terça-feira, 25 de novembro de 2008

A cidade residual

Antes de vir para São Paulo, eu tinha medo de São Paulo. Medo, não: pavor. Quando passei no vestibular para a 2ª fase, em 1995, sonhava to-dos os dias que a cidade era enorme e eu era tão pequena que quase me perdia em cada posto, em cada esquina.

Mesmo depois de ter vindo, eu ainda tinha medo da cidade. Só fui perdendo o medo ao fazer uma das coisas que mais me assustavam: andar no Centro de São Paulo. Primeiro, ia de vez em quando com a Ana Lúcia, que morava no finalzinho da Brigadeiro Luiz Antonio. A gente ia andar na República, no Teatro Municipal, ver o prédio da Light...Era tudo tão intenso. E ao mesmo tempo tão humano. E foi então que entendi que a cidade era viva, o que me fez com que o medo diminuísse consideravelmente.

Quando fizemos Métodos em Pesquisa III, acabamos reunindo um grupo de amigos e escolhendo o Mercado Municipal como "objeto" de pesquisa: durante quase seis meses, uma vez por semana, nos encontrávamos no Café Girondino, no Largo do São Bento, e de lá caminhávamos até o Mercadão. Às vezes, cortávamos caminho pela 25 de março. Aliás, sempre que passo lá me lembro de todos nós caminhando em meio à confusão, gritos, camelôs e do Mauricinho que, um dia, com um ar bem tranquilo, virou para nós e disse "- Tá vendo ali? Naquela esquina? Pois foi ali que o Contrato Social foi rasgado".

Com o Prof. Martins, de Sociologia da Vida Cotidiana, também realizamos vários passeios ao Centro: ao Cemitério da Consolação, ao Mosteiro de São Bento, ao Mercado Municipal, Pátio do Colégio, Museu dos Imigrantes. Com ele, aprendemos a decifrar as camadas das diferentes sociedades presentes nos monumentos, na arquitetura, na arte: a disposição da cidade revelando as maneiras de dispor das pessoas e dispor as pessoas.

Foi com o Martins também que lemos Henri Lefèbrve, sociólogo/filósofo marxiano que dedicou parte de sua obra à análise da vida cotidiana. Lefèbrve construiu uma sociologia rica em tensões e em vida, opondo-se a uma concepção empobrecedora e determinista de Marx. Ele não dividia, por exemplo, a sociedade entre alienados e não-alienados, entendendo que alienados somos todos uma vez que as mediações são parte da vida social e é impossível sempre ter consciência de tudo. De outro lado, o poder nunca é absoluto, há sempre algo que lhe escapa: aquilo que é residual, que não se deixa cooptar, que persiste mesmo que não necessariamente como consciência acabada de alguma coisa: persiste como mal-estar, como pesadelo, como algo que está "fora do lugar". É residual tanto porque é o que "resta" como porque pode restar sob a forma de uma pequena sobrevivência ao qual a sociologia precisa estar atenta (daí a importância de uma sociologia da vida cotidiana).

Lembrei de tudo isso porque, na semana passada, o querido Mauricio Ayer me mandou uma mensagem em que contava um pouco do projeto Cartão Postal, realizado pelo coletivo de artistas do qual ele faz parte - As Rutes - na Mostra Sesc de Artes. Eles selecionaram alguns lugares, "cartões postais" da cidade como o Vale do Anhangabaú, o Parque da Luz, o Viaduto Santa Ifigência e a Bolsa de Valores, entre outros, e prepararam intervenções especiais em cada um deles. A partir da experiência, foram criados Cartões Postais residuais de cada espaço, isto é, cartões que não registram a paisagem morta do cartão postal, mas a vida de quem passa por ali.

Os registros estão no blog O Diário do Viajante e são muito, muito interessantes. Os monumentos que viram cartões-postais em geral são construídos como afirmações de poder, como expressões do desejo de afirmar uma nova ordem (caso do Mercado Municipal, por exemplo, parte de um projeto de higienização da cidade): são feitos de beleza, mas também de opressão; podem ser celebrativos, mas querem fazer desaparecer a vida de todo dia, na medida em que se inserem em outro espaço e outro tempo.

Por isso, é muito legal essa '"brincadeira" de experimentar os espaços dos cartões-postais, seja estimulando os sentidos (vejam o cartão do Viaduto Santa Ifigênia), seja recuperando as histórias que permeiam o espaço e a relação das pessoas com o espaço (vejam os causos do Parque da Luz), seja contrapondo-se ao barulho simplesmente ficando em silêncio (no Vale do Anhangabaú). Mais legal ainda é que o cartão que resulta do processo é muito eloqüente para apontar as tensões, as ambigüidades, a vida que acontece no espaço congelado para ser visto pelos olhos dos turistas. A beleza de quem vive o espaço é diferente da de quem com ele tem uma relação de consumo (aprendi também com o Martins e o Lefèvbre: a lógica do usuário é diversa da lógica do consumidor...). Os turistas consomem o espaço; os cidadãos, o utilizam.

Por isso, os "retratos" que fizeram As Rutes dos nossos cartões-postais resultaram em registros bonitos dos desencontros e dos encontros que acontecem na cidade. Não foram fotos panorãmicas, mas fotos com um zoom muito potente. Tão potente que registrou parte dos resíduos presentes na cidade: a lógica, os sentimentos, as sensações e as críticas de quem está na cidade não para consumi-la, mas para viver nela. Os resíduos de humanização e de esperança que tornam possível que não sejamos engolidos pela cidade e seus intensos fluxos; resíduos que transformam o medo em sedução: nos meus sonhos, a cidade não mais me devora - somos irredutíveis, ela e sua intensidade demoníaca, eu e minha humanidade recalcitrante.

Obrigada, Mau, por ter se lembrado de mim e provocado tantas lembranças e reflexões. Não vejo a hora do meu cartão-postal chegar!





("São, São Paulo, mon amour"; Tom Zé)

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