sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Guitarras elétricas são coisas de velho

É muito comum ver adolescentes radiantes, travados de felicidade, explodindo de expectativa, bem perto de onde trabalho. Aqui do lado tem uma verdadeira APL (Arranjo Produtivo Local) de lojas de instrumentos musicais, especialmente instrumentos de rock, e a rapaziada feliz está, invariavelmente, comprando suas primeiras guitarras. Alguns deles são tão novos que estão acompanhados de suas mães e respectivos cartões de crédito, algumas mostrando sinais de contrariedade. Já há 60 anos que praticamente todo jovem urbano do planeta sonha, em algum momento, em ser uma estrela do rock, especialmente um herói da guitarra.
No dia 12 de agosto morreu Les Paul, aos 94, músico e talvez o mais importante dos inventores da guitarra elétrica (parece haver controvérsia sobre quem é o 'pai' da guitarra elétrica, se Les Paul, Leo Fender, A. Rickenbacker ou o baiano Osmar, aquele mesmo do Dodô&Osmar, pai do Armandinho e co-inventor do trio elétrico). Pesquisar um pouco sobre a invenção do instrumento é bastante instrutivo para os interessados em inovação, entre outros. Aparentemente, por volta dos anos 1930, já existiam nos EUA fabricantes de instrumentos 'eletrificados', cada um deles trazendo algum tipo de novidade. Vou tomar como verdadeira uma tese de um amigo meu, músico amador: o motivo da invenção da guitarra elétrica foi ... a bateria. As baterias adotadas pelos pequenos grupos musicais, como bandas de jazz, na entrada do século XX, são bastante como as atuais: produzem um volume muito alto no seu som, abafando outros instrumentos, notadamente os de corda, em ambientes relativamente pequenos. Uma série de invenções (amplificadores, microfones e alto-falantes, em especial) foram respondendo às necessidades, criando novas oportunidades, aperfeiçoamentos, e assim por diante, muito esquematicamente, alterando as experiências de artistas, técnicos e do público. Nesse contexto, aqui bem porcamente delineado, os guitarristas estavam tentando se manter relevantes, e se adaptar às demandas, digamos, da profissão e do mercado, aumentando 'eletricamente' o volume dos seus instrumentos. Na época de Les Paul, entretanto, amplificação parece que já não era tanto o problema. Guitarristas perseguiam algo mais. Pelo que eu entendi, Les Paul inovou utilizando um corpo sólido para a guitarra (parece que também Osmar assim fez o 'pau elétrico'), e utilizando não um microfone, mas uma 'pick-up' de vitrola adaptada, inventou o captador, responsável por traduzir as vibrações das cordas em sinais elétricos (pelo que entendi, o captador está para a guitarra elétrica como o corpo está para a acústica).
Aí é que está, me parece, o importante da coisa, à parte a questão de quem foi o real inventor: ao dispensar ao máximo o som 'puramente' acústico (erhh, todo som é acústico, né...), o resultado foi um novo timbre, nunca antes ouvido, uma sonoridade que não tem existência significativa 'fora da tomada' e que do timbre da guitarra/violão acústico tem pouco mais que reminiscência. Mais de Les Paul: ele inventou a gravação multicanal, e foi artística e comercialmente muito bem sucedido por suas invenções, primordiais para o desenvolvimento da música e da técnica de gravação (procure no Youtube). Les Paul teve também sensibilidade para adequar a inovação ao seu contexto. Seu primeiro instrumento elétrico assustou não quem o ouviu, mas quem o viu (um pedaço de madeira com braço de guitarra). Então, Les Paul adotou adereços para o corpo sólido da sua primeira guitarra num formato mais familiar, com a formas e curvas do instrumento acústico, e que não tinham nenhuma função a não ser fazer reconhecivel o novo instrumento. Na década de 50, Les Paul e a fabricante de guitarras Gibson lançaram a lendária Gibson Les Paul - que ainda é um sonho de consumo dos adolescentes (e marmanjos) já citados.
O novo instrumento abriu novas perspectivas artísticas por permitir 'modular' (e ineditamente, sustentar) notas, acordes, harmônicos, volume e outros parâmetros do som - ou seja, tocar - diretamente o sinal eletrônico. A guitarra elétrica permitiu que os músicos ampliassem a experiência musical até limites inatingíveis, inimagináveis sem o uso da eletricidade e eletrônica. A guitarra elétrica pode ser vista como uma 'máquina', multiplicadora, sofisticante e transformadora do ato de tocar (guitarra, pelo menos). E isso é tudo que eu sei sobre 'a' guitarra.
Na primeira metade do século XX as transformações sociais (como a urbanização) e o surgimento de inovações técnicas de todo tipo já eram extraordinárias. A 'eletrificação' da informação - música também - pode ter antecipado algo como a atual 'digitalização'. Estamos falando de telégrafo, rádio, telefone, cinema, mas também de iluminação e energia para a produção, entre outros processos que sustentam esses novos suportes de informação. A guitarra elétrica não seria nem a primeira e nem a mais importante, mas talvez a mais exemplar máquina de gerar informação diretamente no 'mundo eletrificado' acessível às massas. Em meados dos anos 1950 a guitarra elétrica propiciava o surgimento do que viria a ser o rock, primeiro gênero musical 'eletrificado', que transcendeu seu aspecto musical para o de um fenômeno cultural graças a jovens que tinham esse 'mundo eletrificado' quase como uma segunda natureza, que dominavam e redefiniram seus códigos e co-produziram o ambiente contestatório pelo qual os anos 1960 são lembrados (veja-se a celebração de 40 anos de Woodstock, ou a oposição ao uso de guitarras elétricas na música brasileira 'legítima', acho que pouco antes). Da música com instrumentos sem amplificação para instrumentos com volume amplificados altera-se apenas o volume. Para a música tocada e indissociável da eletricidade (ou seja, do modo mais moderno, 'industrial') o que se teve foi toda a revolução da produção e da experiência cultural.
Para ficarmos apenas nas guitarras, parece haver agora um desenvolvimento da guitarra como 'máquina digital', que o leitor já adivinhou ser o de games da série Guitar Hero e semelhantes. Tais games permitem que qualquer um brinque de estrela do rock, simulando os solos e riffs de seus roqueiros favoritos numa guitarra de brinquedo. Há os que falam em 'nova maneira de consumir música', como simulação e como entretenimento, mas não se sabe onde isso poderia levar. A criação de muito, muito mais músicos, talvez. Os DJ's, com seus 'samplers' (trechos de músicas e instrumentos colados para formar outras músicas) mesmo que com pouca ou nenhuma habilidade de instrumentistas, teriam sido uma espécie de estágio intermediário.
Atualmente, onde o banquinho-e-violão está integrado com o Youtube e o reacionarismo talibã ou sarahpalinesco está tão confortável na internet quanto a pornografia, onde novos processos dominantes na esfera cultural não simplesmente cancelam os anteriores (pós-modernismo, blábláblá...), será que ainda podemos levantar a questão da contestação criativa... ou não? A contestação rock'n'roll (tipo 'Eric Clapton é Deus', célebre pichação nos muros de Paris das barricadas de 1968) feita de volume e distorção e cuja parte da graça estava na provocação intergeracional, tirando alguns dignos continuadores, parece ter sido abduzida. Rock'n'roll agora é coisa 'de velho'. Bem família. Moleques estão herdando guitarras que foram de seus pais e avôs. E tocam e gostam das mesmas músicas. A Juno do filme só gostava de velharias. Programa da terceira idade é ir no show do Iron Maiden e Deep Purple. Evangélicos são heavy metal. Estrelas do rock acham que o máximo da rebeldia é quebrar quartos de hotel. E tem até os Emos!!! ...
Meu palpitezinho, pra encerrar esse post comprido e sem noção, motivado, sei lá, pelo meu gosto ao bom (velho ou novo) rock, é só pra pontuar que a contestação, por mais domesticada e descaracterizada, por mais que a sua criatividade ter sido agora tornada 'força produtiva', talvez esteja ainda nos lugares de sempre (na exploração do trabalho, na concentração da propriedade etc.) mas também na moçada, às voltas com seus games, que está descobrindo como digitalizar a revolta à la pós cyberpunks - ou como, pelo menos, (fingir) fazer um roquinho bem honesto.
*(hoje, 21 de agosto, é aniversário de 20 anos da morte de Raul Seixas, grande figura e gigante roqueiro)

Um comentário:

  1. Nota: quando eu disse aí em cima que música amplificada é só uma alteração de volume, eu me esqueci que isso pode fazer uma grande diferença. Sobre isso, só tenho a dizer: João Gilberto.

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