sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A Máquina do Tempo - H. G. Wells

O ano é 802.701. A humanidade dividiu-se em duas linhagens: os Eloi, habitantes da superfície, e os Morlock, que vivem nos subterrâneos. Tentando retornar ao seu mundo, o Viajante do Tempo descobre a terrível verdade: os Morlock alimentam-se dos Eloi, e estes não passam de gado nas mãos dos primeiros. "Eu compreendia agora o que estava escondido por baixo de toda essa beleza do mundo exterior. Muito agradável era o dia dos Elois, tão agradável como o dia do gado na pastagem. Como o gado, não conheciam inimigos e tinham quem lhes provesse a todas as necessidades. E o fim deles era o mesmo" (p. 92).

A metáfora é explícita e faz parte das próprias conjecturas do Viajante do Tempo. Os Eloi seriam os descendentes da classe burguesa (e a descrição de sua vida no início do livro em tudo a ela se assemelha, desde a despreocupação com a vida material – pois apenas colhiam os frutos abundantes da terra, produzidos pela classe operária – até a atitude blasé característica desse tipo de vida), e os Morlock, os descendentes da classe operária. Em algum momento no tempo, o jogo se inverteu, apesar das aparências ainda contrárias, e a verdade subterrânea revelou-se definitiva: são os Eloi-burgueses os verdadeiros escravos dos Morlock-proletários, pois deles dependem para a própria sobrevivência, ao utilizarem a sua força produtiva. Nesse sentido, os Eloi e os Morlock são o espelho mesmo das classes tal como as descreve o materialismo dialético: opostas, mas complementares e interdependentes. Não haveria burguesia sem proletariado, nem proletariado sem burguesia. Só que o horizonte da história marxista mostra-se impossível nesse livro sombrio: o choque dialético não daria lugar a uma sociedade sem classes, mas, ao contrário, sua contínua evolução dialética radicalizaria a sua dependência mútua.

Dessa forma, A Máquina do Tempo mostra-se um livro em tudo tributário do gênero que se convencionou chamar ficção científica, tão caro ao século XIX do qual faz parte (foi escrito em 1895). Pode-se dizer que o gênero foi inaugurado com o clássico de Mary Shelley, Frankenstein, que já trazia todas as preocupações que lhe seriam definidoras: a crença no progresso científico da humanidade aliada a uma certa descrença com relação à sua evolução moral. Não havia dúvidas quanto às infinitas possibilidades no campo do saber científico: muito pouco faltava para o homem vencer todas as barreiras que a natureza lhe impunha, como a morte, a criação ou a continuidade temporal. Nesse último caso, talvez o livro seja fantasista ao extremo, o que não importa tanto se se levar em conta suas preocupações metafóricas.

Pode-se dizer também que a literatura sociológica possui essa mesma origem, e as mesmas preocupações. Pois a sociologia de Durkheim, se não duvidava do progresso material que tendia a aumentar cada vez mais, já se revelava cética quanto à evolução moral das sociedades: a anomia era o preço a pagar pelo progresso, ainda que Durkheim acreditasse num retorno à estabilidade social.

Assim, A Máquina do Tempo é um romance que pertence ao XIX, e é herdeiro de suas principais correntes de pensamento: o positivismo e o marxismo. Do positivismo, guardou a crença no progresso científico, e do marxismo o conflito social. Mas ainda é possível lê-lo com interesse. Porque, sendo literatura, não era apenas transformação em romance dessas correntes de pensamento, mas as ultrapassava. Não é do futuro que ele fala, mas do presente. Metaforiza a divisão entre classes, mas principalmente mostra-se cético quanto ao progresso da humanidade. Assim é que pode ultrapassar o positivismo e, principalmente, o marxismo positivista, que via na história um continuum sempre em direção a um progresso, cujo destino histórico final necessário era a sociedade sem classes.

Tudo isso foi perdido na realização do filme pelo bisneto de H.G. Wells, em 2002. Onde não havia razão outra que a curiosidade científica típica de uma personagem do XIX, colocaram razões emocionais (o Viajante do Tempo, que também ganhou um nome, estaria tentando recuperar a vida da namorada). Acrescentaram viagens intermediárias no tempo, dando um motivo cataclísmico para a divisão humana em duas raças. Pior, destruíram toda e qualquer possibilidade metafórica, fazendo dos Eloi uma tribo indígena que ainda sabia falar inglês (!), e dos Morlock uma raça sub-dividida em diversas espécies. Pior ainda, modificaram completamente o final da história, forjando um final feliz em nada condizente com o espírito do livro.

3 comentários:

  1. Lembro um pouco do filme de 1960, que passava na sessão da tarde (http://www.imdb.com/title/tt0054387/). Me impressionou a feiúra dos morlocks e a beleza da mocinha e me assustou a sequencia da viagem no tempo propriamente dita - futuros e futuros sendo sucessivamente destruídos por guerras, para horror do Viajante. O filme de 2002 (não vi nem vou), pela sua descrição ecoa essa época onde mesmo os bandidos ou terroristas tem que ter justificativas - até bin laden. O excesso de explicações parece ser um jeito bom de matar o interesse, a la matrix 2 e 3.

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  2. Gostei da postagem vou publicá-la futuramente com os devidos créditos no meu Blog: carloskurare.blogspot.com
    Apareça por lá!
    Um abraço!

    "Por ter sido pisado por muitos pés é que me tornei um bom vinho!"

    Carlos Kurare

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  3. Maurício, parabéns pelo texto. Acabei usando o tema da viagem no tempo para discutir empreendedorismo e no final acabei indicando o seu link. Espero que goste! :)

    http://www.synapseshub.com/content/empreendedorismo/queria-abrir-uma-empresa-sera-que-vale-a-pena

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