicina, escrevia nas horas vagas - coisa que estudante de medicina menos tem é hora vaga. Não tinha cara de nerd, porém. Mais de dois metros e pinta de galã. Já escritor, aparentemente, pesquisava para valer (clichê 2) os assuntos das tramas, de engenharia genética a mudança climática, de história medieval a teoria do caos. Então, por esse lado nerd, minha simpatia com o cara é manifesta. Mais ainda por claramente ser apaixonado pela ficção científica. Um dos filmes mais bacanas baseado em um livro dele é "the andromeda strain", dirigido pelo craque Robert Wise (O dia em que a terra parou, a noviça rebelde(!), west side story - tou citando de cabeça). A história é a luta de um grupo de cientistas para combater um organismo microscópico extraterrestre, que veio de carona em um satélite que caiu perto de uma cidadezinha num deserto americano e matou todo mundo, menos um bebê e um velhote meio maluco. Tirando o fato que esse 'plot' já virou clichê, o esquemão é na verdade um modelo de investigação epidemiológica - traduzindo, como os cientistas trabalham diante de alguma doença nova e perigosa.

Crichton parecia seguir esse esquema de ficcionalizar, dramatizar o método ou algum fato científico, e não cientificizar (no mau sentido) um drama. A ficção científica, de HG Wells e Verne até Wall.e, e há uma multidão de gente melhor que eu para falar disso, de certa forma age no sentido de deslocar e ocupar, com a ciência (ou se preferirmos, a razão), um papel do mito nas sociedades pré-modernas, que é produzir não apenas a história fundadora mas também projetar o futuro e dotá-lo de previsibilidade e promessas (vide oráculos e adivinhos e profetas e cia). A promessa é sempre dos e entre os que vivem o agora, o presente, e talvez seja uma das razões pela qual a ficção científica, como todos os produtos culturais, está ao mesmo tempo expandindo e limitando as referências do seu próprio tempo. Monteiro Lobato, ele mesmo, escreveu uma ficção científica sobre o primeiro presidente norte-americano negro que parece ser (não li), hoje, quase uma curiosidade arqueológica (clichê 3) e reveladora de seu próprio racismo (e de seu tempo, meados do séc. XX). Mas Crichton, antes que profeta ou futurólogo, punha a ciência a serviço do (bom) entretenimento industrial, pop se quisermos, e nisso o cara se destacava..

A perda de Crichton, nerd faixa preta, portanto, um representante dos caras que estão por aí desenhando para nós o futuro, ou melhor, as possibilidades de futuro, merece ser lamentada também pela sua capacidade de entertainer que tem lá sua ironia e auto-crítica: em Westworld, assim como em Jurassic Park, o risco para o futuro é o próprio entretenimento pop e high-tech.

O padre e o peão

Segundo noticia a insuspeita BBC, os funcionários e padres que trabalham no Vaticano, incluindo bispos e arcebispos, terão que 'bater o cartâo' de ponto, como qualquer trabalhador comum. Não informaram se Bento XVI também terá que fazê-lo. Diz ainda que serão implantadas medidas para medir a eficiência do trabalho!

Será que existem 'funcionários fantasmas' nas repartições da Santa Sé? Será o início do 'management' pastoral? Bento XVI conduzirá um planejamento estratégico? Imaginaram esses caras discutindo a missão, objetivos e valores da Igreja? Meu Santo Agostinho!

-- "O" missão "do" Igreja é espalhar "o" palavra de Deus... - diz o Santo Padre...
-- Perdão, Sua Santidade - diz o consultor de PE, meio timidamente - me desculpe, mas eu tenho que perguntar, sabe como é, nossa empresa tem uma metodologia a ser seguida, se Sua Santidade permitir...
-- Mas é claro, meu "filha" - diz o Papa, pego de surpresa tanto pela audácia como pela ignorância do consultor. - Será que este sujeito "nom" tem fé, pensou o Papa.
-- Obrigado, Santidade! diz o consultor, mais confiante. - Posso chamar o senhor só de Santa? Nós recomendamos que as reuniões ocorram em um clima aberto e liberal, para que todos consigam participar. O Papa quase deixa cair o caduceu ao ouvir 'liberal'. Ouve-se um leve movimento no colégio de cardeais. - Aham, mas claro que isso não é essencial... Se Sua Santidade lembrar do exercício de cenários que fizemos ontem, nós chegamos à conclusão que "Varrer os infiéis da face da Terra", apesar de ser o cenário mais desejado para o futuro, brilhantemente formulado pelo senhor, aliás, deveria ter uma formulação mais de acordo com o contexto da competição e da concorrência e chegamos a "hegemonia e liderança espiritual mundial da Igreja Católica" como a mais adequada para a motivação dos seus colaboradores e clien... fiéis, isso, fiéis! Então, acho que nosso principal fornecedor - Ele - lhes escolheu como seus representantes na Terra para a prestação direta do serviço, como é mesmo, ah, sim, de levar a Palavra Dele a todos os seus clien... filhos, filhos, acertei? até o fim da semana eu já saberei tudo do seu modelo de negócios, almas a salvar e tudo o mais... então, na nossa metodologia de planejamento procuramos definir a missão em termos não só da competência núcleo da organização, mas também nos benefícios e compromissos para com os clie... fiéis, fiéis, colaboradores e Fornecedor, então, por exemplo, só por sugestão, algo na linha "a missão da Igreja é levar a palavra de Deus, com qualidade, exclusividade, alta definição, conforto e comodidade aos seus fiéis, através de colaboradores altamente qualificados, motivados e comprometidos com os Dez Mandamentos..."

Enquanto o consultor falava e rolava o powerpoint para frente e para trás freneticamente, o Santo Padre procurava afastar a tentação de restaurar os poderes do Santo Ofício e de colocar todos os livros de management no índex prohibitorium e de mandar queimar vivo o pobre consultor. Se não fossem as exigências de governança corporativa da Sarbannes-Oxley para fazer o IPO do Banco do Vaticano na NYSE para pôr a prova a Santa Paciência e colocá-lo, logo ele, o sucessor de São Pedro, nessa sinuca de bico da bola sete... Só poderia ser uma provação que Deus pôs em seu caminho para testar a sua fé... e o consultor prosseguia fazendo seu serviço:
--... então, Eminências, os senhores compreenderam a necessidade de dar uma nova redação aos mandamentos, pois como mostram as modernas técnicas de comunicação, as sentenças negativas tem sua eficiência comprometida pelo trânsito neuropsicofisiológico, então "não matarás", "não cobiçarás a mulher do próximo", "não usará o nome de Deus em vão", são frases que poderiam ter seu impacto nos fiéis e índice de lembrança da marca muito melhoradas, então a consultoria sugere que esses mandamentos devem ser reescritos para perderem aquele ranço de coisa imposta, sabem como é, de regras e leis e castigos e pec... de castigos, como ia dizendo, ficariam muito melhor se fossem, essa é a nossa sugestão, modernizadas para "deixe viver!", "Deus:use com moderação" e "valorize a sua mulher, seu vizinho agradece"...

Embora a aprovação silenciosa fosse da maioria dos cardeais, e que era nítido que o último simpatizante (com ressalvas, como ele dizia) da Teologia da Libertação estava ficando quase rubro, a reação mais visível era de um velho cardeal que empunhava seu crucifixo em direção ao consultor, como Van Helsing faria com Drácula. Mas nada parecia afetar o consultor, que prosseguia na sua pauta.

-- ... a importância decisiva da correta definição dos indicadores de desempenho dos colaboradores, tais como: registro do índice de fiéis por hóstia, da extrema-unções bem sucedidas por aquelas adiantadas, taxa de crescimento de batizados por semana e mês, tempo médio de confessionário por fiel e por padre, índice de exorcismos realizados por paróquia e por demônios por reza, enfim, a reunião desses indicadores em um dashboard control trará incrementos na gestão de resultados, que por sua vez trarão transparência contábil ao nível da verificação do cumprimento das metas de salvamento de almas global e setorial...
O Papa fez menção de chamar a guarda suíça.

-- ... então, amanhã aprofundaremos a construção da estratégia da racionalização de sacramentos pelo aperfeiçoamento das exigências para elegibilidade; o posicionamento frente à ameaça da conspiração homossexual mundial; os benefícios e oportunidades da falência do comunismo ateu; o hedge fund garantidor contra processos de ped... contra processos judiciais; e o projeto de um departamento de marketing espiritual. Eminências, Santidade, obrigado pela atenção, parabéns pelo trabalho e até amanhã.

Após os cardeais também saírem, fofocando maldades sobre o chefe como qualquer outro trabalhador, e estando só em seu trono papal, Sua Santidade despiu lentamente seus paramentos, colocou-os sobre a mesa e começou a pensar na próxima bula papal. Já tinha o título: Palavrorium gerencialis pecadus est.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Obama

Obama, boa sorte!

Embora John McCain seja de longe o mais engraçado - basta ver a piada ambulante que escolheu para vice - parece que Barack Hussein Obama vai mesmo ser eleito (hoje é o dia da eleição e os resultados não estão fechados). Daqui, parece bom: inteligente, astuto, determinado. Parece que conseguirá vencer o vestibular mais duro que se conhece, pois é contra a diabólica máquina de moer gente da 'direita' americana, um verdadeiro Império Galáctico de dinheiro, tecnologia e mistificação.

... então, antes de eu conseguir acabar o post inaugural, a eleição já foi e Obama ganhou, pode-se dizer, de goleada. Há um zilhão de coisas escritas e ditas etc., há festas acontecendo, o primeiro presidente negro e tal, mas eu vou falar dos dois discursos - o do vencedor e o do perdedor. O Obama, todo mundo sabe, é bom de discurso: ele tem o 'tempo' de drama, um vozeirão quase barítono, ele se movimenta bem e tem 'aquele' olhar. Na terra e no tempo da imagem, ele se dá muito bem. Já McCain também é do negócio, tem pitadas de humor, faz o tipo mais tiozão e tal. Mas é comparar o excelente com o extraordinário. Obama eletriza, mesmeriza. O povo faz aquela cara que tá na porta do nirvana.

Sobre os discursos propriamente ditos, o destaque para mim é o do "perdedor": McCain fez um pronunciamento digníssimo, aceitando o resultado e, mandando a multidão parar com as vaias, fez 'elogios rasgados' (podem ligar o contador de clichês) a Obama, ressaltando que ainda mantém com ele as diferenças. Não houve tom de velório, nem ameaças de ir ao tapetão, nem biquinho de qualquer tipo, embora admitindo estar um pouco frustrado com o resultado e tal. McCain declarou sua lealdade ao 'seu' presidente e ao seu país, clamou pela união da sociedade e se colocou à disposição. Nada mau. Colocou, embora sem menção direta, a sua crença no 'Sistema' - no que foi respondido, logo a seguir por Obama, que elogiou a disposição de luta de McCain, seu patriotismo e coisa e tal. O William Bonner deve estar falando da 'celebração democrática' lá no grande irmão do norte.

Mas o contraste que me chamou a atenção é o do público dos dois comícios. No de Obama, em Chicago, via-se a diversidade: negros, brancos, latinos etc. No de McCain, em Phoenix, no Arizona, não cheguei a ver um único negro. Nem moreninho. Só WASPs.

Uma amiga minha dizia que não era a gente (pesquisadores) que éramos simplistas ou afeitos a fórmulas: as pessoas é que são estereotipadas. Pois basta olhar o público dos dois comícios para poder dizer qual dos candidatos representa quem ou que grupo. Claro que é formidável que o sujeito apoiado pelos jovens, negros, latinos, mulheres, gays e outras minorias ganhe a eleição - ainda mais, recusando-se a formular a sua política em termos de raça, por exemplo. Mas o que estaria além dessas aparências (perguntaria a Fabiana, né)?

A explicação convencional é que o fracasso do Bush e a crise econômica derrubaram as questões de minorias na lista de prioridades, lembrando que apesar dos pesares, os brancos são maioria nos EUA e que o voto dos brancos é que determina quem ganha. Um indicador que a coisa não é tão simples é que na Califórnia, um estado onde Obama 'ganhou de lavada' (clichê 2), rolou um plebiscito que vai revogar a legalidade do casamento gay, e onde, lembremos, o governador é o Exterminador do Futuro, republicano.

Uma olhadinha na distribuição democratas x republicanos nos mapas mostra, apesar da derrota em termos absolutos, que há muito mais lugares onde McCain saiu vencedor, mesmo em face do crescimento do voto democrata - isto é, mesmo nos pequenos 'county's' onde McCain ganhou os republicanos foram menos votados, o que também é indicado nos resultados para o Congresso americano. Os republicanos e o que realmente representam, conservadorismo e preconceito, apesar do tombo, ainda não estão mortos e nem vão dar colher de chá (clichê 3). Vai ser duro parir a 'mudança' que importa (para nós mais diretamente), para além do fato da cor do Obama, isto é, se o grande irmão do norte vai dar mesmo uma guinada em direção a um mundo menos beligerante, mais solidário e justo e menos, muito menos, dilapidador do meio ambiente. Nobre agenda, e que se não prescinde da 'firmeza moral' representada por Obama, vai precisar, de tudo, MUITO. Muita competência, muita política, muita conversa, muito dinheiro - e podem esperar, muita esperteza e alguns encontrões. Preparemo-nos para os próximos anos de emoções, e boa sorte para o Obama - metade da sorte do Lula já deve dar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Sobre os novos começos


A Hannah Arendt tem uma expressão muito bonita para falar dos momentos em que uma novidade entra no mundo: são os novos começos. Momentos de abertura, capazes de fundar novas tradições. É uma novidade que muda a configuração das coisas e a nossa maneira de perceber o mundo, inaugurando novas possibilidades.

Há uma sedução nos novos começos. Uma espécie de vertigem frente às imensas possibilidades que cintilam. É um momento singular e pouco duradouro, pois ninguém consegue sobreviver por muito tempo em uma situação indefinida - um tempo que não é mais, mas também não é ainda.

Revoluções podem dar origem a novos começos. A irupção de movimentos sociais, também. Quem já se engajou em movimentos, independente da natureza, conhece essa sensação boa de, agindo, parecer estar criando um novo mundo.

Há novos começos mais discretos, no entanto. Pequenas ações que vão criando condições para transformações mais amplas simplesmente porque afirmam outras possibilidades. Não é esse o lema do Fórum Social Mundial, por exemplo? Afirmar que outro mundo é possível coletando experiências que mostram outras possibilidades, que já acontecem hoje? Possibilidades que não têm pretensões de valer para todo mundo, mas cujo valor está na incisiva demonstração de que pode ser de outro jeito.

A Hannah Arendt, aliás, parecia ter um certo fascínio pelas experiências mais discretas, pelas possibilidadades que poderiam apontar. Ela gostava, por exemplo, das ações políticas que utilizavam o humor e a imaginação, ao invés do ressentimento dos argumentos reiterados. Por meio da criatividade, é possível afirmar outra possibilidade ao invés de simplesmente negar o que existe. A imaginação política se manifesta também na criatividade da ação.

Este blog vêm à luz sem uma "agenda" muito clara; nasceu de uma provocação para criarmos um espaço que nos estimulasse a pensar e escrever um pouco sobre a vida e o mundo, a partir de referências sociológicas e, de preferência, sem usar um jargão excessivamente hermético (embora, inevitavelmente, vá acontecer de vez em quando). É um espaço de experimentação e de diálogo - por isso, comentários são bem vindos.

Deve ir ganhando rosto e voz na medida em que o tempo passa. Mas por enquanto ainda está pleno de possibilidades - privilégio dos novos começos.

Bem vindos!

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