quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Michael Crichton, mega master ninja geek

Michael Crichton morreu ontem. Há um obituário no NYT, muito bom, como de costume. Crichton é (era) dessas figuras onipresentes da cultura pop, que simplesmente não conseguimos evitar, como Madonna, os Beatles, Britney, Brangelina, e assim vai. Mas era escritor, basicamente, então era um pouco 'menos pop' e trabalhava 'feito um mouro' (contador de clichês: engage!). Não me lembro de ter lido um único livro dele - mas como a maioria, até sem saber, vi um monte de filmes baseados em livros dele - a série Jurassic Park, além da série de TV 'ER'. Além disso o cara foi diretor de filmes bem bacaninhas, como Coma e Runaway, e principalmente, Westworld.

O aspecto que eu quero dar uns pitacos é que o cara, aparentemente, era um baita CDF. Nerdão. Cabeção. Fez medicina em Harvard. Manjava de antropologia. E estudando medicina, escrevia nas horas vagas - coisa que estudante de medicina menos tem é hora vaga. Não tinha cara de nerd, porém. Mais de dois metros e pinta de galã. Já escritor, aparentemente, pesquisava para valer (clichê 2) os assuntos das tramas, de engenharia genética a mudança climática, de história medieval a teoria do caos. Então, por esse lado nerd, minha simpatia com o cara é manifesta. Mais ainda por claramente ser apaixonado pela ficção científica. Um dos filmes mais bacanas baseado em um livro dele é "the andromeda strain", dirigido pelo craque Robert Wise (O dia em que a terra parou, a noviça rebelde(!), west side story - tou citando de cabeça). A história é a luta de um grupo de cientistas para combater um organismo microscópico extraterrestre, que veio de carona em um satélite que caiu perto de uma cidadezinha num deserto americano e matou todo mundo, menos um bebê e um velhote meio maluco. Tirando o fato que esse 'plot' já virou clichê, o esquemão é na verdade um modelo de investigação epidemiológica - traduzindo, como os cientistas trabalham diante de alguma doença nova e perigosa.

Crichton parecia seguir esse esquema de ficcionalizar, dramatizar o método ou algum fato científico, e não cientificizar (no mau sentido) um drama. A ficção científica, de HG Wells e Verne até Wall.e, e há uma multidão de gente melhor que eu para falar disso, de certa forma age no sentido de deslocar e ocupar, com a ciência (ou se preferirmos, a razão), um papel do mito nas sociedades pré-modernas, que é produzir não apenas a história fundadora mas também projetar o futuro e dotá-lo de previsibilidade e promessas (vide oráculos e adivinhos e profetas e cia). A promessa é sempre dos e entre os que vivem o agora, o presente, e talvez seja uma das razões pela qual a ficção científica, como todos os produtos culturais, está ao mesmo tempo expandindo e limitando as referências do seu próprio tempo. Monteiro Lobato, ele mesmo, escreveu uma ficção científica sobre o primeiro presidente norte-americano negro que parece ser (não li), hoje, quase uma curiosidade arqueológica (clichê 3) e reveladora de seu próprio racismo (e de seu tempo, meados do séc. XX). Mas Crichton, antes que profeta ou futurólogo, punha a ciência a serviço do (bom) entretenimento industrial, pop se quisermos, e nisso o cara se destacava..

A perda de Crichton, nerd faixa preta, portanto, um representante dos caras que estão por aí desenhando para nós o futuro, ou melhor, as possibilidades de futuro, merece ser lamentada também pela sua capacidade de entertainer que tem lá sua ironia e auto-crítica: em Westworld, assim como em Jurassic Park, o risco para o futuro é o próprio entretenimento pop e high-tech.

Um comentário:

  1. Eu nem gosto do filme do parque da Jurassi, mas li o livro, que é infinitamente mais interessante. É isso mesmo que você disse: talvez mesmo por ser tão nerd, ele juntava forma e conteúdo de um jeito que não ficava estranho - ele não estava justapondo drama e ciência, a ciência (com seus limites e possibilidades) era personagem ativa do drama. E me lembro do profundo "respeito" (não é essa a palavra, mas...) à vida que emana do livro, no sentido de reconhecer a impotência da ciência e da razão para produzi-la e controlá-la.
    Mas achei muito provocadora essa sugestão de que o entretenimento é um risco para o futuro. Muito mesmo.
    Beijos.

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