domingo, 30 de agosto de 2009

Quando Setembro Vier

Caio Fernando Abreu

De tão azul, o céu parecerá pintado. E nós embarcaremos logo rumo às ilhas Cíclades

Houvesse cortinas no quarto, elas tremulariam com a brisa entrando pelas janelas abertas, de manhã bem cedo. Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio, muito limpa, as azaléias vermelhas e brancas todas floridas. Parecia que alguém tinha recém pintado o céu, de tão azul. Respirei fundo. O ar puro da cidade lavava meus pulmões por dentro. Setembro estava chegando enfim.

Na sala, encontrei a mesa posta para o café — leite e pão frescos, mamão, suco de laranja, o jornal ao lado. Comi bem devagarinho, lendo as notícias do dia. Tudo estava em paz, no Nordeste, no Oriente Médio, nas Américas Central, do Norte e do Sul. Na página policial, um debate sobre a espantosa diminuição da criminalidade. Comi, li, fumei tão devagarinho que mal percebi que estava atrasado para o trabalho. Achei prudente ligar, avisando que iria demorar um pouco.

A linha não estava ocupada. Quando o chefe atendeu, comecei a contar uma história meio longa demais, confusa demais. Só quando ele repetiu calma, calma, pela terceira vez, foi que parei de falar. Então ele disse que tinha acabado de sair de uma reunião com os patrões: tinham decidido que meu trabalho era tão bom, mas tão bom que, a partir daquele dia, eu nem precisava mais ir lá. Bastava passar todo fim de mês, para receber o salário que havia sido triplicado.

Desliguei um pouco tonto. Então, podia voltar a meu livro?

Discreta e silenciosa como sempre, a empregada tinha tirado a mesa. No centro dela, agora, sobre uma toalha de renda branca, havia rosas cor de chá, aquelas que Oxum mais gosta. No escritório, abri as gavetas e apanhei a pilha de originais de três anos, manchados de café, de vinho, de tinta e umas gotas escuras que pareciam sangue. Reli rapidamente. E a chave que faltava, há tanto tempo, finalmente pintou. Coloquei papel na máquina, comecei a escrever iluminado, possuído a um só tempo por Kafka, Fitzgerald, Clarice e Fante. Não, Pedro não tinha ido embora, nem Dulce partido, nem Eliana enlouquecido. As terras de Calmaritá realmente existiam: para chegar lá, bastava tomar a estrada e seguir em frente.

Escrevi horas. Sem sentir, cheio de prazer. Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo, tanto tempo que quase não a reconheci (mas como poderia esquecê-la?), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar, pediu, para irmos às ilhas gregas como tínhamos combinado naquela noite. Se podia voltar, insistiu, para sermos felizes juntos. Eu disse que sim, claro que sim, muitas vezes que sim, e aquela voz repetiu e repetia que me queria desta vez ainda mais, de um jeito melhor e para sempre agora. Os passaportes estavam prontos, nos encontraríamos no aeroporto: São Paulo/Roma/Atenas, depois Poros, Tinos, Delos, Patmos, Cíclades. Leve seu livro, disse. Não esqueça suas partituras, falei. Olhei em volta, a empregada tinha colocado para tocar A Sagração da Primavera, minha mala estava feita. Peguei os originais, a gabardine, o chapéu e a mala. Então desci para a limusine que me esperava e embarquei rumo a.

PS — Andaram falando que minhas crônicas estavam tristes demais. Aí escrevi esta, pra variar um pouco. Pois como já dizia Cecília/Mia Farrow em Rosa Púrpura do Cairo: “Encontrei o amor. Ele não é real, mas que se há de fazer? Agente não pode ter tudo na vida...” Fred e Ginger dançam vertiginosamente. Começo a sorrir, quase imperceptível. Axé. E The End.

O Estado de S. Paulo, 27/08/1986

sábado, 29 de agosto de 2009

Ainda agosto

Conheço pouquíssimo Caio Fernando Abreu, embora oportunidade não me falte (né Fabiana?). Outro 'Agosto' é o de Rubem Fonseca, que não vou comentar - digo apenas que eu recomendo, mas esqueci do livro com a mesma facilidade e interesse com os quais eu o li, quando recém lançado. Como agosto não acaba assim fácil, em especial, 'agosto por dentro', também não vou nem tentar 'ir pra dentro' desse agosto. Mas por que agosto? Quer dizer, por que não outro mês qualquer, fevereiro, abril, novembro? Por que não tem o mesmo apelo dizer que estamos com 'maio por dentro'?

Agosto ser o mês agourento deve ser algum resquício de alguma tradição pagã, sei lá. Diz a lenda, que eu cito de cabeça, que o Imperador Augusto, num arroubo de falta de modéstia, deu seu nome a um mês inteiro. E, para não ficar atrás, estabeleceu que o 'seu' mês não podia ficar atrás de julho (de Júlio César, que iniciou a moda) aumentou a duração de agosto para 31 dias, roubando (mais) um dia do mês 'menos importante', fevereiro. Aí os inconformados com a mudança lançaram uma maldição... taí, vejam, já dá um prólogo de filme de terror: A Maldição de Agosto.

Eu só constato que parece haver algo de mórbido em agosto. Eu mesmo já andei falando de Hiroshima, de Les Paul e Raul Seixas; mas também em agosto teve Ted Kennedy, e 55 anos do suicído de Getúlio Vargas, e sei lá quantos anos do assassinato de Trotsky e de tantas outras figuras notáveis. Meu pai se foi em agosto. Meu avô materno, quando eu tinha 12 anos, também. Agosto é mês de lobisomem e de cachorro louco. Se o dia 13 for sexta-feira então... Mas, se formos analisar com pouco mais de cuidado, não há porque agosto ser mais mortífero nem mais malassombrado que qualquer outro mês. O dia de finados é em novembro. O bombardeio de Dresden foi em fevereiro. 31 de março de 64 foi em 1° de abril. O tsunami na Malásia foi em dezembro, e vai por aí. Outros meses tem melhores imagens. Setembro, mais afortunado, é o mês da primavera. Maio, das noivas. Dezembro, das festas. Fevereiro tem carnaval. Meses solares, afetivamente mais quentes, meses 'para fora', mas que nem por isso são poupados de tragédias. Só que elas não 'colam' neles como em agosto. Aliás, não há nenhum feriado nacional festivo em agosto, tirando, se não me engano, o dia do soldado.

Por arbitrário que seja o fato de agosto ter a fama que tem, por mais que seja chato para os nascidos nesse mês, parece que há algum sentido em existir no ciclo anual um mês simbolicamente ligado à introspecção, ao luto, à morte, ao fim, ao susto, ao espanto, à perda, à má sorte. Parece que há uma lógica, pois não se pode (re)começar algo que não teve término, não se pode saudar a nova vida, o novo alento, sem finalizar, sem abandonar, sem perder, sem dor. Sem ter cicatrizes na memória (... não lembro agora de quem é essa bela frase. Efeitos da idade).
As religiões organizadas (organizadas?) tem, entre seus repertórios rituais obrigatórios e característicos, os destinados a finalizar, a fazer a passagem, a honrar os que foram. Aliás, o 'modelo de negócio' das religiões pressupõe um monopólio sobre esse momento, essa situação particular - o ritual, não sobre o processo de morrer, que este já é da medicina e aliados. Agosto seria, no ciclo dos meses, o (mais ou menos) equivalente ao ritual de passar e de lembrar e refletir sobre a passagem (final ou não).

Tudo isso para dar o meu singelo palpite: agosto é saudável. Nos dois sentidos. No primeiro, autoajuda à parte, acho pode ser bom pra saúde 'desreprimir' nossa tristeza, nossa falta de algo que não sabemos o quê, nossa desesperanças, tropeços, hesitações, a sensação de despertencimento, nossos medinhos e medões, nossa necropatia, nossa estupefação ante o... sei lá, ante o que 'tá pegando' [rodapé: lembrei vagamente de Marcuse. Vou pesquisar]. Se for o caso, chorar até se acabar. Desconfio de quem parece não sofrer, nunca. No segundo, agosto deveria ser saudado, sim, como momento-espaço-tempo de 'libertar nossos desacertos', remoê-los e 'domesticá-los', como nações ou como partido, como ocidental ou cristão, como carnívoro ou como macho, esses tipos tão em baixa. Discutir com liberdade, isto é, sem medo nem restrições; talvez nem compromissos. Poderíamos dedicar todo agosto a resignificar com a sobriedade merecida todas as ocasiões em que estivemos do Lado Negro, por que fizemos as guerras, como as vencemos, como fomos vencidos, como começamos a errar o erro que sofremos hoje. Assumir agosto de vez, em resumo. Talvez possamos dar uma mãozinha para setembro chegar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Dom Quixote

Estava eu arrumando (ou tentando arrumar) meus armários e papéis, quando lá encontro um envelope com a nítida letra da Fabiana. Tratava-se de um cartão de aniversário gigante, entregue no meu primeiro aniversário desde que nos conhecemos (lá nos idos de 1996), todo feito à mão, lindo, lindo. E na capa do cartão, um cavaleiro armado enfrenta um dragão de cara fofa. A imagem ganhou novos significados porque, um dia antes, achei partes impressas do meu blog antigo (La Philosophie dans le Boudoir) e, num desses posts antigos, uma leitura breve do Dom Quixote feita pelo Foucault em As Palavras e as Coisas.

Acho que não há problema em republicá-la, como uma lembrança de uma época em que eu lia mais, escrevia mais, e a Fabi ainda tinha tempo de fazer cartões à mão. Uma época bastante doce.


Dom Quixote
Com suas voltas e reviravoltas, as aventuras de Dom Quixote traçam o limite: nelas terminam os jogos antigos da semelhança e dos signos; nelas já se travam novas relações. Dom Quixote não é o homem da extravagância, mas antes o peregrino meticuloso que se detém diante de todas as marcas da similitude. Ele é o herói do Mesmo. Assim como de sua estreita província, não chega a afastar-se da planície familiar que se estende em torno do Análogo. Percorre-a indefinidamente, sem transpor jamais as fronteiras nítidas da diferença, nem alcançar o coração da identidade. Ora, ele próprio é semelhante a signos. Longo grafismo magro como uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros. Seu ser inteiro é só linguagem, texto, folhas impressas, história já transcrita. É feito de palavras entrecruzadas; é escrita errante no mundo em meio à semelhança das coisas. Não porém inteiramente: pois, em sua realidade de pobre fidalgo, só pode tornar-se cavaleiro, escutando de longe a epopéia secular que formula a Lei. O livro é menos sua existência que seu dever. Deve incessantemente consultá-lo, a fim de saber o que fazer e dizer, e quais signos dar a si próprio e aos outros para mostrar que ele é realmente da mesma natureza que o texto donde saiu. Os romances de cavalaria escreveram de uma vez por todas a prescrição de sua aventura. E cada episódio, cada decisão, cada façanha serão signos de que Dom Quixote é de fato semelhante a todos esses signos que ele decalcou.

Mas se ele quer ser-lhes semelhante é porque deve prová-los, é porque os signos (legíveis) já não são semelhantes a seres (visíveis). Todos esses textos escritos, todos esses romances extravagantes são justamente incomparáveis: nada no mundo jamais se lhes assemelhou; sua linguagem infinita fica em suspenso, sem que qualquer similitude venha jamais preenchê-la; podem ser queimados todos e inteiramente, mas a figura do mundo não será por isso alterada. Assemelhando-se aos textos de que é o testemunho, o representante, o real análogo, Dom Quixote deve fornecer a demonstração e trazer a marca indubitável de que eles dizem a verdade, de que são realmente a linguagem do mundo. Compete-lhe preencher a promessa dos livros. Cabe-lhes refazer a epopéia, mas em sentido inverso: esta narrava (pretendia narrar) façanhas reais prometidas à memória; já Dom Quixote deve preencher com realidade os signos sem conteúdo da narrativa. Sua aventura será uma decifração do mundo: um percurso minucioso para recolher em toda a superfície da terra as figuras que mostram que os livros dizem a verdade. A façanha deve ser prova: consiste não em triunfar realmente - é por isso que a vitória não importa no fundo -, mas em transformar a realidade em signo. Em signo de que os signos da linguagem são realmente conformes às próprias coisas. Dom Quixote lê o mundo para demonstrar os livros. E não concede a si outras provas senão o espelhamento das semelhanças.

Seu caminho todo é uma busca das similitudes: as menores analogias são solicitadas como signos adormecidos que cumprisse despertar para que se pusessem de novo a falar. Os rebanhos, as criadas, as estalagens tornam a ser a linguagem dos livros, na medida imperceptível em que se assemelham aos castelos, às damas e aos exércitos. Semelhança sempre frustrada, que transforma a prova buscada em irrisão e deixa indefinidamente vazia a palavra dos livros. Mas a própria não-similitude tem seu modelo que ela imita servilmente: encontra-o na metamorfose dos encantadores. De sorte que todos os indícios da não-semelhança, todos os signos que mostram que os textos escritos não dizem a verdade assemelham-se a esse jogo de enfeitiçamento que introduz, por ardil, a diferença no indubitável da similitude. E, como essa magia foi prevista e descrita nos livros, a diferença ilusória que ela introduz nunca será mais que uma similitude encantada. Um signo suplementar, portanto, de que os signos realmente se assemelham à verdade.

Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, pp. 61-62.

O Quixote de Foucault é um herói deslocado. Vive em um mundo que não é o dele, preso a uma época anterior. Sua aventura tem como objetivo - fracassado - provar que o mundo ao qual ele pertence ainda existe.

Esse mundo de Quixote ficou para trás. Era o mundo da semelhança entre as coisas, no qual as palavras eram também elas coisas no meio das outras, relacionando-se entre si pelas formas da semelhança. Foucault escolhe quatro dessas formas: convenientia, aemulatio, analogia e simpatia. Ali, as palavras e as coisas encontravam-se no mesmo nível, e a linguagem era como uma ciência da natureza. Este não era o mundo do sentido, e a pergunta sobre os significados era ali completamente estéril. A palavra ligava-se ao que ela dizia pela semelhança, como todo o resto. Era um saber simultaneamente pobre e infinito: "Colocando a semelhança (ao mesmo tempo terceira potência e poder único, pois que habita do mesmo modo a marca e o conteúdo) como nexo entre o signo e o que ele indica, o saber do século XVI condenou-se a só conhecer sempre a mesma coisa, mas a conhecê-la apenas ao termo jamais atingido de um percurso indefinido" (p. 47). Daí a necessidade de imaginar um microcosmo como limite ao que pode ser conhecido. "A natureza fecha-se sobre si mesma."

Mas a chegada da Idade Clássica vai transformar este mundo, e o ser da linguagem vai desaparecer (para depois ser reencontrado com a literatura). "As coisas e as palavras vão separar-se. O olho será destinado a ver e somente a ver; o ouvido somente a ouvir. O discurso terá realmente por tarefa dize o que é, mas não será nada mais que o que ele diz" (p. 59). É a chegada dessa época que Quixote marca. E este é seu lado patético, a sua procura pela semelhança. Sua incapacidade de ver que o mundo é outro, que as palavras não são mais coisas, é que o faz ver "castelos, damas e exércitos" onde só há "estalagens, criadas e rebanhos". Não podendo mais ler o livro do mundo, é obrigado a ver no mundo aquilo que o livro diz.

A verdade dos signos agora é uma pergunta a ser feita. Como eles podem indicar aquilo que representam? O que liga as palavras às coisas? Não é mais possível responder pela semelhança, pois a palavra desligou-se do mundo dos seres. A linguagem agora gravita num mundo à parte, num mundo que é só dela: o mundo do sentido. É este o mundo no qual Quixote está deslocado, pois a ele não pertence.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Segunda-feira ao sol


(Este post contém informações sobre a narrativa do filme. Se você ainda não viu e não quer saber como o filme se desenvolve, não leia!!!).

Para quem trabalha com o tema do desemprego, alguns filmes são quase obrigatórios. Segunda-feira ao sol (Los Lunes al Sol: 2002), certamente é um deles. E um dos mais delicados, a despeito da dureza das situações que são mostradas.

O filme se concentra sobre o cotidiano de seis ex-trabalhadores da indústria naval e começa apresentando um evento decisivo para a sorte de todos eles: episódios de greves e conflitos trabalhistas por ocasião dos esforços da indústria para flexibilizar as relações de trabalho, sob a ameaça de fechamento das portas. O contexto é o da reestruturação produtiva e da intensificação da agenda da competitividade entre nações, além do deslocamento dos investimentos de longo prazo em atividades produtivas para investimentos de retorno mais rápido, como a especulação imobiliária: ainda que os trabalhadores, por ocasião da ameaça de demissão, tenham assinado acordos em que abriam mão de seus direitos, menos de dois anos depois foram todos demitidos de qualquer maneira, pois a empresa fechou as portas e vendeu o terreno para a construção de hotéis e condomínios à beira-mar.

O que há de mais sensível no filme é a empatia com os dramas das personagens. Ainda que haja um contexto de transformações econômicas, elas não são imediatamente transpostas à vida dos indivíduos, nem do ponto de vista de um discurso articulado de resistência (como acontece, de certa forma, no documentário de Michael Moore, Roger & Eu: 1989, em que há uma espécie de indignação moral e militante que, inclusive, dificulta a compreensão dos mecanismos e dos efeitos das mudanças), nem do ponto de vista da inelutabilidade do destino, como se os efeitos das mudanças econômicas simplesmente se desdobrassem em efeitos sociais. O filme consegue captar os esforços dos indivíduos em dar sentido às transformações, sem no entanto deixar de reconhecer a violenta desqualificação (se quisermos falar como Serge Paugam) ou desfiliação (se preferirmos o termo de Robert Castel) experimentada pelas personagens.

Ele está falando, certamente, de um universo muito específico: a de homens, operários, cuja qualificação se fez no trabalho, e que são lançados de volta a um mercado de trabalho que não tem lugar para eles. Ainda que alguns procurem encontrar um novo posto de trabalho - um se emprega como chefe de segurança em um estádio, outro segue procurando trabalho sem nem mesmo conseguir compreender pelos anúncios do que se trata e um deles abre um bar, onde todos se encontram quase diariamente - há degradação de posição ocupacional, de rendimentos, de lugar social enfim.

Quanto aos outros, circulam restritamente pela cidade, sem ter nenhuma cotidianidade que lhes organize o uso do tempo e do espaço. Santa, personagem de Javier Bardem, é o mais resistente às novas formas de integração, e justamente é aquele que enuncia em diferentes momentos a pergunta que é chave para a compreensão do não-lugar social em que se encontram: "Que dia (da semana) é hoje"?. Sem uma integração em formas de sociabilidade reconhecida, o que pode dar sentido à passagem do tempo? Ainda, o que pode dar sentido à vida?

A instabilidade do lugar social resulta em diversas outras instabilidades: familiar, de recursos, financeiros, da saúde. O questionamento do papel de homem-provedor traz conflitos e tensões de difícil conciliação.

A situação de José é ilustrativa a este respeito. Desempregado há mais de quatro anos, é sua esposa quem passa a trabalhar, em um emprego tipicamente feminino: temporário, intenso (o que lhe traz problemas de saúde), pouco qualificado, e mal pago. A distância entre ambos cresce ao longo de todo o filme.

O reencontro só ocorre no final, quando Ana (a esposa) pergunta sobre o que aconteceu a Amador e chora enquanto ouve as respostas; só então é que parece se dar conta de que as dificuldades que enfrenta junto ao marido não são apenas do casal, mas resultam das tensões da instabilidade e da degradação moral a que muitas pessoas são submetidas. Seu choro revela também uma espécie de súbita compreensão das próprias vulnerabilidades: aconteceu com Amador, mas poderia estar acontecendo também com José e com ela. É a situação comum àqueles que não têm nada a não ser seu trabalho.

Uma das cenas mais provocantes ocorre no espaço do bar, quando se inicia uma discussão entre os que trabalham e aqueles que não trabalham, sendo mantidos pelos recursos de proteção social. Santa então recupera a história que desembocou no fechamento da empresa e na demissão coletiva, lembrando que a greve visava a manutenção dos postos de trabalhos de todos, e que foi um momento importante quando todos - efetivos e temporários - estavam juntos, do mesmo lado. Criticando, ainda que compreendendo, os colegas que assinaram o acordo e ganharam uma indenização, Santa mostra como eles estavam assinando uma espécie de sentença de morte para si mesmos e para as futuras gerações - não tinham mais idade para voltar ao mercado e, ainda, extinguiam os postos que poderiam empregar seus filhos.

As crises, os interesses, as táticas que provocaram a cisão da solidariedade de classe - ao menos da classe profissional dos trabalhadores de estaleiros - agora mostravam seus efeitos mais distantes: ameaçavam também a solidariedade impessoal entre cidadãos de um mesmo país. A observação final de Santa é de que são todos como irmãos siameses: iguais; de certa maneira, a despeito das diferenças e das novas clivagens, estão todos no mesmo barco - igualmente.

É significativo que eles passem parte do filme em uma balsa chamada Lady España: metáfora precisa de uma sociabilidade à deriva, de um país que transita entre margens pouco definidas ou definitivas. Articulada à falta de conexão das personagens com o tempo da rotina e da produção, é também metáfora de um tempo mítico, ficcional como as histórias inventadas por Santa, em que apesar de haver lugar para o humor e o riso, não parece haver lugar para a esperança: aprisionamento em um presente sempre igual, que não se distingue nem mesmo pelos nomes que damos para nos localizar no interior dos ritmos cíclicos da semana, do mês e dos anos.

O filme, desse modo, registra de maneira pungente, dolorosa e inteligente um momento de uma espécie de aporia histórica, que só lentamente talvez sejamos capazes de ultrapassar.

Imagem: http://altacultura.wordpress.com/2009/05/28/segunda-feira-ao-sol/

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Da série: vai trabalhar, vagabundo - a pérola de hoje

A PEC (Proposta de Emenda Constitucional 231, de 1995, de autoria do Deputado Inácio Arruda) está em fase de debates na Câmara dos Deputados. Ela propõe, basicamente, alteração do artigo da Constituição que trata da duração da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. (Se alguém tiver curiosidade em ver a tramitação (14 anos!), pareceres etc. Clique aqui para ir ao site da Câmara).

Hoje, a Câmara está trabalhando (!) ouvindo a posição de sindicalistas (a favor da redução), empresários (contra) e especialistas de cada lado (especialistas também tem lado, sim senhor, ora), e argumentos de parlamentares.

Estava ouvindo no carro na rádio CBN uma reportagem sobre a referida proposta, e ainda bem que estava parado, pois o que ouvi é de dar um susto de perder o controle e provocar um acidente.

Para se contrapor ao argumento que o trabalhador pode utilizar o tempo livre para seu aprimoramento e/ou para seu lazer, o Deputado do PTB de São Paulo Nélson Marquezelli ganha disparado o Troféu Capitão do Mato 2009. Disse o nobre deputado (confira no player abaixo ou no site da CBN, aos 2m40s):

- "Se você reduzir a carga horária, o que vai fazer o trabalhador? Eles dizem, vai para casa, para ter lazer. Eu digo: vai pro buteco, beber álcool. Vai pro jogo. Não vai pra casa. Então veja bem, aí é que está o mal. O mal está nele gastar o tempo no que ele quiser, se [ao contrário] podemos deixá-lo produzindo para a sociedade brasileira..."





Não é uma obraprima de síntese moralista, preconceituosa, autoritária e mal intencionada? Trabalhador é, na cabeça do nobre deputado Marquezeli, o sujeito que:

a) não pode ter liberdade, pois o trabalhador é uma besta 'portadora de necessidades especiais' que não sabe nem o que fazer no seu tempo livre; alguém (quem, nobre Deputado? Vossa Senhoria?) tem que determinar o que ele tem que fazer (trabalhar mais, na marra, se supõe);
b) trabalhadores são todos bêbados;
c) trabalhadores gostam de uma jogatina (faltou dizer que gostam de fornicar...);
d) tempo livre é do Mal. Diabólico. Do Capeta. Obra do Tinhoso. Do Coisa Ruim. Logo, quem usa livremente o tempo livre tem mais é que queimar no interno. Torquemada, ops, Marquezeli vai salvar sua alma do Diabo, nem que seja na marra;
e) trabalhador não liga pra família;
f) trabalhador tem mais é que ficar ralando sem descanso, e agradecer porque senão ele vai fazer besteira. E ficar contente com o saláriozinho que ganha...;
g) todos que defendem os direitos do trabalhador, por associação, são preguiçosos bêbados fornicadores jogatineiros maus brasileiros parceiros de Satã...

Experimente, na fala transcrita do nobre deputado ai em cima, trocar "...reduzir a carga horária"..., bem na primeira frase, por "acabar com a escravidão".

Bem vindo ao Brasil de 1888!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Belchior sumiu. Não é problema nosso.

Matéria do Fantástico de 23 de agosto diz que Belchior sumiu. Largou família, carreira, amigos, propriedades... sua última aparição registrada foi em Brasília, em abril passado, dando uma canja em um show do Tom Zé.
A primeira vez que ouvi falar de Belchior foi há muito tempo, como todo mundo, através de Elis Regina. Outro dia mesmo, numa banca de jornal, ouvi Elis cantando que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais... e fiquei o dia inteiro com a música grudada no ouvido, tendo palpitações e 'palpitamentos' sobre essa frase, sobre Elis e sobre Belchior.
A tal matéria do Fantástico procura amigos, parentes, vai a lugares que Belchior frequentava, constrói o mistério levantando aquelas questões mais ou menos previsíveis - estaria ele com problemas familiares? financeiros? queria mudar de vida? começar outro projeto? Onde está Wally? Vamos às hipóteses mais simples: Belchior sumiu porque quis. Quis cortar seus laços, por alguma razão, e mergulhar no anonimato. É um direito dele, acho, embora se fosse um parente meu é claro que iria ficar aflitíssimo.
O anonimato é uma característica central da modernidade. O surgimento do sujeito moderno, trabalhador livre, relativizado de papéis pré-determinados pela religião, família, nacionalidade, e mesmo classes, gênero e 'raça', e ao mesmo tempo, indivíduo que racionalmente pode e deve construir sua própria biografia, é uma construção histórica articulada com o desenvolvimento das sociedades democráticas e de 'livre-mercado', com a metropolização da existência, com a tal 'sociedade de massas' e, paradoxalmente, com o culto à personalidade (aviso de simplificação temerária!). O anonimato, do indivíduo sem nome, indistinto de tantos outros, da existência massificada e administrada, também é possibilidade de uma certa liberdade de pensamento e ação ao indivíduo. O anonimato possibilitaria o exercício da escolha política individual mas também a possibilidade da 'coletivização' de vontades e de oposição aos poderes e costumes estabelecidos (inclusive a favor do lado negro da Força, lembremos); o anonimato possibilitaria algum conforto e escape do peso das condições herdadas, de erros e histórias pessoais, de 'apagamento' do passado, mas também a clandestinidade necessária aos vícios - e a algumas virtudes. A internet embaralha e potencializa o anonimato - isso já é assunto para outro post, porém.
Belchior agora parece ter um problemão. A Globo lançou uma caçada ao Belchior. A mais poderosa empresa de comunicação do lado de baixo do Equador, que abertamente ameaça presidentes, fez da Xuxa uma celebridade, e pode esmagar a reputação da Madre Teresa, quer saber onde está Belchior. Mas, aí é que está: Belchior deseja ser achado? Belchior precisa ser achado? É certo procurar o Belchior? Belchior não cometeu, ao que se sabe, nenhum crime. Seu único problema parece ser sua fama. É esquisito que um cara bem sucedido queira largar tudo e dar um sumiço? Sem dúvida, mas além dos seus próximos, esse ato não prejudica ninguém. Talvez seja uma expressão de lucidez, e não de loucura. Um jornalista talvez faça uma argumentação pela linha da 'figura pública', satisfação do interesse coletivo, sei lá, mas eu acho que a mensagem que deve ser dada, o mais claramente possível, é:

- Deixem o Belchior em paz. Não o procurem. Não há motivo para forçar que ele apareça para as câmeras. Se você souber dele, não o dedure.

Se você sente falta do Belchior, ouça suas músicas, veja seus clipes, lembre do seu bigodão.

(...)

Não me peça que eu lhe faça
Uma canção como se deve
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém...

Mas não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente
Quer dizer!
A vida é muito pior...

(...)

Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é sagrado
Nada, nada é misterioso, não...

(trechos de Apenas um rapaz latino-americano, de Belchior)

sábado, 22 de agosto de 2009

Figurações de Agosto

Há muito tempo, o Mauricio me sugeriu que foi em suas crônicas que Caio Fernando Abreu foi desenvolvendo Agosto como experiência: a experiência dolorida de estar mergulhado em desconforto, melancolia e não-pertencimento. Para além de ser uma mistura de sensações, Agosto é também um tempo, um período, uma fase; algo diferente, portanto, de qualquer tristezinha que por vezes nos acomete.

Acredito que de fato seja nas crônicas – este espaço solto de observação e registro de fatos cotidianos – que o Caio foi desenvolvendo Agosto como uma figura em torno da qual se articulam diversas experiências, semelhantes no que se refere ao tema da paralisia e do aprisionamento.

Tomemos, por exemplo, a crônica Agostos por Dentro, em que Caio se refere a um fato aparentemente banal, que é estar na praia, no Rio de Janeiro, perto do meio-dia. O que era ao mesmo tempo banal e perfeito, no entanto, quebra-se repentinamente a despeito do esforço do autor de permanecer ali – isto é, de preservar um momento de plenitude – devido à súbita percepção de não fazer parte de tudo aquilo. O autor é arrancado de um momento de mergulho intenso no presente, violentamente posto à parte: ele retorna ao hotel, cujas amplas janelas de frente para o mar agora se tornam jaulas, e não consegue mais escapar da sensação de estar à margem da vida (ainda que realize algumas ações como beber alguma coisa, ligar para alguém, assistir TV).

Agosto por dentro, nessa crônica, aparece como a consciência abrupta e dolorosa que não permite que se tome parte no fluxo da vida: é o que arranca o indivíduo do cotidiano e o coloca em uma outra temporalidade, suspensa, à parte.

Em Sugestões para atravessar Agosto, Caio continua tateando os significados de Agosto, mesmo que numa crônica dedicada a apresentar formas de escapar a esta experiência. Cuidadosamente, ele mostra como não adianta tentar superar Agosto, compreendendo-o ou acelerando-o: Agosto é um tempo, mas também uma condição e por isso o jeito é atravessá-lo, passar por ele, transpô-lo em sua inescapabilidade. À paralisia de Agosto é necessário contrapôr um movimento que é o de simplesmente continuar, seguindo o fluxo cotidiano ainda que não se tome parte nele.

O jeito é tentar fazer a travessia da maneira mais macia e suave possível, pela superfície de Agosto, sem mergulhos em suas profundidades. Não adianta fazer qualquer coisa: como Agosto é quando as chaves simplesmente se trancam por dentro, é preciso respeitar o tempo necessário para que elas destravem, sozinhas. Agosto é cíclico, tanto quanto as estações, o dia e a noite, a lua ou as marés: é fenômeno quase natural (mesmo que também seja cultural e econômico), faz parte de estar vivo.

Nessas duas crônicas, então, temos uma experiência que é a da violenta retirada do indivíduo do fluxo da vida cotidiana e o aprisionamento no lugar-tempo dessa consciência dolorosa de não-pertencer.

Como a ideia é atravessar Agosto, Setembro aparecerá como o horizonte da travessia completada. Em Quando setembro vier, crônica que responde aos comentários dos leitores de que suas crônicas andavam muito tristinhas, Setembro é a fantasia de facilidades, alívios e reencontro.

Mas é interessante notar que, antes mesmo dessas crônicas publicadas em agosto de 1995, Caio escrevera um conto – publicado posteriormente em Ovelhas Negras (São Paulo: L&PM, 2002) – chamado Depois de agosto. Agosto, nesse conto, é um momento-quando. Após a personagem receber o diagnóstico da AIDS, Agosto é a partir de quando se torna tarde demais para qualquer coisa:

Naquela manhã de agosto, era tarde demais. Foi a primeira coisa que ele pensou ao cruzar os portões do hospital apoiado náufrago nos ombros dos dois amigos. […] Riram os três, um pouco sem graça, porque a partir daquela manhã de agosto, embora os três e todos os outros que já sabiam ou viriam a saber, pois ele tinha o orgulho de nada esconder, tentassem suaves disfarçar, todos sabiam que ele sabia que tinha ficado tarde demais. Para a alegria, repetia, a saúde, a própria vida. Sobretudo para o amor, suspirava” (p. 225).

Agosto é o momento-quando, mas também continuidade, porque a partir dali, sempre haverá agosto-por-dentro, a espada-sobre-a-cabeça, a guilhotina-sobre-o-pescoço: agosto é maldição e condenação, é a permanente consciência da própria mortalidade.

E talvez, nesse conto, haja outros elementos para a compreensão dos significados dessa experiência que, na literatura do Caio, chama-se Agosto, pois aqui aparece fortemente a relação entre ter agosto por dentro e carregar um vírus fatal, entre continuar vivendo e flutuar sobre a vida (porque ficou tarde demais para qualquer intensidade, sobretudo as intensidades e ilusões de eternidade do amor), entre ser empurrado pelo fluxo dos dias e estar aprisionado num momento-quando tudo muda irremediavelmente.

Nesse conto, porém, que é bastante otimista, embora a personagem procure distrair Agosto com suas viagens, a travessia de Agosto só se faz quando a intensidade de um encontro reinsere movimento à vida da personagem. Primeiro, um movimento de fuga; depois, um movimento de mergulho naquele Outro que é igualmente portador de Agosto.

Agosto fala, portanto, desses movimentos de aproximação e repulsão à ideia da morte; dessa paralisia que por vezes nos acomete quando nos damos conta de que o mundo, sem nossa presença, continuaria a girar; dessa angústia que é bastante humana (e moderna) da finitude de uma vida que poderia ser indefinidamente vivida – pois como ensinou M. Weber, o homem moderno pode se sentir cheio da vida, mas não pleno dela.

Agosto é experiência dura, dolorosa, mas passageira (mesmo quando duradoura): há que se manter o olho em atravessá-lo, manter o foco na possibilidade de escapar à paralisia e reingressar no movimento do tempo, retomar as infinitas possibilidades que a ilusão de que vamos viver o suficiente nos dá – haverá tempo, haverá encontro, haverá continuidade, haverá Setembro e Primavera.

Pra terminar, um pedacinho de uma música do Wisnik que sempre me vêm ao corpo quando penso em Depois de agosto:

A primavera é quando ninguém mais espera/ E desespera tudo em flor/ A primavera é quando ninguém acredita/ E ressuscita por amor”.

(José Miguel Wisnik).


Imagem: www.gettyimages.com.br

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Guitarras elétricas são coisas de velho

É muito comum ver adolescentes radiantes, travados de felicidade, explodindo de expectativa, bem perto de onde trabalho. Aqui do lado tem uma verdadeira APL (Arranjo Produtivo Local) de lojas de instrumentos musicais, especialmente instrumentos de rock, e a rapaziada feliz está, invariavelmente, comprando suas primeiras guitarras. Alguns deles são tão novos que estão acompanhados de suas mães e respectivos cartões de crédito, algumas mostrando sinais de contrariedade. Já há 60 anos que praticamente todo jovem urbano do planeta sonha, em algum momento, em ser uma estrela do rock, especialmente um herói da guitarra.
No dia 12 de agosto morreu Les Paul, aos 94, músico e talvez o mais importante dos inventores da guitarra elétrica (parece haver controvérsia sobre quem é o 'pai' da guitarra elétrica, se Les Paul, Leo Fender, A. Rickenbacker ou o baiano Osmar, aquele mesmo do Dodô&Osmar, pai do Armandinho e co-inventor do trio elétrico). Pesquisar um pouco sobre a invenção do instrumento é bastante instrutivo para os interessados em inovação, entre outros. Aparentemente, por volta dos anos 1930, já existiam nos EUA fabricantes de instrumentos 'eletrificados', cada um deles trazendo algum tipo de novidade. Vou tomar como verdadeira uma tese de um amigo meu, músico amador: o motivo da invenção da guitarra elétrica foi ... a bateria. As baterias adotadas pelos pequenos grupos musicais, como bandas de jazz, na entrada do século XX, são bastante como as atuais: produzem um volume muito alto no seu som, abafando outros instrumentos, notadamente os de corda, em ambientes relativamente pequenos. Uma série de invenções (amplificadores, microfones e alto-falantes, em especial) foram respondendo às necessidades, criando novas oportunidades, aperfeiçoamentos, e assim por diante, muito esquematicamente, alterando as experiências de artistas, técnicos e do público. Nesse contexto, aqui bem porcamente delineado, os guitarristas estavam tentando se manter relevantes, e se adaptar às demandas, digamos, da profissão e do mercado, aumentando 'eletricamente' o volume dos seus instrumentos. Na época de Les Paul, entretanto, amplificação parece que já não era tanto o problema. Guitarristas perseguiam algo mais. Pelo que eu entendi, Les Paul inovou utilizando um corpo sólido para a guitarra (parece que também Osmar assim fez o 'pau elétrico'), e utilizando não um microfone, mas uma 'pick-up' de vitrola adaptada, inventou o captador, responsável por traduzir as vibrações das cordas em sinais elétricos (pelo que entendi, o captador está para a guitarra elétrica como o corpo está para a acústica).
Aí é que está, me parece, o importante da coisa, à parte a questão de quem foi o real inventor: ao dispensar ao máximo o som 'puramente' acústico (erhh, todo som é acústico, né...), o resultado foi um novo timbre, nunca antes ouvido, uma sonoridade que não tem existência significativa 'fora da tomada' e que do timbre da guitarra/violão acústico tem pouco mais que reminiscência. Mais de Les Paul: ele inventou a gravação multicanal, e foi artística e comercialmente muito bem sucedido por suas invenções, primordiais para o desenvolvimento da música e da técnica de gravação (procure no Youtube). Les Paul teve também sensibilidade para adequar a inovação ao seu contexto. Seu primeiro instrumento elétrico assustou não quem o ouviu, mas quem o viu (um pedaço de madeira com braço de guitarra). Então, Les Paul adotou adereços para o corpo sólido da sua primeira guitarra num formato mais familiar, com a formas e curvas do instrumento acústico, e que não tinham nenhuma função a não ser fazer reconhecivel o novo instrumento. Na década de 50, Les Paul e a fabricante de guitarras Gibson lançaram a lendária Gibson Les Paul - que ainda é um sonho de consumo dos adolescentes (e marmanjos) já citados.
O novo instrumento abriu novas perspectivas artísticas por permitir 'modular' (e ineditamente, sustentar) notas, acordes, harmônicos, volume e outros parâmetros do som - ou seja, tocar - diretamente o sinal eletrônico. A guitarra elétrica permitiu que os músicos ampliassem a experiência musical até limites inatingíveis, inimagináveis sem o uso da eletricidade e eletrônica. A guitarra elétrica pode ser vista como uma 'máquina', multiplicadora, sofisticante e transformadora do ato de tocar (guitarra, pelo menos). E isso é tudo que eu sei sobre 'a' guitarra.
Na primeira metade do século XX as transformações sociais (como a urbanização) e o surgimento de inovações técnicas de todo tipo já eram extraordinárias. A 'eletrificação' da informação - música também - pode ter antecipado algo como a atual 'digitalização'. Estamos falando de telégrafo, rádio, telefone, cinema, mas também de iluminação e energia para a produção, entre outros processos que sustentam esses novos suportes de informação. A guitarra elétrica não seria nem a primeira e nem a mais importante, mas talvez a mais exemplar máquina de gerar informação diretamente no 'mundo eletrificado' acessível às massas. Em meados dos anos 1950 a guitarra elétrica propiciava o surgimento do que viria a ser o rock, primeiro gênero musical 'eletrificado', que transcendeu seu aspecto musical para o de um fenômeno cultural graças a jovens que tinham esse 'mundo eletrificado' quase como uma segunda natureza, que dominavam e redefiniram seus códigos e co-produziram o ambiente contestatório pelo qual os anos 1960 são lembrados (veja-se a celebração de 40 anos de Woodstock, ou a oposição ao uso de guitarras elétricas na música brasileira 'legítima', acho que pouco antes). Da música com instrumentos sem amplificação para instrumentos com volume amplificados altera-se apenas o volume. Para a música tocada e indissociável da eletricidade (ou seja, do modo mais moderno, 'industrial') o que se teve foi toda a revolução da produção e da experiência cultural.
Para ficarmos apenas nas guitarras, parece haver agora um desenvolvimento da guitarra como 'máquina digital', que o leitor já adivinhou ser o de games da série Guitar Hero e semelhantes. Tais games permitem que qualquer um brinque de estrela do rock, simulando os solos e riffs de seus roqueiros favoritos numa guitarra de brinquedo. Há os que falam em 'nova maneira de consumir música', como simulação e como entretenimento, mas não se sabe onde isso poderia levar. A criação de muito, muito mais músicos, talvez. Os DJ's, com seus 'samplers' (trechos de músicas e instrumentos colados para formar outras músicas) mesmo que com pouca ou nenhuma habilidade de instrumentistas, teriam sido uma espécie de estágio intermediário.
Atualmente, onde o banquinho-e-violão está integrado com o Youtube e o reacionarismo talibã ou sarahpalinesco está tão confortável na internet quanto a pornografia, onde novos processos dominantes na esfera cultural não simplesmente cancelam os anteriores (pós-modernismo, blábláblá...), será que ainda podemos levantar a questão da contestação criativa... ou não? A contestação rock'n'roll (tipo 'Eric Clapton é Deus', célebre pichação nos muros de Paris das barricadas de 1968) feita de volume e distorção e cuja parte da graça estava na provocação intergeracional, tirando alguns dignos continuadores, parece ter sido abduzida. Rock'n'roll agora é coisa 'de velho'. Bem família. Moleques estão herdando guitarras que foram de seus pais e avôs. E tocam e gostam das mesmas músicas. A Juno do filme só gostava de velharias. Programa da terceira idade é ir no show do Iron Maiden e Deep Purple. Evangélicos são heavy metal. Estrelas do rock acham que o máximo da rebeldia é quebrar quartos de hotel. E tem até os Emos!!! ...
Meu palpitezinho, pra encerrar esse post comprido e sem noção, motivado, sei lá, pelo meu gosto ao bom (velho ou novo) rock, é só pra pontuar que a contestação, por mais domesticada e descaracterizada, por mais que a sua criatividade ter sido agora tornada 'força produtiva', talvez esteja ainda nos lugares de sempre (na exploração do trabalho, na concentração da propriedade etc.) mas também na moçada, às voltas com seus games, que está descobrindo como digitalizar a revolta à la pós cyberpunks - ou como, pelo menos, (fingir) fazer um roquinho bem honesto.
*(hoje, 21 de agosto, é aniversário de 20 anos da morte de Raul Seixas, grande figura e gigante roqueiro)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Gran Torino, piccolo ritrato

Gran Torino (2008)
Alerta de spoilers!
Noutro post eu falei de passagem sobre o 'sensei improvável'. Esse personagem recorrente, quase arquetípico, é exemplificado, por exemplo, no Sr. Miyagi ensinando Daniel-San (série Karate Kid), no John Wayne de 'The Cowboys' (não sei o nome brasileiro), no Mestre do Gafanhoto de 'Kung Fu', no Yoda e Obi-wan Kenobi para Luke use-the-force Skywalker, na Sarah 'Terminator' Connor, no Gecko de 'Wall Street'... Em Gran Torino, que recém saiu em DVD, Clint Eastwood é o sensei bastante improvável do seu jovem vizinho 'asiático' - e do pastor Janovich, também, em outro registro. O personagem de Eastwood, Walt Kowalski, é um velhinho recém viuvo, ex-operário e ex-soldado, que constrói meticulosamente sua solidão, mantendo à distância filhos, vizinhos e o pobre pastor Janovich. Se você ainda não sabe, Gran Torino é um carro da Ford dos anos 1970, antes desse filme notado apenas pelos aficcionados em carros clássicos e pelos fãs da telesérie 'Starsky e Hutch' - está lá para marcar os anos bons de Walt. Por uma série de circunstâncias, Walt irá adotar Thao, e lhe ensinar os macetes, o pulo-do-gato. E Walt é um mestre Jedi na venerável arte do insulto. Faixa preta em mal-humor. Ninja imbatível em falar-entre-os-dentes com os cantos da boca. Mas, o carro relíquia reluzente tá lá mostrando, Walt é zeloso, detesta serviço mal feito, e para garantir, prefere ele mesmo fazer o serviço. O personagem seria, então, um cara 'autêntico' até a chatice: americano daqueles que odeia carro japonês a ponto de renegar seu filho toyoteiro, operário de chão de fábrica casca-grossa mas orgulhoso, soldado de infantaria que não vacilou na Coréia e, portanto, amarga sua nova vizinhança vietnamita, marido exemplar por décadas e que não esconde sua revolta com Deus pela perda de sua amada.
Lá pelo meio do filme, Walt leva Thao para um curso rápido de insultos com outro grão mestre do duelo verbal - seu barbeiro Martin. Como bom e típico aprendiz, Thao não vê sentido na lição que Walt quer que ele aprenda - assim como adolescentes choramingam diante da lição de logaritmos - mas entenderá logo depois, quando o rapaz vai fazer uma nada exemplar entrevista de emprego. Levada ao pé-da-tela, parece que é quase uma sequência de alívio cômico. Mas acho que há um articulação um pouco mais complicada e mais sutil. Walt ensina Thao como se virar 'como homem', sinônino aí de 'como americano'. Essa viração, entretanto, nega a aparente cascagrossice inabalável de Walt. Thao aprende que um insulto pode ser um elogio, um xingamento quase uma cantada, uma mentira pode ser mentira mas também gentileza simpática, e, vá lá, que 'os brutos também amam', isto é, ser durão é necessário, e verdadeiro, não blefe, e que ainda assim ele pode gostar de alguém e alguém vai gostar dele. O menino se torna homem (e americano) quando fluente na hipocrisia socialmente necessária, no jogo de contradições entre aparência e conteúdo, para ser aceito pelo grupo (ao aderir tacitamente ao seu repertório fundamental de valores). Senão, não sairá do gueto, da primariedade da gangue juvenil. A tese parece ser: se você aprender a usar a violência como nós usamos, isto é, se você se civilizar como nós, então benvindo à partilha do melhor dessa civilização. Sobre isso, esse americanocentrismo, talvez se deva a irritação de muitos com o filme e Eastwood. Nós, aqui, no Brasil, com o 'jeitinho brasileiro', nunca faríamos dessa maneira, não é? Tanto lá como cá, na porrada ou no jeitinho, parece que se trata da construção social do indivíduo: sujeito, autonomo, político, capaz de relativizar família e religião, mas que vê essa capacidade de auto afirmação se erodindo pelo fim, entre outras coisas, da esfera do trabalho tal como era quando se fabricavam gran torinos aos milhares.
(Spoiler alerta máximo!)
No fim, Walt fará seu sacrifício (autocrítico?) - será o durão de sempre, mas nesse caso como blefe. No último ato de maestria, com o qual Clint Eastwood se aposenta como ator, o personagem Walt irá jogar com os 'meninos' da gangue, que por serem meninos só sabem da violência seu aspecto cru e intimidador, e com os agora não tão meninos Thao e Janovich. Até aí, Walt recusará a ajuda oferecida pelo pastor Janovich. Este só se dará conta, só entenderá Walt, quando não puder fazer nada. Walt fez seu último serviço de modo impecável, e para tanto, basta ser suficientemente bom nas coisas mais triviais; não foi necessário ser assim nenhum Dirty Harry. Perto de Walt, Dirty Harry é só um menino.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Vida ou morte (1)


Um dia desses, liguei a TV e estava passando o episódio piloto da série House. Para quem não conhece, a série é sobre um médico, significativamente um infectologista, que é ao mesmo tempo genial e misantropo. Em grande medida, sua genialidade provém de sua falta de empatia com os pacientes, o que lhe permite pensá-los puramente como corpos doentes - sendo a doença o mistério que é necessário desvendar, não por cuidado com a vida, mas quase por prazer.

O episódio piloto é sobre uma mulher, professora de educação infantil, que cai doente sem nenhum motivo aparente. Eles passam então a testá-la e tratá-la para uma série de doenças diferentes, em exames muitas vezes dolorosos e invasivos. E ineficientes...

A uma certa altura, cansada e sem mais esperanças, a paciente pede para ir para casa, para poder morrer entre os seus. Nesse exato momento, porém, House finalmente organiza todos sintomas em torno de uma doença conhecida e tratável e vai pedir a ela para fazer um último exame. De um lado, a paciente, cansada e descrente das maravilhas científicas e médicas; de outro, House estimulando-a a não desistir, pois o exame é simples e a doença, se confirmada, de fácil tratamento.

A paciente ainda argumenta que está farta de tratamentos; que seu único desejo é ir para casa, para morrer com dignidade. E então House fica muito bravo, dizendo que é impossível morrer com dignidade: em suas palavras, a morte nunca poderia ser digna, na medida em que é o último ponto da indignidade de estarmos presos a um corpo falível (vale notar que ele diz isso referindo-se também a si mesmo, já que sofre com as sequelas de um AVC na perna que quase lhe matou).

House é uma espécie de herói, respeitado apesar de seus defeitos porque fiel à razão, à ciência e ao pensamento médico. Sua fala no epidódio piloto dá o tom de sua posição: entre a morte e a vida, há que sempre se preferir a vida. O limite é a morte, e não a preservação da integridade (moral ou física) dos pacientes. Entre a morte e os procedimentos, mesmo que arriscados ou invasivos ou doloridos ou pouco garantidos, não há verdadeiramente opção, porque o imperativo é a vida.

A colocação de uma fala como essa na boca de um médico, personagem principal de uma série que se passa em um hospital, é bastante significativa e ilustra com clareza uma observação feita por Michel Foucault, na aula de 17 de março de 1976 (Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Tradução: Maria Ermantina Galvão). Nessa que é uma das aulas em que o autor primeiramente tratou das relações entre um dispositivo biopolítico e a emergência de um novo objeto para as artes de governar, Foucault sugere que a privatização da morte estaria em alguma medida ligada à inversão da tarefa do poder soberano, que deixa de "fazer morrer e deixar viver" para "fazer viver e deixar morrer". Segundo sua leitura, a indignidade da morte começa aí - quando ela passa a ser o signo do fracasso do poder soberano, que pode produzir uma vida melhor, pode buscar o bem-estar, mas não pode superar o limite da morte:


Eu creio que a manifestação desse poder [biopolítico] aparece concretamente nessa famosa desqualificação progressiva da morte, na qual os sociólogos e os historiadores se debruçavam com tanta frequencia. Todo o mundo sabe, sobretudo desde certo número de estudos recentes, que a grande ritualização pública da morte desapareceu, ou em todo caso foi-se apagando, progressivamente, desde o fim do século XVII até agora. A tal ponto que, agora, a morte - deixando de ser uma daquelas cerimônias brilhantes da qual participavam os indivíduos, a família, o grupo, quase a sociedade inteira - tornou-se, ao contrário, aquilo que se esconde; ela se tornou a coisa mais privada e vergonhosa (e, no limite, é menos o sexo do que a morte que hoje é objeto do tabu). Ora, eu creio a rzão por que, de fato, a morte tornou-se assim essa coisa que se esconde não está numa espécie de deslocamento da angústia ou de modificação dos mecanismos repressivos. Está numa transformação das tecnologias de poder. O que outrora conferia brilho (e isto até o final do século XVIII) à morte, o que lhe impunha sua ritualização tão elevada, era o fato de ser a manifestação de uma passagem de um poder para outro. A morte era o momento em que se passava de um poder, que era o do soberano aqui na terra, para outro poder, que era o do soberano do além. [...] Ora, agora que o poder é cada vez menos o direito de fazer morrer e cada vez mais o direito de intervir para fazer viver, e na maneira de viver, e no 'como' da vida, a partir do momento em que, portanto, o poder intervém sobretudo nesse nível para aumentar a vida, para controlar seus acidentes, suas eventualidades, suas deficiências, daí por diante a morte, como termo da vida, é evidentemente o termo, o limite, a extremidade do poder. [...] O poder já não conhece a morte. No sentido estrito, o poder deixa a morte de lado", (p.294-6).

Momento confissão trash: no último mês, marido e eu temos assistido muitas séries, duas delas que retratam o universo médico, embora de formas distintas. Assim, assistimos a 8ª temporada de Scrubs e também a última temporada de ER. Scrubs é uma comédia com toques líricos; ER é aquela tragédia que quase todos conhecemos... Mas não deixa de ser interessante observar como são encenadas as situações de vida e de morte nesses dois espaços tão distintos.

ER, até mesmo pelo caráter das urgências que chegam, tem um ritmo inestancável: da chegada até o desfecho, o paciente será submetido a qualquer procedimento visto como necessário para lhe salvar a vida, ficando em segundo lugar as possíveis sequelas que impactam sobre a vida que será possível depois do acidente ou evento. É um festival de entubações, horas de tentativas de ressuscitação, tratamentos arriscados, cirurgias... Mas é muito interessante como a série, cujo foco é sobre os médicos e seus dramas, não deixa de retratar as ambiguidades desse modelo de atendimento. Tem imensa importância os erros médicos, as más decisões, os pequenos desencontros cujos resultados são incontroláveis. Ao mesmo tempo em que afirma a importância do saber médico, a série o relativiza, mostrando muitas das "variáveis", de curto e longo prazo, que interferem sobre a formação desse saber.

Já Scrubs é bem mais lento, dá tempo para a criação de vínculos entre médicos e paciente, de maneira que as escolhas pelos tratamentos acabam sendo escolhas de fato: decisões, tomadas em conjunto com o paciente, avaliando a especificidade daquele indivíduo. É claro que há pressão e um pouco de terrorismo (do tipo "se você não aceitar ser salvo por este medicamento ou procedimento, vai morrer"), mas bem menos do que em ER, em que salvar vidas é o imperativo absoluto.

Essas séries levam ao extremo o "fazer viver", pois é na área da saúde que morte e vida estão tão explicitamente postas como objeto de saber e intervenção. No entanto, a própria ideia de uma sociedade de bem-estar se ancora na constante produção da vida: saúde preventiva, previdência, poupança, seguros... São todas maneiras de produzir uma vida longa e boa.

A vida, nesse sentido, torna-se o cotidiano para reprodução das condições da própria vida: fazemos exercício para que nosso corpo funcione bem; comemos comida ou, melhor ainda, alimentos funcionais, para melhorar o funcionamento do nosso corpo; paramos de fumar, de beber café ou de ingerir determinados alimentos porque podem nos fazer mal ou, então, bebemos café descafeinado, leite desnatado, queijos light para que nosso prazer seja outorgado por uma espécie de "salvo conduto".

Todas essas situações fazem eco à provocação de Zizek, referindo-se à São Paulo (o santo, não à cidade...):

"[...] Na medida em que "morte" e "vida" designam para São Paulo duas posições existenciais (subjetivas), e não fatos "objetivos", é justificável que se faça a pergunta paulina: "Quem está realmente vivo hoje?.
E se somente estivermos realmente vivos se nos comprometermos com uma intensidade excessiva que nos coloca além de uma "vida nua". E se, ao nos concentrarmos na simples sobrevivência, mesmo quando é qualificada como "uma boa vida", o que realmente perdemos na vida for a própria vida? [...]
É assim um paradoxo nietzschiano o fato de o grande perdedor nessa aparente afirmação da Vida contra todas as Causas transcendentes ser a própria vida. O que torna a vida "digna de ser vivida" é o próprio excesso de vida: a consciência da existência de algo pelo que alguém se dispõe a arriscar a vida (podemos chamar esse excesso de "liberdade", "honra", "dignidade", "autonomia", etc.). [...]
A postura sobrevivencialista "pós-metafísica" dos Últimos Homens termina num espetáculo anêmico da vida a se arrastar como sombra de si mesma" ("De Homo Otarius a Homo Sacer". Bem-vindo ao deserto do real: São Paulo, Boitempo Editorial, 2003, p.108-9).

Imagem: daqui

domingo, 16 de agosto de 2009

Sugestões para atravessar agosto

Caio Fernando Abreu

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então, dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros angúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio frsca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções - úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade... Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor puder, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharin Stone, Robocop, o carteira, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível. que você possa pensar nessa amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isto é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

(Crônica publicada n' O Estado de São Paulo, agosto de 1995).

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O sorriso de Demerval


Na Introdução da minha dissertação de mestrado, brinquei com a ideia de propor uma "sociologia dos pontos de ônibus", tantas foram as conversas travadas e ouvidas nesses espaços de trânsito pela cidade. Não sei exatamente porque, mas as pessoas simplesmente chegavam perto de mim e começavam a falar, a contar pensamentos e memórias que, curiosamente, tinham muito a ver com o objeto da minha pesquisa de campo (talvez porque este objeto seja tão presente na vida cotidiana das pessoas, sendo mesmo tema comum em suas preocupações e conversas).

Um dos encontros mais marcantes neste período aconteceu num ponto de ônibus na região de Pinheiros, em 2002. Eu estava lá, esperando um ônibus que sempre demorava muito a chegar quando apareceu um homem vendendo daquelas balas de menta Garoto. Ele devia ter uns quarenta anos; era altivo e bem articulado. Eu já estava fazendo pesquisa de campo há algum tempo, e muito rapidamente percebi que havia um "deslocamento" naquele homem, no sentido de que o trabalho que estava desempenhando não condizia com sua "aparência": sua maneira de se comportar, seus gestos, seu modo de falar davam notícia de que ele era fluente em códigos culturais que sua condição atual não permitiria suspeitar.

Ao comprar algumas balas, perguntei a ele se fazia tempo que ele as vendia. E então começou uma conversa que durou pelo menos três passagens do ônibus que eu esperava...

Demerval era metalúrgico, ferramenteiro. Estava desempregado há cerca de três anos, depois que a empresa em que trabalhava havia se mudado para o interior - em busca de maiores incentivos fiscais e de trabalhadores desorganizados, sem tradição sindical, conforme a explicação que o próprio Demerval me deu. Em sua família, o pai e o irmão também eram metalúrgicos, todos formados pelo SENAI. Todos haviam sofrido as consequências da crise e das transformações produtivas, embora seu pai e seu irmão tivessem se reempregado, ganhando cerca de um terço do que recebiam em seu trabalho anterior. Entre trabalhar por menor remuneração e mudar de atividade, Demerval escolhera a última: lhe era menos degradante se virar como autônomo do que humilhar-se vendendo seu trabalho por um valor muito abaixo do que ele julgava justo.

Demerval me falou sobre cultura e identidade operária, sobre seus amigos e suas desventuras na tentativa de abrir um negócio próprio - sonho de grande parte dos trabalhadores, em especial quando recebem uma soma importante de FGTS -, sobre sua luta para pagar a pensão a sua filha pequena, sobre o sentimento de orgulho em se virar e manter-se próximo a seu nível de renda anterior... Nos cerca de quarenta minutos em que conversamos, Demerval pôde me contar sua história, sua interpretação sobre sua trajetória: ele pôde explicar, para mim e para si mesmo, o caminho que o levara até ali.

Da quarta vez em que meu ônibus passou, achei que já era hora de me despedir. Do ônibus, ao olhar para trás, vi que ele estava sorrindo. Demerval sorria, um sorriso de quem pôde ser visto e reconhecido, um sorriso de quem tivera a confirmação da própria identidade: Demerval é metalúrgico, operário qualificado, parte de uma história de desenvolvimento, lutas e mudança social. É herdeiro e perpetuador de uma tradição de trabalho, que nem as reestruturações produtivas, nem o aumento das taxas de desemprego foram capazes de fazer desaparecer. O sorriso de Demerval expressava uma história e uma memória, tão eloquente quanto as coisas que ele me contou.

Imagem: www.gettyimages.com

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Trabalho, Pobreza, Vadiagem

Em seu livro Metamorfoses da Questão Social: uma crônica do salário (Petrópolis: Editora Vozes, 1999. Tradução: Iraci D. Poleti), Robert Castel faz uma narrativa de longa duração sobre os caminhos percorridos pelas sociedades francesa e inglesa até que se conformasse esta maneira específica de compreender e oferecer respostas à questão social a que chamamos Estado de Bem-Estar (Castel, no entanto, utiliza o termo Estado social, contrapondo-se à ideia de Estado-Providência).

Ainda que ele não seja o único a tratar do tema, refiro-me a ele porque sua escolha metodológica de seguir as metamorfoses de uma problematização ("a questão social") permite apanhar de maneira eloquente várias das ambiguidades que, embora subsumidas no breve período em que crescimento econômico, legitimidade do Estado, generalização do salariado, entre outros fatores, conferiram certa estabilidade às distinções operadas por este sistema de segurança social operado pelo Estado, voltam a aparecer de modo explícito após a crise iniciada nos anos 1970.

Uma das principais distinções se refere ao estatuto conferido ao trabalho: a generalização da norma salarial foi obtida também a partir do estabelecimento de dois sistemas de proteção diferenciados: aos trabalhadores, a Previdência Social; aos pobres incapazes para o trabalho, a Assistência Social. E aos capazes para o trabalho que não trabalham, a criminalização de sua não-atividade.

Outro dia (num post de verdade, e não no que deveria ser apenas uma breve introdução a uma notícia recentemente publicada) comento mais sobre este assunto.

Comecei falando disso apenas para explicar o interesse que me provocou a notícia publicada na semana passada, sobre a atualização que o município de Assis vem fazendo da esquecida lei que pune a vadiagem. Relacionando a ação com a política de "tolerância zero" no combate ao crime, a polícia local passou a autuar indivíduos que - capazes para o trabalho e sem ter ocupação registrada - podem ser enquadrados na lei da vadiagem que permite a punição (com multa, prisão ou, conforme a lei original, envio a colônias de agrícolas e de trabalho, cf. artigo 15 da Lei de Contravenção penal).

A lei é antiga (1941), e não é difícil imaginar as complicações que sempre existiram para sua aplicação num país como o nosso, em que as fronteiras entre trabalho e não-trabalho são tão diluídas e que, por isso mesmo, comprovar ocupação é sempre uma tarefa complicada. A referência a ela no conjunto de ações de "tolerância zero" para o combate ao crime, porém, tem significados que valem a pena ser melhor compreendidos.

Para ler a notícia completa: Assis endurece ações contra crimes e aplica lei que pune vadiagem (G1, 04/08/2009).

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Explicação Necessária

Para contornar nossa adesão involuntária ao movimento de Slow Blogging, estamos reorganizando o funcionamento do Margens para garantir mais ritmo às postagens. Ainda estamos testando para ver se daremos conta de cumprir o cronograma auto-imposto, mas por enquanto, nossos planos são os seguintes:

Posts inéditos, sempre às segundas, quartas e sextas-feiras.

Clipping, às terças-feiras.

Resenhas, às quintas-feiras.

E Provocações, aos sábados, dialogando com um tema-provocação mensalmente lançado por nós.

O tema deste mês é "Agosto", não como nome que se dá aos 31 dias colocados entre julho e setembro, mas como um conceito que aparece em várias das crônicas e contos do escritor brasileiro Caio Fernando Abreu. Por isso é que começamos no domingo passado a publicar crônicas do autor, em que trata de Agosto.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Coisas que sua mãe fazia - e você não faz igual

A idéia não é fazer uma lista - se você gosta de listas, fique à vontade. Há sites que só fazem isso, tipo o listverse. Mas provavelmente a sua mãe faz várias coisas que você, por mais que tente, não consegue fazer igual. Arroz com feijão. Bolinho de bacalhau. Tirar farpa do dedão. Esse tipo de coisa, que traz memórias que não precisam ser problematizadas - ou nem tanto assim - na terapia.
Dia desses, apanhei muito de uma velha máquina de costura. Uma tarde inteira. Até pra passar a linha pela agulha. E nada da maldita fazer os pontos. Tive de desistir, com o meu orgulho de "handyman" bastante ferido. Nada de machismo, mas mães e avós tiram essas coisas de letra. Tanto que a Fabiana, sempre mais sábia, ficou de consultar mãe e avó.
Escreveria um livro sobre a 'arte zen dos reparos domésticos', se algo parecido já não existisse, como comprova o Google (Home improvement for dummies já existe também, of course). No mito do herói, ele primeiro precisa ter seu orgulho ferido, cair em desgraça, rever seus conceitos, reaprender a ser humilde, arrumar um sensei improvável, voltar a treinar como um novato... e reaprender o básico para voltar a encarar o desafio. Não, não estou me achando nem perto de ser herói, mas veja, Gafanhoto, isso é sobre o aprendizado, nada mais. Mitos quase sempre são sobre o aprendizado.
Como diz o mitológico Sun Tzu, conheça seu inimigo. Máquinas de costura - e teares, e moinhos, e impressoras... - são máquinas cuja concepção tem lá seus 200, 250 anos ou mais, e que estão na base dos ofícios primários dos primórdios da industrialização. Ou seja, são dos primeiros ofícios mecanizados pela emergência da tração a vapor - depois elétrica - que revolucionou a produção capitalista e as relações sociais. Possibilitou a emergência da indústria, e o surgimento do proletariado. Está todo lá no bom e velho Marx, livro I d'O Capital (estou escrevendo sobre Marx espremendo desavergonhadamente e bem nas coxas. Como ensina a Ana, sociologia não é fácil assim não, tem que ir lá e ralar para aprender, seja o Marx seja consertar máquinas de costura). Então, a velha máquina de costura da avó da Fabiana merece muito respeito. Começa pela história dela, que deve ser cinquentona (a máquina, não a avó da Fabiana), uma bela máquina Singer, preta, curvilínea e até hoje reluzente, e foi a primeira máquina da dona D.. E dona D. reformou e guardou a máquina com todo carinho para dar de presente pra Fabiana. Não preciso dizer o que significa a máquina para a Fabiana. Então, já temos a motivação.
Mas o diabo é que eu não sei nada sobre costurar. Não sei nem pregar um botão. Não faço idéia de como se dá um ponto. Tive de apanhar para essa singela constatação. Por outro lado, enquanto me debatia com linhas, agulhas, canelinhas, esticadores, passadores, alavanquinhas e um monte de peças que eu não sei o nome, consegui admirar a engenhosidade, a qualidade e o capricho da velha Singer, seu aroma de óleo fino, a precisão das peças, o brilho dos cromados, a impressão de robustez, o inconfundível som das traquitanas sincronizadas erguendo e abaixando a agulha. Lembranças da minha velha casa, da minha mãe costurando na Singer que ela tinha, parecida com esta aqui, que inclusive era movida a pedal, e como eu gostava de brincar de fazer de conta que era assim um carrão pedalando a bichinha à toda.
Motivação, respeito, admiração, e identificação. Pois é, eu também gosto da bichinha. Velhinha sim, mas é muito bonita, forte e trabalha muito bem. Talvez assim como a velha e boa luta de classes. As novas máquinas de costura, ao que parece, não somente são computadorizadas como trabalham conectadas à internet. As classes sociais, agora, apresentam mais outras tramas, outros padrões, para ficarmos em imagens próximas. E não acho que são novas classes sociais, assim na lata, os 'com internet' e os 'sem internet'. Outro dia eu tento explicar.
Então, o projeto é consertar a máquina. Nem que seja preciso levá-la à uma oficina. Mesmo que eu já tenha alguns rudimentos, graças à internet, de como funciona uma máquina de costura. Já tenho hipóteses sobre o que não está funcionando direito, e antes de levar a máquina a um profissional eu vou gostar de pelo menos conseguir explicar o defeito - e diminuir as chances de ser engambelado. Ou seja, mesmo que eu não consiga resolver sozinho - caso de ser necessário trocar peças ou fazer alguma regulagem para a qual eu não tenha ferramentas - a Fabiana vai poder voltar aos seus projetos de costurar brinquedos de pano, na máquina que herdou, enchendo a casa do cheiro de tecido recém cortado e do zumzum de linha escorrendo pelas guias de arame. Na nossa casa, parece que uma tradição se insinua.

domingo, 9 de agosto de 2009

Agostos por dentro

Caio Fernando Abreu

Foi na ponta do Leme, no Rio. Parecia verão pleno, mas era apenas julho, um dia quente e azul, pouco mais de meio-dia, a praia cheia de gente. Já repararam como, em dias quentes e azuis na beira da praia, no Rio, todos parecem deuses? Nesse dia, pareciam. Não só os adolescentes de cintura fina e cabelos encharcados de sal, mas também as mulheres um tanto passadas, e os homens também, e até os velhos pareciam deuses cansados, mas deuses. As cores, talvez, as peles, não sei ao certo. Há sempre um toque de divino no humano em dias assim, pensei.

Da sombra, e vestido, porque não posso tomar sol, continuei olhando e bebendo uma água-de-coco, porque não posso beber álcool. E era um dia perefeito para torrar-se mesmo naquele tipo de sol dos horários mais impróprios que dermatologistas dizem ser assassino. Um dia perfeito também para empapuçar-se de chope e olhando o horizonte. Mas disso eu não me queixava, porque era um dia perfeito também para apenas contemplar o perfeito, mesmo sem poder fazer a maioria das coisas que o tornariam mais perfeito. Digamos que naquele momento eu não fazia questão dessas tais coisas: tudo o que precisava estava ao alcance talvez não exatamente das mãos, mas certamente dos olhos, o que já é alguma coisa.

Devo ter suspirado ou movido um pouco a cabeça para receber melhor no rosto a brisa com cheiro de algas, ou feito qualquer outro desses gestos típicos de quando se quer mudar de parágrafo por dentro, compreendem? Sei que não acendi um cigarro, seria um crime naquele ar, naquele azul, e sei ainda que não lembrei de nada acontecido há poucos ou muitos anos naquele praia onde vivi tantas coisas, tantas vezes. Para o futuro, também não cometi o erro de projetar o pensamento, pois sei que não tentei adivinhar se outra vez, algum dia, voltaria ali. Sem muita consciência do que fazia, não fiz nada que pudesse - a palavra é pedante e um tanto cristã, mas é a que quero usar - macular aquele estar ali.

Nos próximos segundos eu poderia quem sabe levitar, mas com isso chamaria muita atenção, talvez apenas entrasse num discreto satori tropical. A coluna ereta, o pensamento parado e mais vivo do que nunca, sem que ninguém percebesse. Foi então que alguma coisa - eu ia escrever "deu errado", mas não, nada deu errado, o que houve foi só a continuação do que estava acontecendo, e só seria "errado" se o que estava acontecendo fosse "certo", compreendem? Nem eu.

Mas o que houve - o tropeço, o solavanco, o esbarrão, a tosse no meio da ária lírica-, o que houve foi um pensamento impiedoso e exatamente assim: não faço parte disso.

Não uma dúvida, mas uma certeza. Absoluta.

Sem inveja, nem mágoa, revolta ou vontade furiosa de que pudesse ser de outra forma. Secamente, definitivamente, eu não fazia parte daquilo. Não por estar vestido e na sombra, não por viver noutra cidade, não pela água-de-coco em vez de chope. Por razões que não sei explicar, e nem precisariam tentar ser explicadas porque eram e, pior, continuam sendo completamente indiscutíveis.

Eu não fazia parte, e pronto.

Voltei lento e atordoado para o hotel.

A imensa janela de vidro do 18º andar dava para a praia. Cheia de sol, azul, turquesa, jade, cheia de gente viva. A janela não abria. Feito uma vitrina, uma jaula. Bebi água com gás, coca-cola, não lembro o quê. liguei para algum número ocupado ou peguei o controle remoto e fiquei dando zaps frenéticos na tevê. Não sei o que se fez ou o que eu mesmo fiz depois. Sei, e isso com certeza absoluta, que não teve a menor graça.

Desde então, tenho uns agostos por dentro, umas febres. Uma tristeza que nada, nem ninguém conserta. É assim que se começa a partir?

(Crônica publicada no jornal Zero Hora, em 12 de agosto de 1995).

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Hiroshima, 6 de agosto, 8:15h

Vou furar a fila de posts, mas hoje é 6 de agosto, 64 anos da Bomba de Hiroshima. Em 9 de agosto, Nagasaki.

"Vi quatro ou cinco meninos brincando na rua, e uma mãe carregando um bebê nas costas, ao mesmo tempo em que conduzia pela mão outra criança, de seus 3 anos. Quando elas estavam a uns 10 metros de mim, houve o clarão da explosão. A mãe e as crianças desapareceram. O que vi não foi fumaça. Foi uma espécie de vapor, que se levantou da mãe e das crianças. Logo depois, elas desapareceram.”
(Depoimento de um sobrevivente de Hiroshima).
VEJA, 2 de agosto de 1995. Hiroshima, 50 anos. Memórias dos filhos do clarão. Editora Abril, Ano 28.nº 31:62.

Horror

Talvez tenha sido "o" acontecimento do século XX.

Mas outro dia a gente pensa. Hoje acho que devemos ficar em silêncio por um tempinho.

O Piolho e a Guerra

A História está sempre pronta a ser reinventada, reinterpretada ou recontada. Quando não porque surge uma nova corrente interpretativa, capaz de iluminar diferentemente o passado, mas pelo simples surgimento de algo tão banal como um "fato". Assim é que, em 2001, na Lituânia, descobriu-se uma vala comum contendo 2.000 corpos. Considerou-se inicialmente que se tratava de judeus assassinados no Holocausto ou de vítimas da KGB, mas as roupas dos mortos logo denunciaram que, na verdade, eram soldados do exército de Napoleão.

E foi daí que uma nova explicação surgiu para a derrota de Napoleão na Rússia, no início do século XIX. Não que o inverno rigoroso não tenha tido lá a sua parte na derrota, mas outro fator parece ter sido mais importante: os soldados foram sendo enfraquecidos e mortos pelo Tifo, que proliferou livremente graças à falta de higiene e aos piolhos transmissores da doença.

Cada história, como se vê, está aí apenas para ser contradita.

Para a reportagem do Der Spiegel, já traduzida, clicar aqui.

E para informações sobre o livro "The Illustrious Dead: The Terrifying Story of How Typhus Killed Napoleon's Greatest Army", do historiador Stephan Talty, clicar aqui.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Doença, Risco, Segurança


Estive lendo a Susan Sontag, A doença como metáfora e AIDS como metáfora (Companhia de Bolso,2007. Tradução: Rubens Figueiredo/Paulo Henrique Brito). Conforme lia, me impressionava como a forma ensaio é vigorosa e pode nos aproximar, por vezes com mais clareza do que as formas permitidas pelas regras acadêmicas, de questões que estão no cerne da experiência do presente.

Se a atualidade era verdadeira no primeiro ensaio, escrito em 1976, logo após S. Sontag ter se descoberto com câncer*, quando cheguei ao "AIDS como metáfora" (que é de 1986), as coisas foram ficando assustadoramente próximas. Principalmente porque, num ensaio quase despretencioso, ela apanha tensões e transformações centrais para compreendermos o que nos acontece hoje e ilumina muito tanto sobre os mecanismos de poder que funcionam em nossas relações sociais de todos os dias, quanto sobre as significações e reações aos surtos de gripes atípicas.

Em alguns trechos, sua análise me fez lembrar o Zizek de Bem vindos ao deserto do real (Boitempo, 2003. Tradução: Paulo Cezar Castanheira). Embora analisando eventos muito distintos - ela, a AIDS; ele, o 11 de setembro - como focam seu olhar sobre a sociedade americana, parece que apanham mecanismos muito semelhantes de produção de uma "ameaça" constante; a introdução no presente da expectativa de que algo terrível aconteça. Vejam lá:

"[...] A vontade de fazer previsões pessimistas reflete a necessidade de dominar o medo do que é considerado incontrolável. Exprime também uma cumplicidade imaginativa com o desastre. A sensação de mal-estar ou fracasso cultural dá origem à vontade de começar do zero, de fazer tábula rasa. Ninguém quer uma peste, é claro. Mas é bem verdade que seria uma oportunidade de começar algo novo. E começar algo novo é bem moderno, e bem americano, também.

É possível que a AIDS esteja tendo o efeito de nos acostumar ainda mais à idéia da destruição global, uma perspectiva à qual já fomos acostumados pelos armamentos nucleares. Quanto maior a inflação da retórica apocalíptica, mais irreal se torna a perspectiva do apocalipse. Eis uma situação que se repete constantemente no mundo moderno: o apocalipse aproxima-se... e não chega a acontecer. E continua a aproximar-se. Pelo visto, estamos sofrendo de um dos tipos de apocalipse moderno. Temos um que não está acontecendo, cujo resultado permanece suspenso: os mísseis que descrevem órbitas em torno da Terra, com uma carga nuclear capaz de destruir todas as formas de vida sobre a Terra várias vezes sucessivamente, e que (até agora) não dispararam. E temos ainda aqueles que estão acontecendo, e no entanto não tiveram (até agora) as consequências mais temíveis - como a dívida astronômica do Terceiro Mundo, a superpopulação, os desastres ecológicos; e também os que acontecem e depois (segundo nos dizem) não aconteceram - com o o colapso da bolsa de valores de outubro de 1987, que foi um crack, como o de outubro de 1929, e não foi. O apocalipse agora virou uma novela: não "Apocalipse agora", mas "Apocalipse de agora em diante". O apocalipse passou a ser um evento que está e não está acontecendo. Talvez alguns dos eventos mais temidos, como os danos irreversíveis ao meio ambiente, já tenham acontecido. Mas ainda não sabemos, porque os padrões mudaram. Ou porque ainda não conhecemos os índices apropriados para medir a extensão da catástrofe. Ou simplesmente por se tratar de uma catástrofe em câmara lenta. Ou que dá a impressão de ser em câmara lenta, porque sabemos que está acontecendo, podemos prevê-la; e agora temos que esperar que ela aconteça, para que venha a se concretizar aquilo que julgamos saber.)", (p.145-6).

Ela escreve em 1986, falando dos usos da AIDS como metáfora social e política, e é notável como sua análise permite entrever mecanismos de produção social (e de poder) que após o 11 de setembro, dos episódios de gripes (aviária e suína) e mesmo após a crise econômica recente, tornaram-se ainda mais exacerbados e visíveis. Seus ensaios nos mostram como tais eventos puderam ser significados - isto é, colocados numa economia de relações - da maneira com que efetivamente foram, o que sugere que - a despeito das dimensões de tais eventos - eles não devem ser tomados como acontecimentos, pois menos do que alterar o campo de possibilidades, apontam a exacerbação de seus contornos.

Susan Sontag apanha as condições para que a AIDS seja eficazmente utilizada para atualizar a metáfora da "peste", numa formulação que, para mim (que venho lidando com a noção foucaltiana de biopolítica), é muito precisa:

"[...] A idéia de que a AIDS vem castigar comportamentos divergentes e a de que ela ameaça os inocentes não se contradizem em absoluto. Tal é o poder, a eficácia extraordinária da metáfora da peste: ela permite que uma doença seja encarada ao mesmo tempo como um castigo merecido por um grupo de "outros" vulneráveis e como uma doença que potencialmente ameaça a todos. [...] Mais do que o câncer, e de modo semelhante à sífilis, a AIDS parece ter o poder de alimentar fantasias sinistras a respeito de uma doença que assinala vulnerabilidades individuais tanto quanto sociais. O vírus invade o organismo; a doença (ou, na versão mais recente, o medo da doença) invade toda a sociedade" (p. 127-8). Mais atual, impossível.

Igualmente fecunda é a análise que a autora faz a respeito das análises e projeções estatísticas e seus efeitos:

"A vida moderna nos habitua a conviver com a consciência intermitente de catástrofes monstruosas, impensáveis - porém, conforme nos afirmam, bem prováveis. Cada acontecimento importante tem seu duplo, além de sua representação enquanto imagem (uma duplicação já antiga da realidade, que começou com a invenção da câmara fotográfica, em 1839). Ao lado da simulação fotográfica ou eletrônica dos eventos, temos também o cálculo de suas consequências eventuais. A realidade bifurcou-se, na coisa real e em sua versão alternativa, duas vezes. Temos o evento e sua imagem. E temos o evento e sua projeção.

[...] A capacidade de avaliar o modo pelo qual as coisas evoluirão no futuro é o subproduto inevitável de uma compreensão mais sofisticada (quantificável, testável) dos processos, tanto sociais quanto científicos. A capacidade de projetar eventos futuros com certo grau de precisão ampliou a própria definição de poder, por ser ampla fonte de instruções a respeito da maneira de se lidar com o presente. Mas, na verdade, a capacidade de antever o futuro, antes associada à noção de progresso linear, transformou-se - com a aquisição de um volume de conhecimentos maior do que se poderia imaginar - numa visão da catástrofe. Cada processo é uma perspectiva que aponta para uma previsão apoiada em estatísticas. [...] Tudo na história ou na natureza, capaz de ser encarado como um processo de mudança constante, pode ser visto como algo que caminha em direção a uma catástrofe. (Ou o insuficiente, cada vez menor - decréscimo, declínio, entropia -, ou o excessivo, maior do que podemos enfrentar ou absorver - crescimento incontrolável.). A maioria dos pronunciamentos dos peritos a respeito do futuro contribui para essa nova apreensão dupla da realidade - que vem somar-se à duplicidade, à qual já nos habituamos, criada pela abrangente duplicação em imagens de todas as coisas. Temos o evento que está acontecendo agora, e temos também aquilo que é pressagiado por ele: o desastre iminente, mas não real ainda, nem completamente apreensível" (p.146-7).

Nesse modelo de conhecimento - estatístico - que altera a forma de colocar em relação passado, presente e futuro e também modifica a relação entre os elementos que são definidos como "variáveis", a duplicidade entre real e virtual está na distância que vai das probabilidades ao evento (isto é, à sua realização). A distribuição estatística das probabilidades é compreendida como reflexo da estrutura social - e dessa maneira nos é possível compreender a importância central que adquirem nos discursos políticos (e mesmo acadêmicos), termos que estão ligados ao cálculo das probabilidades sociais como "empregabilidade", "vulnerabilidade". A ambiguidade da palavra "chance", ao mesmo tempo "oportunidade" e "probabilidade", dá notícia da importância que as ideias de jogo e de processo adquiriram em nossa sociedade, pois o destino individual se torna dependente da intervenção sobre processos de longa duração, que estruturam a distribuição das probabilidades... Mas já estou misturando os assuntos.

Destaco mais um ponto importante da análise de Susan Sontag: sua observação de que o aspecto novo na utilização da AIDS como atualização da metáfora da "peste" se relaciona ao fato de ser um vírus reconhecidamente portador de duas características - a latência (sendo possível ser portador, sem estar doente) e a mutação.

[...] "Mais promissor ainda do que a idéia de latência é o potencial da AIDS como metáfora da contaminação e da mutação. O câncer continua sendo usado como metáfora para referir-se a coisas temíveis ou condenáveis, muito embora a doença seja menos temida do que antes. Se a AIDS terminar sendo utilizada para fins semelhantes, será menos por ser ela invasora (uma característica que tem em comum com o câncer), ou mesmo por ser infecciosa, mas por causa da imagística específica que se desenvolveu em torno do vírus.
A virologia fornece todo um novo repertório de metáforas medicinais que não dependem da AIDS em particular, mas que assim mesmo reforçam a mitologia sobre ela. Foi muito antes da AIDS que William Burroughs afirmou, em tom de oráculo, e Laurie Anderson repetiu, que a 'linguagem é um vírus'. E a explicação viral é invocada cada vez mais. Até recentemente, a maioria das infecções virais conhecidas manifestava seus efeitos rapidamente, como a raiva e a gripe. Mas coma expansão da categoria dos vírus de ação lenta, a lista está aumentando. Muitas doenças progressivas e invariavelmente fatais do sistema nervoso central, algumas doenças degenerativas do cérebro capazes de se manifestar na velhice e as chamadas doenças de auto-imunização agora está sendo encaradas como possivelmente causadas por vírus lentos. [...] O vírus não é apenas um agente da infecção, da contaminação. Ele transporta "informação" genética, ele é capaz de transformar uma célula. E em muitos casos o próprio vírus evolui. [...]
Talvez não seja de surpreender o fato de que o mais novo fator de transformação do mundo moderno, a informática, esteja utilizando metáforas extraídas de nossa mais recente doença transformadora. Também não admira que as descrições do processo de infecção viral agora utilizem a linguagem da era do computador, como quando se diz que o vírus produz "cópias de si próprio". Além das descrições mecanicistas, a maneira como os vírus são caracterizados de modo animista - como uma ameaça à espreita, mutável, furtiva, biologicamente inovadora - reforça a idéia de que uma doença pode ser algo engenhoso, imprevisível, inaudito" (p.131-2).

A frase final do livro de S. Sontag, criticando as métaforas militares com que se descreve a doença e, de outro lado, com que se procura mobilizar a sociedade para combatê-la, continua também de uma atualidade marcante (e é mais um ponto de contato com as análises de Zizek sobre o 11 de setembro):

"[...] A metáfora que estou mais interessada em aposentar, mais ainda depois do surgimento da AIDS, é a metáfora militar. Sua utilização inversa - o modelo médico do bem-estar público - provavelmente tem consequências ainda mais perigosas e extensas, pois ele não apenas fornece uma justificativa persuasiva para o autoritarismo, como também aponta implicitamente para a necessidade da repressão violenta por parte do Estado (equivalente à remoção cirúrgica ou ao controle químico das partes indesejáveis pu "doentes" do organismo político). Mas o efeito das imagens militares sobre a conceituação da doença e da saúde está longe de ser irrelevante. Elas provocam uma mobilização excessiva, uma representação exagerada, e dão uma contribuição de peso para o processo de excomunhão e estigmatização do doente.
A idéia de "medicina total" é tão indesejável quanto a de guerra "total". [...] Não estamos sendo invadidos. O corpo não é um campo de batalha. Os doentes não são baixas inevitáveis, nem tampouco são inimigos. Nós - a medicina, a sociedade - não estamos autorizados a combater por todo e qualquer meio... Em relação a essa metáfora, a metáfora militar, eu diria, parafraseando Lucrécio: que a guardem os guerreiros", (p.150-1).

* O primeiro ensaio valeria outro post, pois enquanto a metáfora do vírus da AIDS reforça os mecanismos biopolíticos, o câncer e suas metáforas reforçam os mecanismos de poder individualizantes, ao ligar o câncer a características pessoais ou a estilos de vida; em ambos os usos, trata-se de promover a saúde e recusar a doença, mas num caso a referência é a sociedade (entendida como o conjunto estatísticamente apreensível) e, noutro, a referência são as escolhas individuais e sua maior ou menor adesão a um modelo de vida definido e legitimado como saudável.

Imagem: http://ehtrem.wordpress.com/2009/01/20/novo-virus-mutante-infecta-25-milhoes-de-pcs/