quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Gran Torino, piccolo ritrato

Gran Torino (2008)
Alerta de spoilers!
Noutro post eu falei de passagem sobre o 'sensei improvável'. Esse personagem recorrente, quase arquetípico, é exemplificado, por exemplo, no Sr. Miyagi ensinando Daniel-San (série Karate Kid), no John Wayne de 'The Cowboys' (não sei o nome brasileiro), no Mestre do Gafanhoto de 'Kung Fu', no Yoda e Obi-wan Kenobi para Luke use-the-force Skywalker, na Sarah 'Terminator' Connor, no Gecko de 'Wall Street'... Em Gran Torino, que recém saiu em DVD, Clint Eastwood é o sensei bastante improvável do seu jovem vizinho 'asiático' - e do pastor Janovich, também, em outro registro. O personagem de Eastwood, Walt Kowalski, é um velhinho recém viuvo, ex-operário e ex-soldado, que constrói meticulosamente sua solidão, mantendo à distância filhos, vizinhos e o pobre pastor Janovich. Se você ainda não sabe, Gran Torino é um carro da Ford dos anos 1970, antes desse filme notado apenas pelos aficcionados em carros clássicos e pelos fãs da telesérie 'Starsky e Hutch' - está lá para marcar os anos bons de Walt. Por uma série de circunstâncias, Walt irá adotar Thao, e lhe ensinar os macetes, o pulo-do-gato. E Walt é um mestre Jedi na venerável arte do insulto. Faixa preta em mal-humor. Ninja imbatível em falar-entre-os-dentes com os cantos da boca. Mas, o carro relíquia reluzente tá lá mostrando, Walt é zeloso, detesta serviço mal feito, e para garantir, prefere ele mesmo fazer o serviço. O personagem seria, então, um cara 'autêntico' até a chatice: americano daqueles que odeia carro japonês a ponto de renegar seu filho toyoteiro, operário de chão de fábrica casca-grossa mas orgulhoso, soldado de infantaria que não vacilou na Coréia e, portanto, amarga sua nova vizinhança vietnamita, marido exemplar por décadas e que não esconde sua revolta com Deus pela perda de sua amada.
Lá pelo meio do filme, Walt leva Thao para um curso rápido de insultos com outro grão mestre do duelo verbal - seu barbeiro Martin. Como bom e típico aprendiz, Thao não vê sentido na lição que Walt quer que ele aprenda - assim como adolescentes choramingam diante da lição de logaritmos - mas entenderá logo depois, quando o rapaz vai fazer uma nada exemplar entrevista de emprego. Levada ao pé-da-tela, parece que é quase uma sequência de alívio cômico. Mas acho que há um articulação um pouco mais complicada e mais sutil. Walt ensina Thao como se virar 'como homem', sinônino aí de 'como americano'. Essa viração, entretanto, nega a aparente cascagrossice inabalável de Walt. Thao aprende que um insulto pode ser um elogio, um xingamento quase uma cantada, uma mentira pode ser mentira mas também gentileza simpática, e, vá lá, que 'os brutos também amam', isto é, ser durão é necessário, e verdadeiro, não blefe, e que ainda assim ele pode gostar de alguém e alguém vai gostar dele. O menino se torna homem (e americano) quando fluente na hipocrisia socialmente necessária, no jogo de contradições entre aparência e conteúdo, para ser aceito pelo grupo (ao aderir tacitamente ao seu repertório fundamental de valores). Senão, não sairá do gueto, da primariedade da gangue juvenil. A tese parece ser: se você aprender a usar a violência como nós usamos, isto é, se você se civilizar como nós, então benvindo à partilha do melhor dessa civilização. Sobre isso, esse americanocentrismo, talvez se deva a irritação de muitos com o filme e Eastwood. Nós, aqui, no Brasil, com o 'jeitinho brasileiro', nunca faríamos dessa maneira, não é? Tanto lá como cá, na porrada ou no jeitinho, parece que se trata da construção social do indivíduo: sujeito, autonomo, político, capaz de relativizar família e religião, mas que vê essa capacidade de auto afirmação se erodindo pelo fim, entre outras coisas, da esfera do trabalho tal como era quando se fabricavam gran torinos aos milhares.
(Spoiler alerta máximo!)
No fim, Walt fará seu sacrifício (autocrítico?) - será o durão de sempre, mas nesse caso como blefe. No último ato de maestria, com o qual Clint Eastwood se aposenta como ator, o personagem Walt irá jogar com os 'meninos' da gangue, que por serem meninos só sabem da violência seu aspecto cru e intimidador, e com os agora não tão meninos Thao e Janovich. Até aí, Walt recusará a ajuda oferecida pelo pastor Janovich. Este só se dará conta, só entenderá Walt, quando não puder fazer nada. Walt fez seu último serviço de modo impecável, e para tanto, basta ser suficientemente bom nas coisas mais triviais; não foi necessário ser assim nenhum Dirty Harry. Perto de Walt, Dirty Harry é só um menino.

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