quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Segunda-feira ao sol


(Este post contém informações sobre a narrativa do filme. Se você ainda não viu e não quer saber como o filme se desenvolve, não leia!!!).

Para quem trabalha com o tema do desemprego, alguns filmes são quase obrigatórios. Segunda-feira ao sol (Los Lunes al Sol: 2002), certamente é um deles. E um dos mais delicados, a despeito da dureza das situações que são mostradas.

O filme se concentra sobre o cotidiano de seis ex-trabalhadores da indústria naval e começa apresentando um evento decisivo para a sorte de todos eles: episódios de greves e conflitos trabalhistas por ocasião dos esforços da indústria para flexibilizar as relações de trabalho, sob a ameaça de fechamento das portas. O contexto é o da reestruturação produtiva e da intensificação da agenda da competitividade entre nações, além do deslocamento dos investimentos de longo prazo em atividades produtivas para investimentos de retorno mais rápido, como a especulação imobiliária: ainda que os trabalhadores, por ocasião da ameaça de demissão, tenham assinado acordos em que abriam mão de seus direitos, menos de dois anos depois foram todos demitidos de qualquer maneira, pois a empresa fechou as portas e vendeu o terreno para a construção de hotéis e condomínios à beira-mar.

O que há de mais sensível no filme é a empatia com os dramas das personagens. Ainda que haja um contexto de transformações econômicas, elas não são imediatamente transpostas à vida dos indivíduos, nem do ponto de vista de um discurso articulado de resistência (como acontece, de certa forma, no documentário de Michael Moore, Roger & Eu: 1989, em que há uma espécie de indignação moral e militante que, inclusive, dificulta a compreensão dos mecanismos e dos efeitos das mudanças), nem do ponto de vista da inelutabilidade do destino, como se os efeitos das mudanças econômicas simplesmente se desdobrassem em efeitos sociais. O filme consegue captar os esforços dos indivíduos em dar sentido às transformações, sem no entanto deixar de reconhecer a violenta desqualificação (se quisermos falar como Serge Paugam) ou desfiliação (se preferirmos o termo de Robert Castel) experimentada pelas personagens.

Ele está falando, certamente, de um universo muito específico: a de homens, operários, cuja qualificação se fez no trabalho, e que são lançados de volta a um mercado de trabalho que não tem lugar para eles. Ainda que alguns procurem encontrar um novo posto de trabalho - um se emprega como chefe de segurança em um estádio, outro segue procurando trabalho sem nem mesmo conseguir compreender pelos anúncios do que se trata e um deles abre um bar, onde todos se encontram quase diariamente - há degradação de posição ocupacional, de rendimentos, de lugar social enfim.

Quanto aos outros, circulam restritamente pela cidade, sem ter nenhuma cotidianidade que lhes organize o uso do tempo e do espaço. Santa, personagem de Javier Bardem, é o mais resistente às novas formas de integração, e justamente é aquele que enuncia em diferentes momentos a pergunta que é chave para a compreensão do não-lugar social em que se encontram: "Que dia (da semana) é hoje"?. Sem uma integração em formas de sociabilidade reconhecida, o que pode dar sentido à passagem do tempo? Ainda, o que pode dar sentido à vida?

A instabilidade do lugar social resulta em diversas outras instabilidades: familiar, de recursos, financeiros, da saúde. O questionamento do papel de homem-provedor traz conflitos e tensões de difícil conciliação.

A situação de José é ilustrativa a este respeito. Desempregado há mais de quatro anos, é sua esposa quem passa a trabalhar, em um emprego tipicamente feminino: temporário, intenso (o que lhe traz problemas de saúde), pouco qualificado, e mal pago. A distância entre ambos cresce ao longo de todo o filme.

O reencontro só ocorre no final, quando Ana (a esposa) pergunta sobre o que aconteceu a Amador e chora enquanto ouve as respostas; só então é que parece se dar conta de que as dificuldades que enfrenta junto ao marido não são apenas do casal, mas resultam das tensões da instabilidade e da degradação moral a que muitas pessoas são submetidas. Seu choro revela também uma espécie de súbita compreensão das próprias vulnerabilidades: aconteceu com Amador, mas poderia estar acontecendo também com José e com ela. É a situação comum àqueles que não têm nada a não ser seu trabalho.

Uma das cenas mais provocantes ocorre no espaço do bar, quando se inicia uma discussão entre os que trabalham e aqueles que não trabalham, sendo mantidos pelos recursos de proteção social. Santa então recupera a história que desembocou no fechamento da empresa e na demissão coletiva, lembrando que a greve visava a manutenção dos postos de trabalhos de todos, e que foi um momento importante quando todos - efetivos e temporários - estavam juntos, do mesmo lado. Criticando, ainda que compreendendo, os colegas que assinaram o acordo e ganharam uma indenização, Santa mostra como eles estavam assinando uma espécie de sentença de morte para si mesmos e para as futuras gerações - não tinham mais idade para voltar ao mercado e, ainda, extinguiam os postos que poderiam empregar seus filhos.

As crises, os interesses, as táticas que provocaram a cisão da solidariedade de classe - ao menos da classe profissional dos trabalhadores de estaleiros - agora mostravam seus efeitos mais distantes: ameaçavam também a solidariedade impessoal entre cidadãos de um mesmo país. A observação final de Santa é de que são todos como irmãos siameses: iguais; de certa maneira, a despeito das diferenças e das novas clivagens, estão todos no mesmo barco - igualmente.

É significativo que eles passem parte do filme em uma balsa chamada Lady España: metáfora precisa de uma sociabilidade à deriva, de um país que transita entre margens pouco definidas ou definitivas. Articulada à falta de conexão das personagens com o tempo da rotina e da produção, é também metáfora de um tempo mítico, ficcional como as histórias inventadas por Santa, em que apesar de haver lugar para o humor e o riso, não parece haver lugar para a esperança: aprisionamento em um presente sempre igual, que não se distingue nem mesmo pelos nomes que damos para nos localizar no interior dos ritmos cíclicos da semana, do mês e dos anos.

O filme, desse modo, registra de maneira pungente, dolorosa e inteligente um momento de uma espécie de aporia histórica, que só lentamente talvez sejamos capazes de ultrapassar.

Imagem: http://altacultura.wordpress.com/2009/05/28/segunda-feira-ao-sol/

Um comentário:

  1. Uma última observação, já que o tema não era exatamente relacionado à resenha, é que o que o tal deputado Merquezeli não é capaz de entender é que o tempo livre do lazer inscrito em uma rotina socialmente estruturada não tem nada a ver com o tempo livre associal: a diferença fundamental está no sentido, isto é, nas significações que um e outro têm.
    Como o Edu notou, a despeito de estarmos falando de indústrias e propostas bastante modernas, o atraso social emperra as possibilidades, atualizando discursos e diagnósticos. E, vale dizer, o atraso social não está nos supostos trabalhadores indisciplinados, e sim no nobre deputado.

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