domingo, 16 de novembro de 2008

Maternidade como experiência


Já há algum tempo, por ocasião da aprovação da licença-maternidade de 6 meses às funcionárias públicas e às funcionárias das empresas que aderirem ao projeto, eu tinha iniciado uma reflexão sobre a maternidade, lá no meu Noturnos. Aí, correria total, nunca mais consegui tornar ao assunto.

Naquele primeiro post, a idéia era concordar com a extensão da licença - afinal, se recomenda-se aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, como é que a licença acaba aos 4? Tem muita mulher que consegue tirar e estocar leite, mas isso também tem um custo físico e emocional, especialmente se a mãe precisa ficar 8h ou mais longe do filho.

Além disso, a gravidez e os primeiros meses são períodos de fusão e proximidade intensas. E quem já acompanhou o desenvolvimento de um bebê, sabe que é só depois dos 3, 4 meses que eles vão saindo da fase troca-dorme-mama-faz cocô-dorme-dá banho... Então, no momento em que eles estão começando a perceber o mundo, rompe-se o convívio com aquela que no início é a mediadora entre ele e o mundo. Insegurança danada, pro filho e pra mãe. Dois meses pode parecer pouco, mas nesse processo de diferenciação entre mãe e filho, é bastante tempo.

Mas o sentido daquele post também foi o de provocar um pouco, pensando a possibilidade de se pensar as licenças - da mãe, mas também do pai (vejam a reportagem sobre a campanha "Dá licença, eu sou pai" aqui) - não da perspectiva do mercado de trabalho, mas da perspectiva da educação e da família.

Pra deixar claro: não acho que não seja importante pensar nos significados e nas implicações das licenças maternidade e paternidade para as trajetórias de trabalho dos homens e mulheres que decidem ser pais. Não é isso. Mas acho que ficar apenas nesses termos nos dificulta pensar em outras dimensões da questão.

Eu e o Edu temos um filho (juntos; ele tem mais duas filhas lindas do primeiro casamento). Ele hoje está com 3 anos e nasceu no meu primeiro ano de doutorado.

Antes dele nascer, eu achava super possível conciliar tudo: trabalho, pesquisa, filho, família, amigos. Mas quando ele nasceu, virou tudo de perna pro ar e eu percebi que, ainda que fosse possível, eu não queria conciliar tudo porque os custos dessa conciliação são muito altos, pra todo mundo, mas especialmente pro filhote.

Aqui no Brasil a gente tem ampla oferta de mão-de-obra barata, e por isso certa facilidade na contratação de empregadas e babás. Há também berçários, que abrem às 7h, fecham às 19h, e não param nas férias, para atender às necessidades dos pais. A gente se acostuma, acha normal. Inventa teorias sobre a necessária socialização dos bebês de 4 meses. Mas eu tenho sérias dúvidas sobre esse modelo de "delegação" de tarefas dos cuidados mais rotineiros, acreditando no tal "tempo de qualidade".

Afinal, ter filho é bom, mas de vez em quando um pouco chato. É delicioso, mas também às vezes frustrante. É lindo, mas também cansa. Se o filho, no convívio com os pais, nunca os vê cansados, chateados, frustrados, como é que vai aprender a acolher o próprio cansaço, a própria chateação ou frustração? Que tipo de experiências podemos ter junto aos nossos filhos se nosso convívio com eles está reduzido ao tempo extra-cotidiano dos finais de semanas ou das férias? Que relação entre pais e filhos advém dessa organização do tempo e dessa estrutura em que se delega a outros a tarefa do convívio, com suas dores e delícias? Em que medida esse modelo não tem relação com a dificuldade dos pais em lidarem com o "lado ruim" dos seus filhos?

No caso de quem não tem ajuda, o problema é parecido, mas ao contrário: quando se está com o filho e sempre cansado, irritado e de mau humor, como é que eles vão aprender que ser adulto também pode ser bacana e que crescer não significa perder a liberdade e a alegria? Ou será que significa?

Escapar dos limites de como as coisas estão organizadas é muito difícil. Eu mesma, por ter escolhido me organizar de uma maneira que me permita estar tão presente quanto possível junto ao R., já ouvi várias vezes que sou muito protetora ou que não "largo" meu filho.

Essa forma que fui encontrando de ser mãe pode ser pensada até como uma espécie de movimento, o de Mamíferas ou Maternas. Digo que é movimento, embora não haja exatamente um programa. Acho que a característica principal é a do esforço contínuo em imaginar novas maneiras de experimentar a maternidade, em vários eixos - em relação ao trabalho, em relação à cultura (veja-se o belo trabalho do CineMaterna), em relação ao envolvimento do pai, em relação à feminilidade, em relação ao sexo... E essa imaginação se apóia na troca de experiências, em encontros - como os promovidos pelo GAMA - e em trocas virtuais (como a Materna_SP, por exemplo, já que ela tem dado muitos filhotes - literal e metaforicamente).

Não tem programa, mas tem valores comuns, como a crença na necessidade do bebê estar próximo à mãe, na importância da amamentação, na busca por uma educação não-violenta etc.

Minha provocação é: para escapar da discussão sobre mercado de trabalho, que acaba nos levando a sublinhar o problema de gênero; ou seja, para ser possível pensar mudanças no tempo de convívio entre pais e filhos, ou pelo menos em mudanças de modelos e padrões, é necessário que os pais/homens se envolvam nesse esforço de invenção. A Campanha "Dá Licença, sou pai" é um passo importante, mas será que a gente não tem que procurar inclusive outras formas, além das que a gente já conhece? O que mais além da licença os pais podem desejar, para estarem mais próximos do desenvolvimento de seus filhos?

E você, o que acha disso tudo?

Imagem: www.gettyimages.com.br

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