domingo, 23 de novembro de 2008

Tu não sabes de nada, minha querida....

A viajante acaba de encerrar seu dia de trabalho na Biblioteca Nacional de Portugal, num dia em que lera nas Figuras e Problemas da Literatura Brasileira Contemporânea, de Adolfo Casais Monteiro, que a parceria entre brasileiros e portugueses durante o Modernismo se poderia resumir à vinda de António Ferro ao Brasil para apresentar sua A Idade do Jazz Band. A viajante interessa-se enormemente, e por isso, vai à grande livraria localizada no Centro Comercial do final da Rua Garret, no Chiado, onde, aliás, costuma passar seus inícios de noite ainda cheios de sol do verão europeu, procurar o livro que pretende trazer na bagagem sem saber ainda que vai por à prova um dos seus preconceitos mais arraigados. Procura um vendedor que, como cá, não é lá muito familiarizado com a bibliografia que lhe interessa, e lhe pede em bom brasileiro: “-Vocês têm A Idade do Jazz Band?”, ao que recebe como resposta um silêncio que traz na entrelinha um “não sei do que estás a falar”, seguido da tomada do “rato” do computador para “checar no sistema”. Não tinha. Como a viajante está acostumada a encontrar pequenas obras que lhe interessam em grandes coletâneas do autor, faz uma nova pergunta: “- O que é que vocês têm do António Ferro?”, pergunta que é surpreendentemente retrucada com uma nova pergunta por parte do vendedor: “- O ministro do Salazar?” É o momento do silêncio da viajante, que é subsumido por sua resposta, agora em bom português: “-Há dois? Porque se há, é o outro.” A isso o vendedor não soube responder. Entrando na Biblioteca no primeiro horário do dia seguinte, a viajante vai em busca de desvendar o que é que o Sr. António Ferro andou fazendo de sua vida depois de vir ao Brasil, e descobriu que, de fato, António Ferro que lhe interessasse só havia um, o futuro diretor do Secretariado Nacional de Informação e Ministro de Portugal em Berna durante o governo de Oliveira Salazar, o mesmo que viera ao Brasil em 1922 apresentar sua performance intitulada A Idade do Jazz Band, tendo sido recebido no Rio de Janeiro por Ronald de Carvalho e, em São Paulo, por Guilherme de Almeida. Nesse dia, a viajante começa a perceber o que é tomar um samba do seu objeto, percebendo que a comparação que, pretensiosamente, meteu-se a estabelecer, se dá entre dois parâmetros de complexidades bastante diversas. Se há margem nessa brincadeira, ela está ocupada pela viajante que, sentada num banquinho sem encosto, com as mãos entre os joelhos, olha desolada para o centro das suas inquietações, incapaz de cercá-las.

3 comentários:

  1. Talvez o - qual a palavra? sambado? - não seja a pesquisadora, mas o pesquisado. Talvez Ferro apenas tenha considerado Salazar muito moderno, sabe-se lá.

    ResponderExcluir
  2. Edu, sabe que vc me deu um insight? Traçar o aspecto moderno do reacionarismo fascista pode ser uma tarefa interessante, ainda que não aplicável ao próprio Salazar, que é dum ruralismo retrógrado, mas à simpatia de certos modernistas lusitanos. O reacionarismo não é, de fato, necessariamente anti-moderno. O totalitarismo do Hitler, talvez, só possa ter se dado no contexo da Modernidade, e nunca em outro. Vou pensar com carinho...

    ResponderExcluir
  3. Ana, o que me provocou o comentário anterior é que tenho uma memória (criativa?) que alguém que não lembro já mostrou o fascismo em potência nas manifestações modernistas, meio ao contrário do seu insight (quem foi? Adorno?), mas concordo totalmente com você que os totalitarismos do séc XX não são 'acidentes' da Modernidade. Beijocas

    ResponderExcluir