quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Desenraizamento


Para Fausto Padilha

É possível ir a bibliotecas apenas com o objetivo de encontrar e retirar alguns livros - uma transação rápida e mecânica, efetuada por quem sabe o que procura. Mas também é possível permanecer numa biblioteca sem saber direito o que se está procurando, vagar entre as estantes, experimentar os cheiros dos livros, sentir as lombadas desgastadas ou sujas - a maneira dos anjos do Wim Wenders.

Quando estava na graduação, eu gostava de me perder na biblioteca - que naquela época nem era tão grande e iluminada quanto é hoje: era uma espécie de porão, mal-iluminado, incrustada no meio do corredor que levava do saguão ao café. Em geral, adotava a seguinte estratégia: procurava a referência de um ou dois livros e então me perdia na sequência que levava de um a outro. Também ficava horas examinando os carrinhos com os exemplares a serem devolvidos às estantes e foi dessa maneira que acabei conhecendo alguns livros que nenhum professor indicara, simplesmente porque me senti atraída por eles (nunca soube resistir a um título sedutor...).

Conheci o trabalho da Éclea Bosi dessa maneira. Memória e sociedade: lembrança de velhos me impressionou profundamente. Demorei anos para poder comprá-lo, então vira e mexe o exemplar da bilbioteca estava lá em casa. Gostava do livro em parte porque a memória era um tema que me interessava, mas em parte porque o método das entrevistas me fascinava e, mais ainda, me encantava a maneira pela qual a Ecléa construíra a apresentação de seus resultados. Se alguém duvida que seja possível conciliar trabalho e rigor científico com sensibilidade e um estilo delicado de escrita, o livro da Éclea é a prova de que sim, é possível.

Foi a partir da Éclea que conheci o termo desenraizamento e a Simone Weil. Durante um longo período em que fiz iniciação científica em Sociologia da Cultura, tais referências não me foram importantes. Mas, depois de já formada, quando resolvi me aventurar pelos caminhos da Sociologia do Trabalho e propus pensar sobre os significados sociológicos da experiência de indivíduos que podiam ser classificados como "desempregados por desalento", tais referências apareceram como fundamentais: o desemprego atual me parecia um novo tipo de desenraizamento, diverso certamente daquele narrado pela Simone Weil, mas com efeitos semelhantes em termos de desestrutração identitária - ambos os desenraizamentos advém da experiência de um trabalho que é puro labor.

De algum modo, o tema do desenraizamento sempre me tocou. Aos 17 anos, quando participava de um grupo de teatro, montamos Na Carrera do Divino (Carlos Alberto Sofredini), baseado - entre outros estudos - n'Os Parceiros do Rio Bonito, do Antonio Candido. A peça narra a estória de uma família de caipiras, que tinham o comportamento típico de ocupação irregular de pequenas propriedades, abandonando-as quando já não produziam a contento ("mudemo, fio, mó de que a terra tava cansada", é a resposta que o pai dá ao filho, quando interrogado sobre a razão que os levara a novamente se mudar). Até que relações propriamente capitalistas chegam ao campo, sob a forma da parceria, e o Nhô Jeca se torna meeiro de seu vizinho-Lobisomem. A peça se concentra sobre a expulsão do pequeno agricultor: ao final, a família se muda para a cidade, expulsa de sua forma de viver, desenraizada tanto pela falta da terra quanto pela incapacidade - em especial dos pais - em compreender as novas relações que os envolveram.

Há trechos lindos e pungentes, como quando Nhô Jeca, exaustivamente trabalhando a terra para pagar suas dívidas, pergunta se o próprio corpo é um relógio: expressão da inversão de um tempo cíclico por outro tempo, o da produtividade e da corrida contra o tempo.

Mas um trecho que sempre me emociona é quando, quase ao final, Nhô Jeca fica perdido ao saber que não apenas não conseguirá comprar a terra quanto ainda está endividado. Ele se desespera, e na tentativa de contê-lo, a mulher enuncia o mundo que se perdeu:

"Não, eu nunca mais vô espera, aquele tempo que inté hoje eu sô vi em sonho.
Em que as comida e as mistura ia sê tanta, tanta, que as família ia comê inté num podê mais.
E co'a barriga cheia ia si ri, si si, si ri.
Agora, 'gora eu sô u'a véia e num demora eu vô morrê.
Entonce, pra nada valeu a minha vida".

O sentido que se dava à vida e às privações - a esperança de ver chegar o Tempo do Divino, o tempo de justiça e fartura - se desfaz, sem que haja outro que o substitua: a inutilização da vida está toda posta nesse lamento, nessa consciência - exposta, porque no momento mesmo da crise - de que um mundo chegou ao fim.

Se, no mestrado, acabei deslocando a referência da Simone Weil para Hannah Arendt, no entendimento de que esta me permitia uma análise menos conservadora, hoje me vejo fazendo as pazes com a noção de desenraizamento e impelida a repensar a atualidade de seus significados sociológicos.

Pós-Post: o Mauricio havia feito há algum tempo a provocação de escrevermos textos sobre a "cozinha sociológica", isto é, sobre os bastidores da pesquisa que, em geral, não aparecem nos "produtos" finais. Esse post, talvez excessivamente permeado de lembranças e auto-tateares, é um primeiro exercício de exposição de pensamentos e reflexões que, ainda que não diretamente ligados à pesquisa, relacionam-se com as escolhas e tensões que a embasam.

Imagem: "Angelus Novus", P. Klee. Retirado de http://epc.buffalo.edu/authors/bernstein/shadowtime/

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