domingo, 1 de março de 2009

Intimidade e Mundanidade

(O texto abaixo pode conter alguns spoilers, embora eu tenha feito o máximo para evitá-los).

Por recomendação do Mauricio, ontem assistimos "O Leitor". O filme é realmente bom, mas tenho que concordar a crítica da Lola, que observou que o filme não é exatamente marcante. Pra mim, isso se deve ao tom imparcial da narrativa, que se abstém de apresentar as emoções internas das personagens - quase todos são bastante reservados, e por isso só podemos vê-los em seus comportamentos expressos, em suas interações uns com os outros. Sabemos o que fazem, mas desconhecemos suas motivações ou suas experiências - então temos que nos contentar com que os atos que nos são mostrados sugiram algum sentido.

Ainda assim, é um filme bom e inicialmente eu pensei no cruzamento interessante que ele produz entre a pequena história e a Grande História.

O filme começa com o encontro entre Michael e Hanna, em 1958. Ele, um garoto de quinze anos; ela, uma mulher de 36 anos. Eles mantém uma relação durante algum tempo, e há uma espécie de troca: enquanto ela o inicia nos prazeres da carne, ele a inicia nos prazeres da literatura. A relação termina abruptamente, e Michael nunca consegue se recuperar.

Importa notar que a relação entre eles consiste em um "segredo" - ninguém sabe sobre os dois. Quero dizer, talvez os pais de Michael desconfiem, mas eles não se pronunciam. Os vizinhos de Hanna talvez também achem estranhas as visitas constantes, mas eles sequer aparecem. Dessa maneira, a relação entre ambos persiste por vários meses, sem percalços, até o tal final abrupto.

Oito anos mais tarde, eles se reencontram. Michael é então um estudante de direito, levado por seu professor para sessões do julgamento de cinco ou seis mulheres (minha memória é vergonhosa!), dentre as quais, Hanna. Elas estão sendo julgadas por sua participação no funcionamento do Estado nazista e ele fica arrasado de reencontrá-la, ainda mais naquela situação.

E é aqui que pensei que talvez houvesse um cruzamento interessante entre as dimensões da história. Para Michael, Hanna é a mulher que partiu seu coração e revê-la, em si mesmo, já lhe causaria dor. Mas saber o que ela fez muda a razão da dor, de certa forma - quando alguém próximo é capaz de ações tão impensáveis, o que isso pode significar? Quando o nazismo ganha rosto, cor, cheiro, sabor, ele se torna mais ou menos impossível? O que explica que o que é loucura coletivamente, individualmente parece dotado de razão?

As respostas de Hanna às perguntas que lhe são feitas no tribunal são ótimas e precisas: em nenhum momento ela é hipócrita. E toda a situação do julgamento faz lembrar o ótimo Eichmann em Jerusalém - retrato sobre a banalidade do mal, que trazem as reportagens escritas pela Hannah Arendt durante o julgamento de Eichmann (aliás, um dos diálogos do professor de Michael com seus alunos se refere justamente ao fato do regime nazista ter sido um regime legal; argumento que estava na base da afirmação de Eichmann de ser "inocente, nos termos da acusação". Seus atos não eram colaboração ao regime: ele era um trabalhador, cumprindo seus deveres; ele era um cidadão, obedecendo às leis). Há coisas em seu passado que a envergonham, mas não seu trabalho como guarda de campo de concentração - lá, ele era uma funcionária, com responsabilidades a cumprir.

Chamei a atenção mais acima para o fato de ninguém interferir no relacionamento de Michael e Hanna, porque um tema recorrente na discussão sobre o nazismo é o da omissão - muitos sabiam o que estava acontecendo, mas ninguém queria acreditar que fosse verdade e, por isso, agiram como se o impossível não houvesse se tornado possível. (O que, aliás, é uma das razões para a epígrafe do último volume das Origens do Totalitarismo, também da H. Arendt: "Os homens normais não sabem que tudo é possível" - D. Rousset). O filme acaba retratando, tanto na escala individual quanto coletiva, os resultados desastrosos da omissão e da cegueira.

Por isso (alerta de spoiler!!!) , é tão eloquente que as possibilidades de superação se abram apenas após o encontro de duas vítimas de Hanna - a sobrevivente do nazismo e o sobrevivente da paixão. Nesse encontro, na confirmação incômoda e dolorosa de que tudo realmente aconteceu, de que houve mal, marcas e traumas, pela primeira vez Michael se sente à vontade para contar seu segredo. Sem falar do assunto, como reconhecer sua veracidade?

E talvez aí se explique a decisão do diretor por filmar apenas o exterior de suas personagens - somente o que está expresso é o que está no mundo (o que, aliás, também é uma idéia muito arendtiana). A política é o que está visível, é o que inter-essa - o que liga os homens uns aos outros, o que os liga ao passado, ao presente e ao futuro. A mundanidade é estranha à intimidade, assim como o público é estranho ao privado.

"O Leitor", parece, decidiu propor a tensão entre essas duas dimensões: privado e público, sexo (reprodução e biologia) e arte (literatura, música), íntimo e político. E, em uma como em outra, faz a crítica da omissão.

Imagem: http://thephoenix.com/BLOGS/outsidetheframe/archive/2009/01/22/oscar-nominations-post-mortem-misreading-quot-the-reader-quot.aspx