sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O menino, o acidente



Para Ana Lúcia


Meu orientador, pelo breve período em que fui aluna do Departamento de Teoria Literária, me aconselhava a anotar sempre as primeiras impressões que um texto me provocava - sem pensar muito, imediatamente após terminar de ler. Segundo ele, as primeiras impressões que o texto causavam eram a melhor porta de entrada para a análise, apontando as pistas a serem seguidas. Acho que ele tem razão (lembrem-se que estamos falando de textos literários).

Quando acabei de ler eXato acidente, o terceiro e mais recente livro de contos de Tony Monti, fiquei um pouco sem palavras, anotando uma espécie de incômodo, a lembrança do conto "O Bufálo" (Clarice Lispector) e a sensação de que - ao contrário do que o próprio autor propunha - o livro não chegava a representar uma mudança radical em relação ao anterior (e lindo) O menino da rosa.

Então, recentemente, me peguei pensando sobre o que me levou a deixar a Sociologia e ir para a Teoria Literária, e minha decisão tinha fundamentalmente a ver com o método de análise do texto literário. Eu me sinto incapaz de construir uma análise que não esteja pautada pelas sugestões do próprio texto. É claro que não acho que o contexto social-econômico-cultural-etc. não seja relevante para a tessitura da análise - sou socióloga, afinal. Mas me incomodava que o estilo da análise que me interessava fazer sempre recebesse o mesmo comentário: isso não é sociologia.

Desde a primeira vez que li os contos do Tony - O Mentiroso, ganhador do Prêmio Nascente da USP em 2002 - senti que havia ali algo diferente em relação aos autores contemporâneos, em especial os mais jovens (nota: isso é uma generalização, uma impressão geral e, por isso mesmo, não é a verdade inteira, não é nem sequer uma meia verdade). Os livros dos autores jovens que eu lera até então me pareciam marcados pela agressividade e pela violência - não pelos termos utilizados (ou não apenas), mas pela relação com a linguagem: eles usavam as palavras como armas de destruição em massa. Ou, para usar um termo que está super na moda há algum tempo, eles usavam as palavras para "desconstruir". Oras, como diz uma amiga minha, quem "desconstrói" é empresa de demolição! Esse tipo de literatura realmente não me toca: ainda que eu possa partilhar das inquietações que possibilitam sua emergência, não me agrada a solução formal encontrada por elas. E é justamente na solução formal que os contos do Tony são primorosos.

Foi me dando conta disso que consegui (acho) compreender melhor as impressões que a leitura de eXato acidente me provocou.

Os contos do livro são permeados - algumas vezes inteiramente mergulhados - em situações absurdas. Às vezes, o absurdo está no ponto de partida; outras, ele simplesmente irrompe num cotidiano que tinha tudo para ser normal. Algumas resenhas lembraram as relações com Cortázar, por exemplo. Mas como estou seguindo a pista das minhas primeiras impressões, vou aqui argumentar que o absurdo aparece porque ele adota olhos de menino (daí minha sensação de uma mudança menos incisiva em relação ao livro anterior).

eXato acidente é uma espécie de busca de compreensão da violência - daí a referência ao conto "O Bufálo", em que a Clarice narra o percurso de uma mulher que busca aprender o ódio. Ela vai ao zoológico, esperando aprender com os bichos a odiar - procurando na violência do ódio uma resposta à violência de ter sido abandonada por um homem. São violências que o próprio Tony já ensaiara pensar - em "Pão e Circo", por exemplo, d'O Mentiroso - mas que agora, narradas por um autor mais maduro, ganham acabamento formal original, transfiguram-se, viram ficção. E, na medida em que se descolam de um olhar mais horizontal e descritivo, ganham em eloquência.

O absurdo pode ser revelador da ordem, e - mais frequentemente - da desordem. É possível que narrativas com elementos de absurdo, permaneçam no reino do absurdo, o que de certa forma é mais confortável para o leitor. Os contos do Tony, porém, não nos dão essa facilidade: ele mistura real e absurdo de uma maneira que um necessariamente confronta o outro.

A epígrafe do livro é uma das minhas citações prediletas do Tony - "Vem comigo, te explico no caminho". É um convite e uma promessa, tão singela e tentadora que é difícil não estender a mão e andar com ele. O que a gente não sabe é que o caminho que o Tony escolheu é um labirinto, e que no meio tem uns espelhos de reflexos incômodos, que mudam nossa percepção sobre nós mesmos.

O livro fala de violência, embora apenas um um conto haja uma situação de violência propriamente dita. O modo de escrever não é agressivo, ao contrário, é límpido e claro (como nos outros livros, aliás). Mas é um livro profundamente incômodo: literatura das melhores.

Na dedicatória que o Tony me escreveu - comprei o livro direto com ele e ele me enviou pelo correio - ele fala em "arsenal de ficções e vida". Realmente, não me seduzem os livros que parecem armas de destruição em massa. Sou muito mais as soluções encontradas pelo Tony, soluções propriamente literárias, capazes de suscitar emoções e pensamentos que, ao invés de ter que destruir tudo pelo caminho, são "armas" precisas para que a gente faça esse exercício cotidiano de sobreviver e viver.

E o que isso tem a ver com um método sociológico de análise do texto? Parto do princípio de que, além do conteúdo expresso, a solução formal encontrada pode ser uma fonte de conhecimento sociológico. Nesse sentido, é tão legítimo analisar um livro de literatura engajada, sobre temas sociais por exemplo, quanto analisar um livro que trata de outros temas. Para fazer uma sociologia da literatura, a forma importa, a solução formal importa - às vezes bem mais do que o contexto - e é capaz de lançar luzes sobre aspectos da sociedade que as categorias sociológicas não estão acostumadas a olhar.

O problema portanto é ampliar os instrumentos de análise para que se possa começar a olhar em direções para as quais normalmente não olharíamos.

Imagem: http://www.overmundo.com.br/_banco/multiplas/1213845598_luz_e_sombra.jpg

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Desenraizamento


Para Fausto Padilha

É possível ir a bibliotecas apenas com o objetivo de encontrar e retirar alguns livros - uma transação rápida e mecânica, efetuada por quem sabe o que procura. Mas também é possível permanecer numa biblioteca sem saber direito o que se está procurando, vagar entre as estantes, experimentar os cheiros dos livros, sentir as lombadas desgastadas ou sujas - a maneira dos anjos do Wim Wenders.

Quando estava na graduação, eu gostava de me perder na biblioteca - que naquela época nem era tão grande e iluminada quanto é hoje: era uma espécie de porão, mal-iluminado, incrustada no meio do corredor que levava do saguão ao café. Em geral, adotava a seguinte estratégia: procurava a referência de um ou dois livros e então me perdia na sequência que levava de um a outro. Também ficava horas examinando os carrinhos com os exemplares a serem devolvidos às estantes e foi dessa maneira que acabei conhecendo alguns livros que nenhum professor indicara, simplesmente porque me senti atraída por eles (nunca soube resistir a um título sedutor...).

Conheci o trabalho da Éclea Bosi dessa maneira. Memória e sociedade: lembrança de velhos me impressionou profundamente. Demorei anos para poder comprá-lo, então vira e mexe o exemplar da bilbioteca estava lá em casa. Gostava do livro em parte porque a memória era um tema que me interessava, mas em parte porque o método das entrevistas me fascinava e, mais ainda, me encantava a maneira pela qual a Ecléa construíra a apresentação de seus resultados. Se alguém duvida que seja possível conciliar trabalho e rigor científico com sensibilidade e um estilo delicado de escrita, o livro da Éclea é a prova de que sim, é possível.

Foi a partir da Éclea que conheci o termo desenraizamento e a Simone Weil. Durante um longo período em que fiz iniciação científica em Sociologia da Cultura, tais referências não me foram importantes. Mas, depois de já formada, quando resolvi me aventurar pelos caminhos da Sociologia do Trabalho e propus pensar sobre os significados sociológicos da experiência de indivíduos que podiam ser classificados como "desempregados por desalento", tais referências apareceram como fundamentais: o desemprego atual me parecia um novo tipo de desenraizamento, diverso certamente daquele narrado pela Simone Weil, mas com efeitos semelhantes em termos de desestrutração identitária - ambos os desenraizamentos advém da experiência de um trabalho que é puro labor.

De algum modo, o tema do desenraizamento sempre me tocou. Aos 17 anos, quando participava de um grupo de teatro, montamos Na Carrera do Divino (Carlos Alberto Sofredini), baseado - entre outros estudos - n'Os Parceiros do Rio Bonito, do Antonio Candido. A peça narra a estória de uma família de caipiras, que tinham o comportamento típico de ocupação irregular de pequenas propriedades, abandonando-as quando já não produziam a contento ("mudemo, fio, mó de que a terra tava cansada", é a resposta que o pai dá ao filho, quando interrogado sobre a razão que os levara a novamente se mudar). Até que relações propriamente capitalistas chegam ao campo, sob a forma da parceria, e o Nhô Jeca se torna meeiro de seu vizinho-Lobisomem. A peça se concentra sobre a expulsão do pequeno agricultor: ao final, a família se muda para a cidade, expulsa de sua forma de viver, desenraizada tanto pela falta da terra quanto pela incapacidade - em especial dos pais - em compreender as novas relações que os envolveram.

Há trechos lindos e pungentes, como quando Nhô Jeca, exaustivamente trabalhando a terra para pagar suas dívidas, pergunta se o próprio corpo é um relógio: expressão da inversão de um tempo cíclico por outro tempo, o da produtividade e da corrida contra o tempo.

Mas um trecho que sempre me emociona é quando, quase ao final, Nhô Jeca fica perdido ao saber que não apenas não conseguirá comprar a terra quanto ainda está endividado. Ele se desespera, e na tentativa de contê-lo, a mulher enuncia o mundo que se perdeu:

"Não, eu nunca mais vô espera, aquele tempo que inté hoje eu sô vi em sonho.
Em que as comida e as mistura ia sê tanta, tanta, que as família ia comê inté num podê mais.
E co'a barriga cheia ia si ri, si si, si ri.
Agora, 'gora eu sô u'a véia e num demora eu vô morrê.
Entonce, pra nada valeu a minha vida".

O sentido que se dava à vida e às privações - a esperança de ver chegar o Tempo do Divino, o tempo de justiça e fartura - se desfaz, sem que haja outro que o substitua: a inutilização da vida está toda posta nesse lamento, nessa consciência - exposta, porque no momento mesmo da crise - de que um mundo chegou ao fim.

Se, no mestrado, acabei deslocando a referência da Simone Weil para Hannah Arendt, no entendimento de que esta me permitia uma análise menos conservadora, hoje me vejo fazendo as pazes com a noção de desenraizamento e impelida a repensar a atualidade de seus significados sociológicos.

Pós-Post: o Mauricio havia feito há algum tempo a provocação de escrevermos textos sobre a "cozinha sociológica", isto é, sobre os bastidores da pesquisa que, em geral, não aparecem nos "produtos" finais. Esse post, talvez excessivamente permeado de lembranças e auto-tateares, é um primeiro exercício de exposição de pensamentos e reflexões que, ainda que não diretamente ligados à pesquisa, relacionam-se com as escolhas e tensões que a embasam.

Imagem: "Angelus Novus", P. Klee. Retirado de http://epc.buffalo.edu/authors/bernstein/shadowtime/