segunda-feira, 20 de abril de 2009

Depressão

A ideia de que a depressão seja um sintoma social não significa que os depressivos devam ser tratados como casos sociológicos. Os depressivos devem ser escutados, como todos os que buscam a psicanálise, um a um. Assim, em sua singularidade irredutível, deve ser conduzida a análise dos depressivos - que passa, necessariamente, pela reversão da forma como cada um deles se deixou alienar (como todo sujeito, aliás) pelas formações hegemônicas do imaginário social.
(Maria Rita Kehl, entrevista a O Estado de São Paulo, 19/04/2009)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Corra coelho corra

Obama: O déficit do orçamento é grande assim, ó!
Foto: AFP, 13/4/09

Macumba mecânica

Vou ao mesmo mecânico (de carros) há muitos anos. Também vou ao mesmo barbeiro, mas essa é outra história. Uns dias atrás, estava lá aguardando o serviço - tirar um barulhinho misterioso, parecido com o de um grilo barítono sendo esgoelado - quando, entre palpites e diagnósticos sobre válvulas e correias, o C. me pergunta: 'Acredita em macumba?' E eu: 'Bom, não acredito não... mas conta aí'. Ele se apruma e aponta a porta da oficina: 'Tu viste aquele camarada que acabou de sair daqui? Um negão? Pois é...'. E continuou o C., animado pela minha oportuna negativa:

'Tinha um senhor, de idade já, que tinha um ferro-velho bem no meio da V.M.. Ele já era de idade, a senhora dele também, e pegaram aquele cara que tu viste sair daqui pra criar, ainda menino. Adotaram o cara, rapaz, faz uns trinta anos, ele tava na mesma sala do primário comigo, a gente brincava, jogava bola e tal, e meu pai já tinha a oficina e dava pra eles as peças velhas, eles vinham pegar de kombi. Eram só os três, o casal não tinha filhos. E eles iam na igreja de crente. O rapaz era superboa gente, tava meio atrasado na escola porque começou tarde, mas era, assim, supernormal, esforçado, gente boa mesmo, tranquilo, uma moça, se é que você me entende... Então, um dia o pai dele já tava fechando o ferro-velho, passando o cadeado no portão, quando chega um sujeito querendo vender uns troços. Como o velho já tinha trancado tudo, pediu pro sujeito passar no dia seguinte, pois já tinha guardado a balança, soltado o cachorro e tal. Meu, o sujeito queria porque queria que o velho comprasse as tralhas na hora. E o velho não quis abrir, de jeito nenhum, discutiu com o sujeito, mas nada de ceder.'

Aí o C. sobe um tom no gestual. Joga os ombros pra trás. Franze a testa. Tempo de drama é tudo.

'O sujeito fala pro velho: ah, é, velho munheca, tu não vai abrir não, seu f #@%! Tu vai ver: vou te jogar uma macumba!'. Uma oitava abaixo, volta o narrador:

'Cara, no dia seguinte, o menino endoideceu. Não dormia mais. Ficava bufando, praguejando, correndo em volta do ferro-velho, dia-e-noite, sem parar, não falava mais coisa com coisa. De uma hora pra outra, o rapaz que era super gentil, super tranquilo, virou o cão. A macumba pegou nele! Tentou até matar a mãe, o velho chegou na hora H, de segurar o rapaz, com uma faca na mão. Meu, que sofrimento! A kombi ele agarrou o volante pra bater num muro, tentou matar o pai, coitado, ficou todo machucado. Aí, cara, que desespero. Procuraram tudo quanto é remédio. Levavam ele pro terreiro, tinha que amarrar, mas o bicho se soltava, arrebentava tudo, jogava tudo no chão, ninguém conseguia segurar, dez caras penavam pra segurar o cara, chutava todo mundo, urrava. Uma tristeza.'

Refrão: 'Tu vê, a macumba que o sujeito fez não pegou no pai, pegou no filho, que desgraça, desgraça maior ainda que pegar na pessoa foi pegar no filho'.

'Cara, foram anos assim. Anos. A vida dos velhinhos um inferno. O rapaz só melhorou quando voltaram na igreja de crente, sabe tipo aquelas da tevê, que tiram o capeta? Então, mas não foi assim fácil, não senhor! O rapaz rolava pelo chão, batia a cabeça até sangrar, gritava, gritava - Daqui desse corpo ninguém me tira, não! No fim, foi amansando, amansando, indo na igreja de crente, tu viu o cara aí, tá normalzinho, ainda vem pegar ferro-velho aqui, mas os velhinhos já morreram, meu, uma pena, uma pena.'

'Orrameu, depois disso, cara, esse negócio de macumba, depois disso, eu tenho que acreditar, né meu?'. E faz meia-volta sobre os calcanhares, pra atender o telefone que tocou bem nessa hora, como nos filmes de terror.

O grilo-Caruso (Caruso era barítono ou era tenor?) sumiu, trocando uma peça nova por outra peça nova, não se sabe bem o por quê.

Causas e consequencias à parte, na mecânica, na macumba e mesmo na sociologia, o trabalho perfeito tem lá sua dose de imponderável.