sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Falando (mal) do trabalho dos outros - 2

Dando uma olhada em cotações online para seguro de carro, achei uma campanha que merece um comentário. Uma companhia oferece um seguro especial para mulheres. A empresa oferece como atrativos: 1) acompanhante para ir à delegacia, em caso de roubo ou furto 2) troca de pneus e auxílio reboque ilimitado 3) motorista amigo, em caso de medo ou falta de condições para dirigir 4) central exclusiva de atendimento (por uma mulher, pelo que dá pra entender) 5) franquia zero na primeira batida. Diz a empresa que é um seguro de carro 'com a essência feminina' (!).

Provavelmente há um mercado para esse tipo de coisa, mas se essas são as soluções que o seguro propõe, quais seriam os problemas que ele resolve? Dou meus palpites:

- Delegacia de polícia não é lugar de mulher sozinha: delegacia seria um lugar inseguro, escuro, cheio de marginais e prostitutas sendo presos e, talvez pior, cheio de policiais. Então mulher para prestar uma queixa numa delegacia, só se acompanhada de um macho marido, macho pai, macho irmão ou macho corretor. Tudo bem que delegacias tem, para a população, uma imagem bem ruim, e a corporação é machista também (mesmo). Anos atrás, eu trabalhei num projeto para tentar melhorar o atendimento nas DPs, implantou-se algumas providências - como não manter presos na carceragem e o BO eletrônico -, que aumentaram a segurança, melhoraram o ambiente e etc. Mas criar um serviço pago para acompanhar você, e só por ser mulher, é dose. É bem mais o caso de queimar sutiãs para exigir do poder público um atendimento decente.

- Mulher não sabe trocar pneu e quebra muito o carro: tudo bem que trocar pneu de um jipão desses que apavoram shopping-centers e portas de escola exige massa muscular, suja as mãos e pode quebrar as unhas, e pode ser uma coisa difícil se você é idosa, grávida ou está de minissaia e salto, mas esse serviço também tem utilidade pra homens, que podem igualmente ser idosos, grávidos e estar de míniss... de terno Armani e sapato de cromo. E todo mundo sabe que mulher, como não sabe dirigir, quebra mais o carro... (alerta de ironia!).

- Mulher é medrosa e indefesa: e não deve andar sozinha na rua à noite. Parece ser um cozidão de costumes arcaicos e modernos, o papel tradicional da mulher dependente e frágil junto com o perigo urbano da hora - o Ricardão de aluguel permite à donzela sair à noite em lugar suspeito, encher a cara e chamar o 'motorista amigo' pra trazer a carruagem de volta pra casa. Mas vá lá que tenha sua utilidade numa roubada.

- Mulher é burra e não sabe o que quer: daí um atendimento especializado por outra mulher, pois que assim já são cinco (2+2) neurônios somados.

- Mulher é barbeira e vai bater o carro: você maridão, que paga o seguro da dondoca, pode ficar tranquilo que a porrada inevitável que a mulher vai dar vai ter isenção de franquia.

Não é mole viver num lugar onde o cidadão se sente ameaçado tanto de ir e vir quanto acha inútil recorrer à uma autoridade ou serviço público, mas daí a ter a manha de insinuar que a 'essência feminina' é esse troço que 'reproduz os estereótipos de gênero' (alerta de clichê!) e precisa comprar mais 'segurança e proteção' dessa maneira é pedir para ser malhado! Essa campanha, aparentemente, mira mais o maridão machista que a mulher independente que sustenta o próprio carro e respectivo seguro, ou seja, insulta metade do público potencial!

Reconheço que há muita gente que precisa de assistência não para dirigir, mas para os imprevistos, mas também que há maneiras melhores de ganhar o seu cliente. Só para ficar no ramo, uma conhecida minha ficou encantada com seu seguro (de um concorrente desse aí): seu carro quebrou, e quando o guincho do seguro chegou, trouxe um kit de sanduíche e suco para a cliente. Ela a-do-rou! Gentileza que essa empresa não alardeia nem vende, mas pratica a custo irrisório e que garantiu elogios e a fidelidade da minha conhecida.

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