quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Obama e a inovação

É irresistível dar mais uns pitacos amadores sobre o Obama. Mais precisamente, sobre o que foi quase consensualmente visto como uma inovação, tanto política quanto tecnológica, que foi o uso de tecnologias de comunicação em escala inédita durante a campanha. Internet, celulares, redes sociais, vídeos online - uma grande variedade de ferramentas foi usada não só para informação-propaganda, com a qual estamos aqui mais habituados na forma das campanhas eleitorais, mas também para arrecadar fundos de qualquer um que quisesse contribuir com qualquer quantia (com enorme sucesso, que o diga o endividado McCain), e para mobilizar e organizar um extraordinário contingente de voluntários, com ressonância num país onde metade dos cidadãos tem acesso à banda larga e com grande impacto nos eleitores mais jovens, que usam tecnologia com naturalidade e que se apaixonaram pelo cara que chegou até eles na forma como eles chegam (se relacionam) uns com os outros.

Claro que não adiantaria tanta tecnologia se o Obama não tivesse conteúdo, ou seja, seus próprios méritos. Mantendo seu próprio aparato de informação, Obama deu o drible da vaca nos impérios comunicacionais estabelecidos, encurtou a distância com seus eleitores e neutralizou a gigantesca máquina difamatória, mistificadora e manipuladora do partido republicano, que aliás também tem lá um monte de tecnologia ao seu dispor. Ou, um pouco antes, para vencer as primárias democratas contra a favoritíssima Hillary.

No dia seguinte à eleição, nonstop, já estava no ar o site da transição. É de se imaginar a complexidade do trabalho de bastidores e do planejamento que está rodando a todo vapor - e, até onde dá pra ver, o próprio Obama é o gestor desse trem todo, não sendo mistério que ele é versado nisso (mas Bush acho que também é formado em administração etc.; tirem suas conclusões).

Voltando um pouco para a questão da inovação, se fosse para fazer uma fórmula, dá pra dizer que se Obama fez campanha do século XXI, nossos políticos aqui estão no século XIX. Dezenove, eu disse, tipo primeira república. A campanha de Obama tornou velho todo o aparato eleitoral cá instalado, e não estou falando de urnas eletrônicas, mas de legislação, organização e prática política. Por exemplo, financiamento de campanha: aqui só se fica sabendo quem financiou quem depois da eleição, mas o que parece valer mesmo é o tal caixa 2 (que digam nossos governantes reféns de interesses privados, né Daniel Dantas). Escolha de prioridades de governo - que nada mais é que "o" aspecto da representação política democrática - com mais transparência, debate e participação. Valorização do eleitor, com estímulos e oportunidades variados de participação ao ponto da mobilização voluntária - patrimônio dificílimo de conquistar, inestimável, que o PT aqui tinha, mas perdeu para a 'militância paga' e outros esquemas. Obama não conseguiria fazer uma campanha de mesmo estilo por aqui, e o fato aqui não é tanto a desigualdade no acesso à tecnologia pela população, que embora seja muito grande, é muito dinâmico e vibrante e, se pensarmos na crescente difusão de celulares, telecentros e lan houses, é mais relativizável ainda. Nem é a (falsa) suposição que aqui não existem as mesmas ferramentas e profissionais que saibam usá-las. Mas aqui a Justiça Eleitoral simplesmente impede a livre manifestação e uso de tecnologia. Pelos candidatos e pelos cidadãos. Ponto. Merda.

Todo esse blá (sobre esses pontos e muito mais é só fuçar por aí), para chegar onde estamos agora, que são nas expectativas para o governo Obama. Do ponto de vista de inovação candidato-eleitor para governante-cidadão. Os cenários básicos parecem ser: o aparato burocrático e institucional do Estado, mais a crise econômica, mais o ainda forte peso republicano subjugariam o governo até o nível das práticas tradicionais, e a tecnologia viraria suporte para a espetacularização e legitimação do governo. Outro cenário pode ser: o aparato do Estado e os outros atores citados mantém-se a custo de concessões, inclusive ideológicas (intervenção do Estado agora é bom e tal) e o governo utilizando a tecnologia para sustentação mezzo populista mezzo calabresa. E o cenário de sonho, onde a inovação, vislumbrada na campanha - Change! - seja incorporada como forma de governo, capturando os outros atores e realizando algumas das promessas da tecnologia já pressentidas pelos cyber-ativistas: transparência, participação, democracia, liberdade, informação e educação, mas também como força produtiva senso estrito: reinvenção institucional do Estado, transformação econômica (por exemplo, pela troca das fontes energéticas), novas relações internacionais mais próximas dos cidadãos globais.

Um fragmento de informação hoje dá uma pista esperançosa mesmo distante de delírios oníricos. A equipe de transição de Obama vai, segundo a Folha Online, fazer a lição de casa ("Obama cria força-tarefa com 450 contra burocracia do governo Bush" ). Diz o site que 450 analistas vão percorrer mais de 100 organizações e programas para mudar rapidamente o rumo do pais, a partir da posse. Traduzindo o 'folhês', ou seja, descontando a bobagem insinuada de que Obama é contra a burocracia e tal, e sendo otimista - e no meu caso, um pouco menos amador - 450 analistas em dois meses é o suficiente para um trabalho de Hércules, que imagino ser algo como o mapeamento de todos os macroprocessos (perdão pelo jargão), ou seja, o mapa da mina de tudo o quê e como faz essa organização monstrenga que é o Estado. Para entender melhor, imagine que um macroprocesso seja um fazer, como, por exemplo 'arrecadar o imposto de renda', ou 'distribuir a Bolsa-Família', ou 'prover educação sexual nas escolas'. Agora, imaginemos que esses processos, uma vez mapeados, isto é, descritos e analisados em termos gerenciais (objetivos, responsáveis, orçamento, recursos, cronogramas, resultados, indicadores etc.), estejam em um sisteminha, a um toque dos dedos do governante, aquele cara que sabe o que fazer com essa informação. Sabe quem faz o quê. Sabe quanto custa. Sabe resultados. Sabe como não ser enrolado por assessores ou lobistas. ISSO SIM É CHOQUE DE GESTÃO, não aquela coisa bicuda e emplumada que aparece aqui em São Paulo toda santa eleição.

Não há nenhuma novidade nisso - que o governante tenha a seu dispor um sistema de gestão. Inclusive há empresas que vivem de vender esses sistemas. Mapear todos os processos de governo, ao mesmo tempo, na prática, com quase certeza é inédito, porém. Mas o fato, se for desse jeito que imagino, de colocar um batalhão de analistas olhando tudo o que o Estado faz, demonstra disposição de fazer pelo estado da arte, não esse troço que se compra na esquina. Mapear os processos do estado de São Paulo é promessa esquecida, por exemplo. A sequência lógica (e metodológica) após mapear os macroprocessos, é continuar a análise, espremendo-os até os mais simples procedimentos, e revisá-los e aperfeiçoá-los, visando sua racionalização, automatização, integração, articulação - e inovação. Não é gestão pela planilha do secretário, uma vez por mês, por rubrica orçamentária, pobremente monetarizada e atrasada. Nem gestão por powerpoint, onde o resultado é tanto melhor quanto mais coloridos são os gráficos. Por aqui, a gestão do PAC, por exemplo, se baseia no acompanhamento de projetos priorizados e transversais à máquina setorializada, o que já é um avanço, mas o ideal seria que o Estado inteiro pudesse ser gerido em bases mais, digamos, eficazes.

Obama foi atacado na campanha pelo flanco de sua inexperiência gerencial. Mas, se foi ele mesmo quem gerenciou a própria campanha, como ele diz, a manha de manager ele tem de sobra. Mas isso não fará um governo, nem mesmo garante automaticamente um governo inovador. Governo é, como diz o Lula, o jogo da política - mas isso é pra outro(s) post(s).

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