quarta-feira, 17 de junho de 2009

Corpo, poder e experiência

(para o Mauricio e para o Rodrigo)
Como é que se constitui um problema sociológico? Ele é fruto somente de leituras e diálogos com referências bibliográficas ou também é fruto de coisas que a gente vive, experimenta e que modificam nossa própria relação com as referências e os "cânones" da subárea de conhecimento na qual desenvolvemos nossas reflexões?
Há duas semanas, entreguei minha tese de doutoramento. Desde o mestrado, venho trabalhando com o tema da "experiência salarial" em nosso país periférico e subdesenvolvido da perspectiva do desemprego. Naquela primeira pesquisa, meu olhar estava voltado para a compreensão das relações entre cultura do trabalho e do emprego, preocupando-me, portanto, em entender de que modo - apesar dos limites da generalização da norma salarial entre nós - a existência do "emprego" reorganizara as categorias utilizadas pelos indivíduos para a interpretação de suas experiências, chances e possibilidades.
Mas já ao final do mestrado eu me dera conta de que, a despeito de meu trabalho ter lançado algumas luzes (falsa modéstia, modo off) sobre os significados da entrada da questão do "fim do emprego" em nosso campo de preocupações, a abordagem tinha muitos limites para informar uma compreensão mais abrangente sobre o que teria sido essa "experiência salarial" nos trópicos. Havia a questão do padrão inicialmente meritocrático de acesso as políticas sociais, de distribuição desigual de oportunidades de acesso ao mercado formal (internamente aos mercados de trabalho locais e também de acordo com a região do país), havia a persistente questão da pobreza e sua relação com o trabalho e a cidadania... Mas também havia a continuidade da dificuldade de apreender as especificidades de nossa experiência, para além dos termos do atraso e da falta.
No projeto de doutorado, tentei então superar essas limitações, por meio de um olhar mais extenso, que incluía - além dos indivíduos - também as instituições de intermediação de mão-de-obra. O objetivo era recolher mais elementos para identificar as formas pelas quais essas figuras (desemprego, desempregado, trabalho, trabalhador, emprego, empregado) eram produzidas. Naquele primeiro momento, eu me referia à Michel Foucault, mas quase marginalmente, pensando principalmente no dispositivo disciplinar e em seus primeiros trabalhos.
Foram muitas crises durante todos esses anos de pesquisa. Em parte devido a novas referências e questionamentos que foram se incorporando ao meu olhar, em parte devido aos próprios caminhos que a pesquisa foi tomando (ao centrar-se nas instituições de intermediação de mão-de-obra públicas) mas em parte também devido a uma experiência muito radical, embora também muito distante do tema de minha pesquisa: refiro-me à minha experiência de ser mãe. É mais do que isso: refiro-me à minha experiência de ter parido em hospital e, posteriormente, às minhas experiências com a puericultura e pediatria tradicionais.
Eu tive uma gravidez lisinha, lisinha, super saudável. Uns sangramentozinhos no começo (muito, muito comuns mesmo), mas só. Tinha uma médica do convênio que, embora tenha me dito que topava um parto normal, desde a 35ª semana tentava "botar o gato no telhado", pedindo mil exames até que um deles, errado, sugeriu que eu estava com pouco líquido. Foi a desculpa que faltava, e ela então me pôs de repouso.
Durante a gravidez, me incomodava um pouco esses ultrassons excessivos, essa tentativa de controlar tudo, a todo custo, e de dar muita importância a medições que (depois aprendi) são muito pouco confiáveis (vale exemplo besta? No último ultrassom, o Rodrigo estava com 2.400 gr. Nasceu uns dias depois, de 37 semanas, e 3.000 gr. Vale outro exemplo besta? Fui medir a pressão lá pela 34ª semana, e a obstetriz fez a medição comigo deitada, de barriga pra cima - o que altera a circulação. Deu 12 por 8, mas como sempre dava menos, ela se apressou a anotar na minha 'carteira de gestante' com uma cara que quase me deu MESMO pressão alta).
Eu queria um parto normal. Na verdade, acho que eu nem me colocava muito essa questão, porque pra mim era isso: criança nasce, uai. Entrou, tem que sair. E pra mim era tão natural, e era tão mais vantajoso pra todo mundo, que não me passava pela cabeça que seria diferente. Fora que eu morro de medo de cirurgia, então, nem pensava na possibilidade de sofrer uma cesárea. Santa ingenuidade, Homem-Morcego!
Por sorte, enquanto a médica estava viajando, assim como o médico que ela deixara no lugar, meu filho decidiu nascer. Era uma quinta-feira à tarde, e então fomos, Edu e eu, pro hospital. Mal cheguei, a obstetriz que nos atendeu me olhou e tascou: "Primigesta? Com bolsa rota? O doutor não vai querer esperar...". No final dessa triagem com ela, ainda fez vaticínios "de cesárea ou normal, esse neném nasce hoje".
Depois desse primeiro enquadramento (primigesta = mulheres em primeiro parto = partos mais longos; bolsa rota = bebê em perigo iminente de infecção), começou outro, de ordem absolutamente diversa. De parturiente, passei à paciente, mal meu marido tinha assinado a guia de internação. Andar, não podia mais: doente, afinal, anda de cadeira de rodas.Na salinha de espera onde assinaria os papéis que transferiam temporariamente o domínio sobre meu próprio corpo aos médicos e receberia o uniforme de doente (aquele vestidinho com bumbum de fora), encontrei várias mulheres. Todas (vejam bem, TODAS) se internando para cesáreas agendadas (depois descobri que quinta-feira é o dia oficial das cesáreas agendadas). As razões? Porque o neném é muito grande; porque ele é muito pequeno; porque eu tenho pressão alta; porque são gêmeos e já estamos na 37ª semana e eles não querem nascer... Putz! Como é difícil um corpo feminino produzir um bebê nos parâmetros para nascer naturalmente, não?
O Rodrigo só nasceu de parto normal porque eu cheguei na hora da troca de plantão. Não é piada. Eu fiquei umas três horas na maca da sala de espera, praticamente sozinha (graças a Deus, já que a última paciente que aguardava sua cesárea estava com muita pena de mim porque eu estava sentindo "muita dor" e mandou uma obstetriz que queria me levar direto pra sala de cirurgia). Curtindo minhas contrações e meus últimos momentos de barriga, conversando com o Rodrigo, explicando a ele o que estava acontecendo, imaginando a cabecinha dele forçando a passagem que o traria pros meus braços... Diante da ameaça de ser levada para a sala de cirurgia, porém, tive que sair desse ensimesmamento pra recusar a oferta. E que não me viessem com história de que eu não tinha dilatação, porque já haviam se passado quatro horas desde que a bolsa rompera e ninguém mais tinha me examinado. Ela então examinou: 3 cm. Ainda teve a empáfia de me dizer que "eu era uma boa candidata ao parto normal". Juro que pensei que isso vinha no pacote da combinação xx? Dali a pouco chegou o médico e foi então que tudo fica muito nebuloso e acelerado na minha memória. 
Porque aí, meu pobre corpo que achava que parir era normal e natural, virou oficialmente objeto de uma série de intervenções. Primeiro, a ocitocina no soro (pra acelerar as contrações). Eu estava com 4 cm, mesmo tendo ficado deitada, e não sentia dor - só ansiedade de saber que o Rodrigo estava chegando. Depois da ocitocina, começou a doer muito, muito, mas muito mesmo. Mais ou menos por esse horário, deixaram finalmente o Edu entrar no quarto. A dor era muita, e eu queria fazer algo com ela, queria andar, tomar banho. Mas, claro, eu não podia deixar de ser monitorada nenhum minuto, não podia sair da cama. Presa e impotente, no meio daquele monte de gente entrando e saindo. Até tentei fugir, mas o Edu não deixou :-) Então, nos 8cm de dilatação, veio o anestesista. Anestesia dada, neném coroando... Mas acho que a anestesia foi muita, então, minhas lembranças são meio grogues e só percebi depois do parto que tinha sofrido uma episiotomia (nem sequer anunciada, de tão rotineira). Também não senti meu filho nascer. Fiz força, a enfermeira subiu na minha barriga... tudo para fazer funcionar meu pobre corpo impotente. Que não sentiu a passagem do meu filho à vida. E que foi ameaçado pelo médico salvador "ou você faz força do jeito certo, ou vamos ter que usar fórceps!".
O pós-parto também foi punk, com o Rô no berçário por várias horas e eu ainda me recuperando da anestesia. De hora em hora (e era mais de 1h da manhã), aparecia uma enfermeira para olhar o meu corte, até que se lembrava que eu tinha tido um parto normal ("sempre tem uma ou outra, né?" Na noite em que o Rô nasceu, fomos eu e outra mulher, no hospital inteiro em que devem ter nascido por volta de 20 bebês naquela noite). De manhãzinha o Rô chegou, finalmente, e então consegui descansar um pouco, apesar de toda emoção e adrenalina. Aí começou outra novela: a da pega, isto é, a da amamentação. também vira e mexe aparecia alguém para saber se ele já tinha mamado. E ainda inventamos de dar vacina no hospital, então, na noite de sábado, o Rô teve febre. Mas sabem que a culpa pela febre não foi da vacina, que não dava reação? Foi minha, que fechei as janelas e fui incapaz de dar de mamar ao meu bebê. Ele precisou ser salvo da desidratação pela enfermeira, e enquanto meu leite descia e vazava, eu assisti meu filho tomando Nan no copinho.
Entrei no hospital na quinta-feira à noite feliz e confiante de que meu corpo era capaz de parir um filho; saí direto para a farmácia, em busca de um intermediário de silicone que suprisse a incapacidade dos bicos do meu seio. Entrei como uma mulher que confiava nos processos fisiológicos e que gravidez não era doença. Mas saí com receitas médicas para fazer cicatrizar as marcas das intervenções que visavam minorar os efeitos da minha impotência. A episio cicatrizou bem e rapidamente; as cicatrizes de tudo o que meu parto podia ter sido e não foi... Acho que até hoje doem de vez em quando.
A relação com a pediatria, foi outra novela... As curvas de crescimento, a constante ameça de ter que recorrer a complementos caso meu corpo não funcionasse a contento, a preocupação com o desenvolvimento adequado, com a construção da 'independência' de um bebê de poucos meses. Afe!
E o que tudo isso tem a ver com sociologia, desemprego e tese?
Pra mim, foi essa experiência que tornou possível compreender de maneira mais densa tanto o dispositivo disciplinar e sua maneira específica de pôr em relação corpo - sujeito - verdade, quanto me impulsionou a olhar com mais cuidado uma noção que, até então, eu conhecia somente a partir das referências breves presentes na última aula do curso dado por Foucault em 1976 (Em Defesa da Sociedade) e no último capítulo do primeiro volume da História da Sexualidade: a noção de biopolítica.
Nesse momento, a noção de biopolítica era usada para apontar a entrada da vida como objeto de intervenção governamental (oposta ao poder soberano, que podia "fazer morrer e deixar viver"). Mas entrada da vida num sentido muito específico: procurando "fazer viver e deixar morrer", abre-se um novo conjunto de possibilidades de intervenção, que terá na estatística sua ferramenta principal, terá como objeto a idéia de população e como objetivo o "viver mais e melhor", isto é, o bem-estar.
Olhando a crise do emprego e do desemprego, isto é, a desconfiança que se introduzira desde os anos 1980 de que a "era do emprego" estava chegando ao fim e a observação de que a pluralização das formas de ocupação colocava em evidência os limites da categoria "desemprego", me parecia que seria possível pensar que estávamos diante da crise de uma forma mesmo de regulação da vida. Corroborava essa impressão a observação de que, com as transformações no mundo do trabalho, eram os próprios fluxos da organização da vida que se desorganizavam: a inatividade dos anos de estudo, a entrada na atividade coincidindo com a transição para a vida adulta, os anos de atividade e, finalmente, a saída coincidindo com o início da velhice. Em torno desse fluxo organizaram-se também instituições como escola, creches, previdência...
No caso brasileiro, essa organização nunca foi muito enrijecida, porque ela é fruto em grande parte da própria estruturação do mundo do trabalho em torno na norma salarial. Nem por isso deixamos de sentir os efeitos dessa desorganização, como atestam as tensas relações entre gerações diferentes de trabalhadores e provavelmente até mesmo a crise do ensino e da escola. Afinal, a norma salarial e suas instituições correlatas (previdência e seguro-desemprego como exemplos mais eloquentes) não deixam de ser uma maneira específica de solidariedade, isto é, de relação entre indivíduos, reunidos não sob uma identidade de classe, mas sob a forma da população (em Idade Ativa, Economicamente Ativa, Inativa...).
A dura experiência de ter parido em um hospital, e ter sentido tão intensamente os efeitos dessa dupla tecnologia de poder - a disciplinar, expressa nas rotinas, na linguagem, na arquitetura e a biopolítica, expressa nos enquadramentos "primigesta", "bolsa rota" etc. - chamou minha atenção portanto para um nível de análise completamente distinto. No hospital, eu era ao mesmo tempo um corpo a ser disciplinado e um caso típico; eu precisava seguir duplamente a norma, a norma disciplinar do corpo a ser carregado em cadeira de rodas ou na maca, a ser levado para o centro cirúrgico ou para o Labor Delivery Room, mas também a norma estatística, da qual eu não podia desviar, como parturiente de baixo risco.
Se não fosse por essa experiência, talvez eu não tivesse compreendido as implicações da noção de biopolítica e não tivesse, então, reorientado todo o meu trabalho nessa direção. Ser mãe no período de doutorado trouxe inúmeras consequências para o meu trabalho: me roubou tempo, me trouxe crises fundas e radicais, me pôs em descompasso com as normas e tempos do Programa de Pós... Mas me trouxe também um novo olhar, me possibilitou visualizar a fecundidade de uma abordagem completamente distinta para a compreensão do problema que me interpelava.

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