terça-feira, 25 de agosto de 2009

Da série: vai trabalhar, vagabundo - a pérola de hoje

A PEC (Proposta de Emenda Constitucional 231, de 1995, de autoria do Deputado Inácio Arruda) está em fase de debates na Câmara dos Deputados. Ela propõe, basicamente, alteração do artigo da Constituição que trata da duração da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. (Se alguém tiver curiosidade em ver a tramitação (14 anos!), pareceres etc. Clique aqui para ir ao site da Câmara).

Hoje, a Câmara está trabalhando (!) ouvindo a posição de sindicalistas (a favor da redução), empresários (contra) e especialistas de cada lado (especialistas também tem lado, sim senhor, ora), e argumentos de parlamentares.

Estava ouvindo no carro na rádio CBN uma reportagem sobre a referida proposta, e ainda bem que estava parado, pois o que ouvi é de dar um susto de perder o controle e provocar um acidente.

Para se contrapor ao argumento que o trabalhador pode utilizar o tempo livre para seu aprimoramento e/ou para seu lazer, o Deputado do PTB de São Paulo Nélson Marquezelli ganha disparado o Troféu Capitão do Mato 2009. Disse o nobre deputado (confira no player abaixo ou no site da CBN, aos 2m40s):

- "Se você reduzir a carga horária, o que vai fazer o trabalhador? Eles dizem, vai para casa, para ter lazer. Eu digo: vai pro buteco, beber álcool. Vai pro jogo. Não vai pra casa. Então veja bem, aí é que está o mal. O mal está nele gastar o tempo no que ele quiser, se [ao contrário] podemos deixá-lo produzindo para a sociedade brasileira..."





Não é uma obraprima de síntese moralista, preconceituosa, autoritária e mal intencionada? Trabalhador é, na cabeça do nobre deputado Marquezeli, o sujeito que:

a) não pode ter liberdade, pois o trabalhador é uma besta 'portadora de necessidades especiais' que não sabe nem o que fazer no seu tempo livre; alguém (quem, nobre Deputado? Vossa Senhoria?) tem que determinar o que ele tem que fazer (trabalhar mais, na marra, se supõe);
b) trabalhadores são todos bêbados;
c) trabalhadores gostam de uma jogatina (faltou dizer que gostam de fornicar...);
d) tempo livre é do Mal. Diabólico. Do Capeta. Obra do Tinhoso. Do Coisa Ruim. Logo, quem usa livremente o tempo livre tem mais é que queimar no interno. Torquemada, ops, Marquezeli vai salvar sua alma do Diabo, nem que seja na marra;
e) trabalhador não liga pra família;
f) trabalhador tem mais é que ficar ralando sem descanso, e agradecer porque senão ele vai fazer besteira. E ficar contente com o saláriozinho que ganha...;
g) todos que defendem os direitos do trabalhador, por associação, são preguiçosos bêbados fornicadores jogatineiros maus brasileiros parceiros de Satã...

Experimente, na fala transcrita do nobre deputado ai em cima, trocar "...reduzir a carga horária"..., bem na primeira frase, por "acabar com a escravidão".

Bem vindo ao Brasil de 1888!

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