segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Belchior sumiu. Não é problema nosso.

Matéria do Fantástico de 23 de agosto diz que Belchior sumiu. Largou família, carreira, amigos, propriedades... sua última aparição registrada foi em Brasília, em abril passado, dando uma canja em um show do Tom Zé.
A primeira vez que ouvi falar de Belchior foi há muito tempo, como todo mundo, através de Elis Regina. Outro dia mesmo, numa banca de jornal, ouvi Elis cantando que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais... e fiquei o dia inteiro com a música grudada no ouvido, tendo palpitações e 'palpitamentos' sobre essa frase, sobre Elis e sobre Belchior.
A tal matéria do Fantástico procura amigos, parentes, vai a lugares que Belchior frequentava, constrói o mistério levantando aquelas questões mais ou menos previsíveis - estaria ele com problemas familiares? financeiros? queria mudar de vida? começar outro projeto? Onde está Wally? Vamos às hipóteses mais simples: Belchior sumiu porque quis. Quis cortar seus laços, por alguma razão, e mergulhar no anonimato. É um direito dele, acho, embora se fosse um parente meu é claro que iria ficar aflitíssimo.
O anonimato é uma característica central da modernidade. O surgimento do sujeito moderno, trabalhador livre, relativizado de papéis pré-determinados pela religião, família, nacionalidade, e mesmo classes, gênero e 'raça', e ao mesmo tempo, indivíduo que racionalmente pode e deve construir sua própria biografia, é uma construção histórica articulada com o desenvolvimento das sociedades democráticas e de 'livre-mercado', com a metropolização da existência, com a tal 'sociedade de massas' e, paradoxalmente, com o culto à personalidade (aviso de simplificação temerária!). O anonimato, do indivíduo sem nome, indistinto de tantos outros, da existência massificada e administrada, também é possibilidade de uma certa liberdade de pensamento e ação ao indivíduo. O anonimato possibilitaria o exercício da escolha política individual mas também a possibilidade da 'coletivização' de vontades e de oposição aos poderes e costumes estabelecidos (inclusive a favor do lado negro da Força, lembremos); o anonimato possibilitaria algum conforto e escape do peso das condições herdadas, de erros e histórias pessoais, de 'apagamento' do passado, mas também a clandestinidade necessária aos vícios - e a algumas virtudes. A internet embaralha e potencializa o anonimato - isso já é assunto para outro post, porém.
Belchior agora parece ter um problemão. A Globo lançou uma caçada ao Belchior. A mais poderosa empresa de comunicação do lado de baixo do Equador, que abertamente ameaça presidentes, fez da Xuxa uma celebridade, e pode esmagar a reputação da Madre Teresa, quer saber onde está Belchior. Mas, aí é que está: Belchior deseja ser achado? Belchior precisa ser achado? É certo procurar o Belchior? Belchior não cometeu, ao que se sabe, nenhum crime. Seu único problema parece ser sua fama. É esquisito que um cara bem sucedido queira largar tudo e dar um sumiço? Sem dúvida, mas além dos seus próximos, esse ato não prejudica ninguém. Talvez seja uma expressão de lucidez, e não de loucura. Um jornalista talvez faça uma argumentação pela linha da 'figura pública', satisfação do interesse coletivo, sei lá, mas eu acho que a mensagem que deve ser dada, o mais claramente possível, é:

- Deixem o Belchior em paz. Não o procurem. Não há motivo para forçar que ele apareça para as câmeras. Se você souber dele, não o dedure.

Se você sente falta do Belchior, ouça suas músicas, veja seus clipes, lembre do seu bigodão.

(...)

Não me peça que eu lhe faça
Uma canção como se deve
Correta, branca, suave
Muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas
E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém...

Mas não se preocupe meu amigo
Com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente
Quer dizer!
A vida é muito pior...

(...)

Eu sou apenas um rapaz
Latino-Americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior
Mas sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é sagrado
Nada, nada é misterioso, não...

(trechos de Apenas um rapaz latino-americano, de Belchior)

11 comentários:

  1. Então, concordo em partes com você. Tem um detalhe importante que não podemos esquecer, o artista, ídolo e gênio como por exemplo o Belchior, tem uma grande responsabilidade com o público consumidor da sua obra. Artistas como Belchior, são patrimônio público cultural, tornam-se assim em virtude da sua própria genialidade e da capacidade de tornar-se ídolo e arrastar multidões. Salvo o seu direito à privacidade, acho que ele tem um compromisso eterno com seus fãs. Sou fã do Belchior e confesso que estou aflito com seu "sumiço", mas ao mesmo tempo numa grande e positiva expectativa que ele, enfim resolveu voltar a compor. Em tempo: Parabèns pelo Blog. Grande Abraço.

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  2. Edu! Eu ia escrever sobre outra coisa na quarta, mas esse seu post me animou a escrever sobre um conto da Doris Lessing (O Quarto 19) e uma noção que o João Frayse-Pereira usou para analisar O último tango em Paris: a noção de segredo.

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  3. Ilzio, você está sugerindo qe o ídolo tem responsabilidade com os consumidores de sua produção ou que o indivíduo dotado de talento tem um compromisso público com sua "comunidade" de referência, não podendo simplesmente dispor de sua vida (e seus talentos)? Me parece que são coisas completamente distintas.
    Porque numa relação consumidor-produto cultural, acho que caberia a vontade de sumir, de escapar de um papel que, se por um lado recompensa, de outro aprisiona (os casos das celebridades norteamericanas são emblemáticas a esse respeito). A "caçada" ao Belchior talvez não tenha muito de diferente do que aquelas quadros televisivos em que se procura alguém que um dia fez sucesso - parece impossível que alguém, tendo entrado nesse circuito, um dia queira sair dele.
    Agora, se a gente fosse falar de talento como uma espécie de dádiva, isto é, de uma habilidade individual - nata ou duramente constrúida - então a lógica é bastante diversa; porque se alguma maneira o contrato é outro: não a dívida produtor-consumidor, mas a relação entre uma comunidade de pertencimento e um indivíduo excepcional.
    (Só pra estender a conversa...)
    Sobre a questão do talento individual, vale a pena o livro do Richard Sennett, "Respeito - A formação do caráter em um mundo desigual", publicado pela Record, acho que em 2006.
    Abraços!

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  4. Ele sumiu porque já estava sumido mesmo, aí, desapareceu até alguém sentir sua falta, acho que está funcionando , daqui a um pouco ele aparece de novo e dá algumas desculpas de artitas. não há maior aparecimento que o desaparecimento de alguém especial (famoso).

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  5. João Sobral25/08/09 00:41

    eu trabalhei na Camerati já...era uma espécie de faz tudo no escritório casa do Bel,era assim como eu o chamava,depois perdi contato,queria muito falar com ele,pois tenho uma banda e estou tocando uma música dele...

    www.myspace.com/joaosobral
    83934754

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  6. ARTE FINAL?

    Domingo último, como de costume, eu me balançava na velha rede de solassol enquanto assistia ao Fantástico. Pois foi ANTES DO FIM, quando já ia desligando a televisão, que me deparei pelas ONDAS TROPICAIS com a derradeira reportagem dando conta do sumiço do cantor e compósitos Belchior. Estranhei.

    Hoje, na HORA DO ALMOÇO, pus-me a pensar com meus botões: Sendo APENAS UM RAPAZ LATINO-AMERICANO, A PALO SECO, estaria o grande Bel escapando da DIVINA COMÉDIA HUMANA? Ou seria apenas fuga de uma ALUCINAÇÃO por MEDO DE AVIÃO?

    Em conversas PARALELAS, dizem tê-lo visto no MUCURIPE trajando uma VELHA ROUPA COLORIDA, TODO SUJO DE BATOM e tecendo COMENTÁRIOS A RESPEITO DE JOHN. Foi, quando identificado por uma FOTOGRAFIA 3x4, gritou: SAIA DO MEU CAMINHO que eu já to é vendo GALOS, NOITES E QUINTAIS! Vou fugir na minha nave ESPACIAL e me esconder do CLAMOR NO DESERTO, pra cantar aquela BALADA DO AMOR e ler meu ALMANAQUE em paz!

    COMO NOSSOS PAIS diziam, tem gente BRINCANDO COM A VIDA. Não que seja coisa de RETÓRICA SENTIMENTAL, mas um SUJEITO DE SORTE não pode viver COMO O DIABO GOSTA, pensando “se a vida não bebe, eu BEBO POR ELA”.

    É, vai ver que tudo isso tenha ocorrido a BEL PRAZER, talvez até por algum VÍCIO ELEGANTE, MEU CORDIAL BRASILEIRO. Afinal de contas, vivemos NUM PAÍS FELIZ e, sendo a VIDA CIGANA, devemos seguir o PEQUENO MAPA DO TEMPO em busca do PEQUENO PERFIL DE UM CIDADÃO COMUM.

    No mais, ATÉ AMANHÃ, ou ATÉ MAIS VER, que eu vou pegar a RODAGEM e viver o DOCE MISTÉRIO DA VIDA, à qual não vim a PASSEIO!

    Toim da Meruoca
    Bodega do João Raul, 14:30h do dia 24/08/2009.

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  7. Fabiana, entendo perfeitamente esses tratos de individualidade e seus direitos, agora as pessoas dotadas de talento e genialidades ocupam um espaço muito importante em nossas vidas, fica uma relação de afinidades que se rompida faz um tremendo estrago. acho que todos que trazem consigo esse dádiva devem ter uma atenção especial com seu público. De qualquer maneira, obrigado pela citação e pela dica do livro.Aproveitei e dei uma espiada no seu blog.Abraços!

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  8. Belchior é foda! serei ele quando crescer...! kkk. deixem o cara em paz..ele está numa boa...e não precisa da globo para manter-se em evidência...pois, sua obra é para loucos, só para raros...

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  9. gente!!!
    participem da minha comunidade sobre belchior !!!
    ela se chama
    BELCHIOR ta em sante cecìlia

    participem la ki ta manera!!!!!!!!!!!!!!!!

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  10. belchior pra mim é uum, dos melhores, é o Bob Dylan Brasileiro, ou o Dylan Seria o Belchior gringo?
    acho o Belchior em suas canções a reflexão do que se mostra ser isso. ele deixou, e explicou, em suas letras, que poucos pode se entender, ninguem se entende.

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  11. Gostei bastante do texto. Parabéns. (:

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