sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Dom Quixote

Estava eu arrumando (ou tentando arrumar) meus armários e papéis, quando lá encontro um envelope com a nítida letra da Fabiana. Tratava-se de um cartão de aniversário gigante, entregue no meu primeiro aniversário desde que nos conhecemos (lá nos idos de 1996), todo feito à mão, lindo, lindo. E na capa do cartão, um cavaleiro armado enfrenta um dragão de cara fofa. A imagem ganhou novos significados porque, um dia antes, achei partes impressas do meu blog antigo (La Philosophie dans le Boudoir) e, num desses posts antigos, uma leitura breve do Dom Quixote feita pelo Foucault em As Palavras e as Coisas.

Acho que não há problema em republicá-la, como uma lembrança de uma época em que eu lia mais, escrevia mais, e a Fabi ainda tinha tempo de fazer cartões à mão. Uma época bastante doce.


Dom Quixote
Com suas voltas e reviravoltas, as aventuras de Dom Quixote traçam o limite: nelas terminam os jogos antigos da semelhança e dos signos; nelas já se travam novas relações. Dom Quixote não é o homem da extravagância, mas antes o peregrino meticuloso que se detém diante de todas as marcas da similitude. Ele é o herói do Mesmo. Assim como de sua estreita província, não chega a afastar-se da planície familiar que se estende em torno do Análogo. Percorre-a indefinidamente, sem transpor jamais as fronteiras nítidas da diferença, nem alcançar o coração da identidade. Ora, ele próprio é semelhante a signos. Longo grafismo magro como uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros. Seu ser inteiro é só linguagem, texto, folhas impressas, história já transcrita. É feito de palavras entrecruzadas; é escrita errante no mundo em meio à semelhança das coisas. Não porém inteiramente: pois, em sua realidade de pobre fidalgo, só pode tornar-se cavaleiro, escutando de longe a epopéia secular que formula a Lei. O livro é menos sua existência que seu dever. Deve incessantemente consultá-lo, a fim de saber o que fazer e dizer, e quais signos dar a si próprio e aos outros para mostrar que ele é realmente da mesma natureza que o texto donde saiu. Os romances de cavalaria escreveram de uma vez por todas a prescrição de sua aventura. E cada episódio, cada decisão, cada façanha serão signos de que Dom Quixote é de fato semelhante a todos esses signos que ele decalcou.

Mas se ele quer ser-lhes semelhante é porque deve prová-los, é porque os signos (legíveis) já não são semelhantes a seres (visíveis). Todos esses textos escritos, todos esses romances extravagantes são justamente incomparáveis: nada no mundo jamais se lhes assemelhou; sua linguagem infinita fica em suspenso, sem que qualquer similitude venha jamais preenchê-la; podem ser queimados todos e inteiramente, mas a figura do mundo não será por isso alterada. Assemelhando-se aos textos de que é o testemunho, o representante, o real análogo, Dom Quixote deve fornecer a demonstração e trazer a marca indubitável de que eles dizem a verdade, de que são realmente a linguagem do mundo. Compete-lhe preencher a promessa dos livros. Cabe-lhes refazer a epopéia, mas em sentido inverso: esta narrava (pretendia narrar) façanhas reais prometidas à memória; já Dom Quixote deve preencher com realidade os signos sem conteúdo da narrativa. Sua aventura será uma decifração do mundo: um percurso minucioso para recolher em toda a superfície da terra as figuras que mostram que os livros dizem a verdade. A façanha deve ser prova: consiste não em triunfar realmente - é por isso que a vitória não importa no fundo -, mas em transformar a realidade em signo. Em signo de que os signos da linguagem são realmente conformes às próprias coisas. Dom Quixote lê o mundo para demonstrar os livros. E não concede a si outras provas senão o espelhamento das semelhanças.

Seu caminho todo é uma busca das similitudes: as menores analogias são solicitadas como signos adormecidos que cumprisse despertar para que se pusessem de novo a falar. Os rebanhos, as criadas, as estalagens tornam a ser a linguagem dos livros, na medida imperceptível em que se assemelham aos castelos, às damas e aos exércitos. Semelhança sempre frustrada, que transforma a prova buscada em irrisão e deixa indefinidamente vazia a palavra dos livros. Mas a própria não-similitude tem seu modelo que ela imita servilmente: encontra-o na metamorfose dos encantadores. De sorte que todos os indícios da não-semelhança, todos os signos que mostram que os textos escritos não dizem a verdade assemelham-se a esse jogo de enfeitiçamento que introduz, por ardil, a diferença no indubitável da similitude. E, como essa magia foi prevista e descrita nos livros, a diferença ilusória que ela introduz nunca será mais que uma similitude encantada. Um signo suplementar, portanto, de que os signos realmente se assemelham à verdade.

Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, pp. 61-62.

O Quixote de Foucault é um herói deslocado. Vive em um mundo que não é o dele, preso a uma época anterior. Sua aventura tem como objetivo - fracassado - provar que o mundo ao qual ele pertence ainda existe.

Esse mundo de Quixote ficou para trás. Era o mundo da semelhança entre as coisas, no qual as palavras eram também elas coisas no meio das outras, relacionando-se entre si pelas formas da semelhança. Foucault escolhe quatro dessas formas: convenientia, aemulatio, analogia e simpatia. Ali, as palavras e as coisas encontravam-se no mesmo nível, e a linguagem era como uma ciência da natureza. Este não era o mundo do sentido, e a pergunta sobre os significados era ali completamente estéril. A palavra ligava-se ao que ela dizia pela semelhança, como todo o resto. Era um saber simultaneamente pobre e infinito: "Colocando a semelhança (ao mesmo tempo terceira potência e poder único, pois que habita do mesmo modo a marca e o conteúdo) como nexo entre o signo e o que ele indica, o saber do século XVI condenou-se a só conhecer sempre a mesma coisa, mas a conhecê-la apenas ao termo jamais atingido de um percurso indefinido" (p. 47). Daí a necessidade de imaginar um microcosmo como limite ao que pode ser conhecido. "A natureza fecha-se sobre si mesma."

Mas a chegada da Idade Clássica vai transformar este mundo, e o ser da linguagem vai desaparecer (para depois ser reencontrado com a literatura). "As coisas e as palavras vão separar-se. O olho será destinado a ver e somente a ver; o ouvido somente a ouvir. O discurso terá realmente por tarefa dize o que é, mas não será nada mais que o que ele diz" (p. 59). É a chegada dessa época que Quixote marca. E este é seu lado patético, a sua procura pela semelhança. Sua incapacidade de ver que o mundo é outro, que as palavras não são mais coisas, é que o faz ver "castelos, damas e exércitos" onde só há "estalagens, criadas e rebanhos". Não podendo mais ler o livro do mundo, é obrigado a ver no mundo aquilo que o livro diz.

A verdade dos signos agora é uma pergunta a ser feita. Como eles podem indicar aquilo que representam? O que liga as palavras às coisas? Não é mais possível responder pela semelhança, pois a palavra desligou-se do mundo dos seres. A linguagem agora gravita num mundo à parte, num mundo que é só dela: o mundo do sentido. É este o mundo no qual Quixote está deslocado, pois a ele não pertence.

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