sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O sorriso de Demerval


Na Introdução da minha dissertação de mestrado, brinquei com a ideia de propor uma "sociologia dos pontos de ônibus", tantas foram as conversas travadas e ouvidas nesses espaços de trânsito pela cidade. Não sei exatamente porque, mas as pessoas simplesmente chegavam perto de mim e começavam a falar, a contar pensamentos e memórias que, curiosamente, tinham muito a ver com o objeto da minha pesquisa de campo (talvez porque este objeto seja tão presente na vida cotidiana das pessoas, sendo mesmo tema comum em suas preocupações e conversas).

Um dos encontros mais marcantes neste período aconteceu num ponto de ônibus na região de Pinheiros, em 2002. Eu estava lá, esperando um ônibus que sempre demorava muito a chegar quando apareceu um homem vendendo daquelas balas de menta Garoto. Ele devia ter uns quarenta anos; era altivo e bem articulado. Eu já estava fazendo pesquisa de campo há algum tempo, e muito rapidamente percebi que havia um "deslocamento" naquele homem, no sentido de que o trabalho que estava desempenhando não condizia com sua "aparência": sua maneira de se comportar, seus gestos, seu modo de falar davam notícia de que ele era fluente em códigos culturais que sua condição atual não permitiria suspeitar.

Ao comprar algumas balas, perguntei a ele se fazia tempo que ele as vendia. E então começou uma conversa que durou pelo menos três passagens do ônibus que eu esperava...

Demerval era metalúrgico, ferramenteiro. Estava desempregado há cerca de três anos, depois que a empresa em que trabalhava havia se mudado para o interior - em busca de maiores incentivos fiscais e de trabalhadores desorganizados, sem tradição sindical, conforme a explicação que o próprio Demerval me deu. Em sua família, o pai e o irmão também eram metalúrgicos, todos formados pelo SENAI. Todos haviam sofrido as consequências da crise e das transformações produtivas, embora seu pai e seu irmão tivessem se reempregado, ganhando cerca de um terço do que recebiam em seu trabalho anterior. Entre trabalhar por menor remuneração e mudar de atividade, Demerval escolhera a última: lhe era menos degradante se virar como autônomo do que humilhar-se vendendo seu trabalho por um valor muito abaixo do que ele julgava justo.

Demerval me falou sobre cultura e identidade operária, sobre seus amigos e suas desventuras na tentativa de abrir um negócio próprio - sonho de grande parte dos trabalhadores, em especial quando recebem uma soma importante de FGTS -, sobre sua luta para pagar a pensão a sua filha pequena, sobre o sentimento de orgulho em se virar e manter-se próximo a seu nível de renda anterior... Nos cerca de quarenta minutos em que conversamos, Demerval pôde me contar sua história, sua interpretação sobre sua trajetória: ele pôde explicar, para mim e para si mesmo, o caminho que o levara até ali.

Da quarta vez em que meu ônibus passou, achei que já era hora de me despedir. Do ônibus, ao olhar para trás, vi que ele estava sorrindo. Demerval sorria, um sorriso de quem pôde ser visto e reconhecido, um sorriso de quem tivera a confirmação da própria identidade: Demerval é metalúrgico, operário qualificado, parte de uma história de desenvolvimento, lutas e mudança social. É herdeiro e perpetuador de uma tradição de trabalho, que nem as reestruturações produtivas, nem o aumento das taxas de desemprego foram capazes de fazer desaparecer. O sorriso de Demerval expressava uma história e uma memória, tão eloquente quanto as coisas que ele me contou.

Imagem: www.gettyimages.com

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