quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Margens, marginais, margaridas, margarinas

"Margens: reflexões sociológicas" é uma iniciativa proposta pela Fabiana. Basicamente, viveremos de provocações - no bom sentido. Então vamos lá: sugerida pelo Maurice a primeira provocação: para uma sociologia das margens...

Pensemos numa imagem daquelas de antigos calendários de armazém: o campo, a cabaninha, o caboclo pitando apoiado na cerca, o cachorro, a montanha ao fundo e o lago na frente, refletindo tudo de ponta-cabeça (lembrei agora que em casa, quando eu era criança, havia um quadro assim... gozado como escrever puxa certas coisas da memória). Da margem de um lago num dia calmo todo mundo acorda aquele Narcisozinho que mora lá no quarto dos fundos... (alerta de ironia), isto é, nossa face no reflexo-espelho lacustre pode ter uma moldura bonitinha (ainda que brega), mas mesmo sem montanha e companhia é irrestível dar pelo menos uma olhadinha na nossa própria cara, arrumar os cabelos e brincar de jogar pedrinhas e ver a nossa cara pulando as ondinhas. Chega de diminutivos?

Mas é isso que você pensou. Se pro Zygmunt Baumann tudo é líquido, o amor, a vida, o medo, estão se liquefazendo, o que se imaginava sólido está fundindo, derretendo, então tudo escorre e escorrega, e se o que antes era sólido não apenas 'se dissolve no ar' (na frase de Marx), mas se mistura numa torrente de gororoba que não se deixa agarrar, ainda existirá uma margem onde se pise com certa solidez e de onde se aviste um reflexo-espelho?

Se por margem entendermos uma opção metodológica, e se insistirmos na idéia de parar a torrente para olharmos dentro e procurarmos a nós próprios, talvez seja ainda possível, ainda que a custa de baldes ou mesmo colheres. Talvez grande parte da prática sociológica seja mesmo uma sociologia em colheradas, para provarmos o sabor da sopa social (dá pra fazer um lema: se a sociedade é líquida, sociologia às colheradas!).

Por outro lado, margens e reflexões podem ter outros sentidos, por exemplo, 'anotação à margem do texto'. Meu preferido - sublinho o "meu" - é imaginar que, já que estamos em meio à correnteza, o que é meio que subversivo é olhar para daqui para as "margens", e que o reflexo necessário não é aquele nosso na janela do trem desgovernado, mas a imagem distorcida do próprio trem (ou seria barco?) no espelhinho quebrado do carro velho abandonado ali do lado (alerta de plágio involuntário: acho que essa idéia não é minha mas não lembro de quem é).

Se houver algo como uma sociologia das margens, não será por somente ou privilegiadamente buscar a marginalidade, o limítrofe caindo para fora, a estabilidade que remedia a vertigem (e vice-versa), a nitidez alta-definição 200 megapixels mas ainda assim imagem mediada, a documentação impecável e inédita ou o brilhantismo erudito e respeitável. Margem, organizada ou selvagem, talvez seja aquilo muito importante mas que não tenha esperança nem utilidade em ser explicada, como margarida-margarina, mas que, de alguma maneira estranha, nos toca.

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