sábado, 22 de agosto de 2009

Figurações de Agosto

Há muito tempo, o Mauricio me sugeriu que foi em suas crônicas que Caio Fernando Abreu foi desenvolvendo Agosto como experiência: a experiência dolorida de estar mergulhado em desconforto, melancolia e não-pertencimento. Para além de ser uma mistura de sensações, Agosto é também um tempo, um período, uma fase; algo diferente, portanto, de qualquer tristezinha que por vezes nos acomete.

Acredito que de fato seja nas crônicas – este espaço solto de observação e registro de fatos cotidianos – que o Caio foi desenvolvendo Agosto como uma figura em torno da qual se articulam diversas experiências, semelhantes no que se refere ao tema da paralisia e do aprisionamento.

Tomemos, por exemplo, a crônica Agostos por Dentro, em que Caio se refere a um fato aparentemente banal, que é estar na praia, no Rio de Janeiro, perto do meio-dia. O que era ao mesmo tempo banal e perfeito, no entanto, quebra-se repentinamente a despeito do esforço do autor de permanecer ali – isto é, de preservar um momento de plenitude – devido à súbita percepção de não fazer parte de tudo aquilo. O autor é arrancado de um momento de mergulho intenso no presente, violentamente posto à parte: ele retorna ao hotel, cujas amplas janelas de frente para o mar agora se tornam jaulas, e não consegue mais escapar da sensação de estar à margem da vida (ainda que realize algumas ações como beber alguma coisa, ligar para alguém, assistir TV).

Agosto por dentro, nessa crônica, aparece como a consciência abrupta e dolorosa que não permite que se tome parte no fluxo da vida: é o que arranca o indivíduo do cotidiano e o coloca em uma outra temporalidade, suspensa, à parte.

Em Sugestões para atravessar Agosto, Caio continua tateando os significados de Agosto, mesmo que numa crônica dedicada a apresentar formas de escapar a esta experiência. Cuidadosamente, ele mostra como não adianta tentar superar Agosto, compreendendo-o ou acelerando-o: Agosto é um tempo, mas também uma condição e por isso o jeito é atravessá-lo, passar por ele, transpô-lo em sua inescapabilidade. À paralisia de Agosto é necessário contrapôr um movimento que é o de simplesmente continuar, seguindo o fluxo cotidiano ainda que não se tome parte nele.

O jeito é tentar fazer a travessia da maneira mais macia e suave possível, pela superfície de Agosto, sem mergulhos em suas profundidades. Não adianta fazer qualquer coisa: como Agosto é quando as chaves simplesmente se trancam por dentro, é preciso respeitar o tempo necessário para que elas destravem, sozinhas. Agosto é cíclico, tanto quanto as estações, o dia e a noite, a lua ou as marés: é fenômeno quase natural (mesmo que também seja cultural e econômico), faz parte de estar vivo.

Nessas duas crônicas, então, temos uma experiência que é a da violenta retirada do indivíduo do fluxo da vida cotidiana e o aprisionamento no lugar-tempo dessa consciência dolorosa de não-pertencer.

Como a ideia é atravessar Agosto, Setembro aparecerá como o horizonte da travessia completada. Em Quando setembro vier, crônica que responde aos comentários dos leitores de que suas crônicas andavam muito tristinhas, Setembro é a fantasia de facilidades, alívios e reencontro.

Mas é interessante notar que, antes mesmo dessas crônicas publicadas em agosto de 1995, Caio escrevera um conto – publicado posteriormente em Ovelhas Negras (São Paulo: L&PM, 2002) – chamado Depois de agosto. Agosto, nesse conto, é um momento-quando. Após a personagem receber o diagnóstico da AIDS, Agosto é a partir de quando se torna tarde demais para qualquer coisa:

Naquela manhã de agosto, era tarde demais. Foi a primeira coisa que ele pensou ao cruzar os portões do hospital apoiado náufrago nos ombros dos dois amigos. […] Riram os três, um pouco sem graça, porque a partir daquela manhã de agosto, embora os três e todos os outros que já sabiam ou viriam a saber, pois ele tinha o orgulho de nada esconder, tentassem suaves disfarçar, todos sabiam que ele sabia que tinha ficado tarde demais. Para a alegria, repetia, a saúde, a própria vida. Sobretudo para o amor, suspirava” (p. 225).

Agosto é o momento-quando, mas também continuidade, porque a partir dali, sempre haverá agosto-por-dentro, a espada-sobre-a-cabeça, a guilhotina-sobre-o-pescoço: agosto é maldição e condenação, é a permanente consciência da própria mortalidade.

E talvez, nesse conto, haja outros elementos para a compreensão dos significados dessa experiência que, na literatura do Caio, chama-se Agosto, pois aqui aparece fortemente a relação entre ter agosto por dentro e carregar um vírus fatal, entre continuar vivendo e flutuar sobre a vida (porque ficou tarde demais para qualquer intensidade, sobretudo as intensidades e ilusões de eternidade do amor), entre ser empurrado pelo fluxo dos dias e estar aprisionado num momento-quando tudo muda irremediavelmente.

Nesse conto, porém, que é bastante otimista, embora a personagem procure distrair Agosto com suas viagens, a travessia de Agosto só se faz quando a intensidade de um encontro reinsere movimento à vida da personagem. Primeiro, um movimento de fuga; depois, um movimento de mergulho naquele Outro que é igualmente portador de Agosto.

Agosto fala, portanto, desses movimentos de aproximação e repulsão à ideia da morte; dessa paralisia que por vezes nos acomete quando nos damos conta de que o mundo, sem nossa presença, continuaria a girar; dessa angústia que é bastante humana (e moderna) da finitude de uma vida que poderia ser indefinidamente vivida – pois como ensinou M. Weber, o homem moderno pode se sentir cheio da vida, mas não pleno dela.

Agosto é experiência dura, dolorosa, mas passageira (mesmo quando duradoura): há que se manter o olho em atravessá-lo, manter o foco na possibilidade de escapar à paralisia e reingressar no movimento do tempo, retomar as infinitas possibilidades que a ilusão de que vamos viver o suficiente nos dá – haverá tempo, haverá encontro, haverá continuidade, haverá Setembro e Primavera.

Pra terminar, um pedacinho de uma música do Wisnik que sempre me vêm ao corpo quando penso em Depois de agosto:

A primavera é quando ninguém mais espera/ E desespera tudo em flor/ A primavera é quando ninguém acredita/ E ressuscita por amor”.

(José Miguel Wisnik).


Imagem: www.gettyimages.com.br

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