quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Depois do meu feriado-imersão, voltei com várias ideias (aprendi hoje que, segundo a nova regra gramatical, ideia não tem acento; terrível, ideia sem o acento-lâmpada lhe aureando o estalo da descoberta) para escrever o post que o Mauricio há algum tempo propusera a todos nós.

Já tivemos o post da Ana, divertido e melancólico ao mesmo tempo, falando da margem que é quase a beira de um abismo: o momento em que nos deparamos com a aparente incoerência da questão mesma que nos movera ao exercício de pensar.

Hoje temos o post do Edu, propondo uma adorável sociologia às colheradas e provocando a pensar se nós estamos na margem olhando o fluxo ou se estamos no fluxo, procurando a margem.

O que me resta dizer? A ideia inicial desse blog era para ser algo como "sociologia em bom português", que dizia deste espírito de tratar e falar de sociologia em uma linguagem menos técnica, mais acessível portanto, e mais exploratória do que definidora. Na hora de criar o blog, porém, este nome me pareceu ao mesmo tempo bobo e pedante, e acabou virando Margens.

A marginalidade é um tema que é caro à sociologia latino-americana. Dá notícia do imenso esforço intelectual de pensar nossa especificidade, nosso lugar no mundo, na história, na divisão internacional do trabalho... Dá notícia assim de uma posição, um lugar a partir do qual se pensa, duma perspectiva portanto que é a de quem está de fora, à margem. Nesse mesmo universo, marginal é nossa modernidade inconclusa, travada na reprodução das estruturas que não conseguimos modificar.

(Lembro-me que até meus 8, 9 anos, quando tinha que passar por São Paulo, ficava desesperada por que teria que passar pelas "marginais". É difícil explicar o terror que essa palavra me provocava. Na minha percepção infantil, olhando as favelas e moradores de rua debaixo dos viadutos, passar pelas marginais era passar pelas margens da sociedade, ali na tênue fronteira entre os homens de bem e os deserdados da sorte).

Conforme fui pensando no entanto sobre o tema das "margens", me lembrei ainda do Drummond, meu poeta amado, com quem propus passar um mestrado junto, mas que acabei abandonando no começo do caminho. Tudo porque, como a Ana bem notou, tive que abrir mão da poesia lúcida e tensa para ficar com a crônica - leve, inteligente, mas muito diferente da dor que aparece, por exemplo, no poema "O relógio do rosário": "(...) E nada basta,/ nada é de natureza assim tão casta/ que não macule ou perca a sua essência/ ao contato furioso da existência./ Nem existir é mais que um exercício/ de pesquisar de vida um vago indício,/ a provar a nós mesmos que, vivendo,/ estamos para doer, estamos doendo" (em Claro Enigma).

Dor que no último livro, Farewell, aparece de forma ainda mais acabada.

E, me lembrando do Drummond, me lembrei de duas coisas, ambas presentes de algum modo na ideia das margens.

A primeira é do "Poema de Sete Faces", que tem alguns dos versos mais citados do Drummond, inclusive esse, o primeiro: "Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: 'Vai, Carlos! Ser gauche na vida." Condenação do poeta ao desajeito e à incompreensão, tensão de se fazer literatura após o fim da eternidade (início da modernidade - esse tempo que se define pelo presente). O poeta à margem do mundo, porque incapaz de entender a fúria da existência, que sem cessar destrói os ideais.

A segunda coisa de que me lembrei foi que, durante toda a graduação, Ana, Mauricio e eu, "lemos a seis mãos". Todo final de semestre, o rito de trocarmos nossos trabalhos, de nos escrevermos looongas cartas comentando o semestre, os trabalhos uns dos outros, nossas descobertas e crises (desde aquela época) com a sociologia. Três gauches, sempre um tanto desajeitados nas bordas definidas pelo conhecimento de tipo sociológico. Eu e a Ana flertando com a Letras; o Mauricio namorando a Filosofia.

Fui eu quem saí da Sociologia, para ir para a Teoria Literária. E, por ironia, fui eu quem voltei para fazer Sociologia num de seus temas mais clássicos, que é o trabalho. Ainda que do jeito mais torto possível, pensando o desemprego oculto pelo desalento: a liminaridade da situação liminar.

Ainda assim, continuei gauche. Continuamos todos, acho. Meio soltos no meio do fluxo de um rio que nos desafia. Sentados à margem, tentando convencer o pensamento a se reorganizar de outra maneira. Parados à margem do rio, tentando sorver-lhe às colheradas em suas densidades, temperaturas e na vida que carrega. Albatrozes de asas imensas se arrastando pelo chão, andando à margem da praia.

Margem como o que nos define, como o que nos move a pensar e como o que nos incita ao transbordamento. Era disso que eu gostaria de falar.

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