sábado, 29 de agosto de 2009

Ainda agosto

Conheço pouquíssimo Caio Fernando Abreu, embora oportunidade não me falte (né Fabiana?). Outro 'Agosto' é o de Rubem Fonseca, que não vou comentar - digo apenas que eu recomendo, mas esqueci do livro com a mesma facilidade e interesse com os quais eu o li, quando recém lançado. Como agosto não acaba assim fácil, em especial, 'agosto por dentro', também não vou nem tentar 'ir pra dentro' desse agosto. Mas por que agosto? Quer dizer, por que não outro mês qualquer, fevereiro, abril, novembro? Por que não tem o mesmo apelo dizer que estamos com 'maio por dentro'?

Agosto ser o mês agourento deve ser algum resquício de alguma tradição pagã, sei lá. Diz a lenda, que eu cito de cabeça, que o Imperador Augusto, num arroubo de falta de modéstia, deu seu nome a um mês inteiro. E, para não ficar atrás, estabeleceu que o 'seu' mês não podia ficar atrás de julho (de Júlio César, que iniciou a moda) aumentou a duração de agosto para 31 dias, roubando (mais) um dia do mês 'menos importante', fevereiro. Aí os inconformados com a mudança lançaram uma maldição... taí, vejam, já dá um prólogo de filme de terror: A Maldição de Agosto.

Eu só constato que parece haver algo de mórbido em agosto. Eu mesmo já andei falando de Hiroshima, de Les Paul e Raul Seixas; mas também em agosto teve Ted Kennedy, e 55 anos do suicído de Getúlio Vargas, e sei lá quantos anos do assassinato de Trotsky e de tantas outras figuras notáveis. Meu pai se foi em agosto. Meu avô materno, quando eu tinha 12 anos, também. Agosto é mês de lobisomem e de cachorro louco. Se o dia 13 for sexta-feira então... Mas, se formos analisar com pouco mais de cuidado, não há porque agosto ser mais mortífero nem mais malassombrado que qualquer outro mês. O dia de finados é em novembro. O bombardeio de Dresden foi em fevereiro. 31 de março de 64 foi em 1° de abril. O tsunami na Malásia foi em dezembro, e vai por aí. Outros meses tem melhores imagens. Setembro, mais afortunado, é o mês da primavera. Maio, das noivas. Dezembro, das festas. Fevereiro tem carnaval. Meses solares, afetivamente mais quentes, meses 'para fora', mas que nem por isso são poupados de tragédias. Só que elas não 'colam' neles como em agosto. Aliás, não há nenhum feriado nacional festivo em agosto, tirando, se não me engano, o dia do soldado.

Por arbitrário que seja o fato de agosto ter a fama que tem, por mais que seja chato para os nascidos nesse mês, parece que há algum sentido em existir no ciclo anual um mês simbolicamente ligado à introspecção, ao luto, à morte, ao fim, ao susto, ao espanto, à perda, à má sorte. Parece que há uma lógica, pois não se pode (re)começar algo que não teve término, não se pode saudar a nova vida, o novo alento, sem finalizar, sem abandonar, sem perder, sem dor. Sem ter cicatrizes na memória (... não lembro agora de quem é essa bela frase. Efeitos da idade).
As religiões organizadas (organizadas?) tem, entre seus repertórios rituais obrigatórios e característicos, os destinados a finalizar, a fazer a passagem, a honrar os que foram. Aliás, o 'modelo de negócio' das religiões pressupõe um monopólio sobre esse momento, essa situação particular - o ritual, não sobre o processo de morrer, que este já é da medicina e aliados. Agosto seria, no ciclo dos meses, o (mais ou menos) equivalente ao ritual de passar e de lembrar e refletir sobre a passagem (final ou não).

Tudo isso para dar o meu singelo palpite: agosto é saudável. Nos dois sentidos. No primeiro, autoajuda à parte, acho pode ser bom pra saúde 'desreprimir' nossa tristeza, nossa falta de algo que não sabemos o quê, nossa desesperanças, tropeços, hesitações, a sensação de despertencimento, nossos medinhos e medões, nossa necropatia, nossa estupefação ante o... sei lá, ante o que 'tá pegando' [rodapé: lembrei vagamente de Marcuse. Vou pesquisar]. Se for o caso, chorar até se acabar. Desconfio de quem parece não sofrer, nunca. No segundo, agosto deveria ser saudado, sim, como momento-espaço-tempo de 'libertar nossos desacertos', remoê-los e 'domesticá-los', como nações ou como partido, como ocidental ou cristão, como carnívoro ou como macho, esses tipos tão em baixa. Discutir com liberdade, isto é, sem medo nem restrições; talvez nem compromissos. Poderíamos dedicar todo agosto a resignificar com a sobriedade merecida todas as ocasiões em que estivemos do Lado Negro, por que fizemos as guerras, como as vencemos, como fomos vencidos, como começamos a errar o erro que sofremos hoje. Assumir agosto de vez, em resumo. Talvez possamos dar uma mãozinha para setembro chegar.

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