segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Coisas que sua mãe fazia - e você não faz igual

A idéia não é fazer uma lista - se você gosta de listas, fique à vontade. Há sites que só fazem isso, tipo o listverse. Mas provavelmente a sua mãe faz várias coisas que você, por mais que tente, não consegue fazer igual. Arroz com feijão. Bolinho de bacalhau. Tirar farpa do dedão. Esse tipo de coisa, que traz memórias que não precisam ser problematizadas - ou nem tanto assim - na terapia.
Dia desses, apanhei muito de uma velha máquina de costura. Uma tarde inteira. Até pra passar a linha pela agulha. E nada da maldita fazer os pontos. Tive de desistir, com o meu orgulho de "handyman" bastante ferido. Nada de machismo, mas mães e avós tiram essas coisas de letra. Tanto que a Fabiana, sempre mais sábia, ficou de consultar mãe e avó.
Escreveria um livro sobre a 'arte zen dos reparos domésticos', se algo parecido já não existisse, como comprova o Google (Home improvement for dummies já existe também, of course). No mito do herói, ele primeiro precisa ter seu orgulho ferido, cair em desgraça, rever seus conceitos, reaprender a ser humilde, arrumar um sensei improvável, voltar a treinar como um novato... e reaprender o básico para voltar a encarar o desafio. Não, não estou me achando nem perto de ser herói, mas veja, Gafanhoto, isso é sobre o aprendizado, nada mais. Mitos quase sempre são sobre o aprendizado.
Como diz o mitológico Sun Tzu, conheça seu inimigo. Máquinas de costura - e teares, e moinhos, e impressoras... - são máquinas cuja concepção tem lá seus 200, 250 anos ou mais, e que estão na base dos ofícios primários dos primórdios da industrialização. Ou seja, são dos primeiros ofícios mecanizados pela emergência da tração a vapor - depois elétrica - que revolucionou a produção capitalista e as relações sociais. Possibilitou a emergência da indústria, e o surgimento do proletariado. Está todo lá no bom e velho Marx, livro I d'O Capital (estou escrevendo sobre Marx espremendo desavergonhadamente e bem nas coxas. Como ensina a Ana, sociologia não é fácil assim não, tem que ir lá e ralar para aprender, seja o Marx seja consertar máquinas de costura). Então, a velha máquina de costura da avó da Fabiana merece muito respeito. Começa pela história dela, que deve ser cinquentona (a máquina, não a avó da Fabiana), uma bela máquina Singer, preta, curvilínea e até hoje reluzente, e foi a primeira máquina da dona D.. E dona D. reformou e guardou a máquina com todo carinho para dar de presente pra Fabiana. Não preciso dizer o que significa a máquina para a Fabiana. Então, já temos a motivação.
Mas o diabo é que eu não sei nada sobre costurar. Não sei nem pregar um botão. Não faço idéia de como se dá um ponto. Tive de apanhar para essa singela constatação. Por outro lado, enquanto me debatia com linhas, agulhas, canelinhas, esticadores, passadores, alavanquinhas e um monte de peças que eu não sei o nome, consegui admirar a engenhosidade, a qualidade e o capricho da velha Singer, seu aroma de óleo fino, a precisão das peças, o brilho dos cromados, a impressão de robustez, o inconfundível som das traquitanas sincronizadas erguendo e abaixando a agulha. Lembranças da minha velha casa, da minha mãe costurando na Singer que ela tinha, parecida com esta aqui, que inclusive era movida a pedal, e como eu gostava de brincar de fazer de conta que era assim um carrão pedalando a bichinha à toda.
Motivação, respeito, admiração, e identificação. Pois é, eu também gosto da bichinha. Velhinha sim, mas é muito bonita, forte e trabalha muito bem. Talvez assim como a velha e boa luta de classes. As novas máquinas de costura, ao que parece, não somente são computadorizadas como trabalham conectadas à internet. As classes sociais, agora, apresentam mais outras tramas, outros padrões, para ficarmos em imagens próximas. E não acho que são novas classes sociais, assim na lata, os 'com internet' e os 'sem internet'. Outro dia eu tento explicar.
Então, o projeto é consertar a máquina. Nem que seja preciso levá-la à uma oficina. Mesmo que eu já tenha alguns rudimentos, graças à internet, de como funciona uma máquina de costura. Já tenho hipóteses sobre o que não está funcionando direito, e antes de levar a máquina a um profissional eu vou gostar de pelo menos conseguir explicar o defeito - e diminuir as chances de ser engambelado. Ou seja, mesmo que eu não consiga resolver sozinho - caso de ser necessário trocar peças ou fazer alguma regulagem para a qual eu não tenha ferramentas - a Fabiana vai poder voltar aos seus projetos de costurar brinquedos de pano, na máquina que herdou, enchendo a casa do cheiro de tecido recém cortado e do zumzum de linha escorrendo pelas guias de arame. Na nossa casa, parece que uma tradição se insinua.

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