quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Vida ou morte (1)


Um dia desses, liguei a TV e estava passando o episódio piloto da série House. Para quem não conhece, a série é sobre um médico, significativamente um infectologista, que é ao mesmo tempo genial e misantropo. Em grande medida, sua genialidade provém de sua falta de empatia com os pacientes, o que lhe permite pensá-los puramente como corpos doentes - sendo a doença o mistério que é necessário desvendar, não por cuidado com a vida, mas quase por prazer.

O episódio piloto é sobre uma mulher, professora de educação infantil, que cai doente sem nenhum motivo aparente. Eles passam então a testá-la e tratá-la para uma série de doenças diferentes, em exames muitas vezes dolorosos e invasivos. E ineficientes...

A uma certa altura, cansada e sem mais esperanças, a paciente pede para ir para casa, para poder morrer entre os seus. Nesse exato momento, porém, House finalmente organiza todos sintomas em torno de uma doença conhecida e tratável e vai pedir a ela para fazer um último exame. De um lado, a paciente, cansada e descrente das maravilhas científicas e médicas; de outro, House estimulando-a a não desistir, pois o exame é simples e a doença, se confirmada, de fácil tratamento.

A paciente ainda argumenta que está farta de tratamentos; que seu único desejo é ir para casa, para morrer com dignidade. E então House fica muito bravo, dizendo que é impossível morrer com dignidade: em suas palavras, a morte nunca poderia ser digna, na medida em que é o último ponto da indignidade de estarmos presos a um corpo falível (vale notar que ele diz isso referindo-se também a si mesmo, já que sofre com as sequelas de um AVC na perna que quase lhe matou).

House é uma espécie de herói, respeitado apesar de seus defeitos porque fiel à razão, à ciência e ao pensamento médico. Sua fala no epidódio piloto dá o tom de sua posição: entre a morte e a vida, há que sempre se preferir a vida. O limite é a morte, e não a preservação da integridade (moral ou física) dos pacientes. Entre a morte e os procedimentos, mesmo que arriscados ou invasivos ou doloridos ou pouco garantidos, não há verdadeiramente opção, porque o imperativo é a vida.

A colocação de uma fala como essa na boca de um médico, personagem principal de uma série que se passa em um hospital, é bastante significativa e ilustra com clareza uma observação feita por Michel Foucault, na aula de 17 de março de 1976 (Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Tradução: Maria Ermantina Galvão). Nessa que é uma das aulas em que o autor primeiramente tratou das relações entre um dispositivo biopolítico e a emergência de um novo objeto para as artes de governar, Foucault sugere que a privatização da morte estaria em alguma medida ligada à inversão da tarefa do poder soberano, que deixa de "fazer morrer e deixar viver" para "fazer viver e deixar morrer". Segundo sua leitura, a indignidade da morte começa aí - quando ela passa a ser o signo do fracasso do poder soberano, que pode produzir uma vida melhor, pode buscar o bem-estar, mas não pode superar o limite da morte:


Eu creio que a manifestação desse poder [biopolítico] aparece concretamente nessa famosa desqualificação progressiva da morte, na qual os sociólogos e os historiadores se debruçavam com tanta frequencia. Todo o mundo sabe, sobretudo desde certo número de estudos recentes, que a grande ritualização pública da morte desapareceu, ou em todo caso foi-se apagando, progressivamente, desde o fim do século XVII até agora. A tal ponto que, agora, a morte - deixando de ser uma daquelas cerimônias brilhantes da qual participavam os indivíduos, a família, o grupo, quase a sociedade inteira - tornou-se, ao contrário, aquilo que se esconde; ela se tornou a coisa mais privada e vergonhosa (e, no limite, é menos o sexo do que a morte que hoje é objeto do tabu). Ora, eu creio a rzão por que, de fato, a morte tornou-se assim essa coisa que se esconde não está numa espécie de deslocamento da angústia ou de modificação dos mecanismos repressivos. Está numa transformação das tecnologias de poder. O que outrora conferia brilho (e isto até o final do século XVIII) à morte, o que lhe impunha sua ritualização tão elevada, era o fato de ser a manifestação de uma passagem de um poder para outro. A morte era o momento em que se passava de um poder, que era o do soberano aqui na terra, para outro poder, que era o do soberano do além. [...] Ora, agora que o poder é cada vez menos o direito de fazer morrer e cada vez mais o direito de intervir para fazer viver, e na maneira de viver, e no 'como' da vida, a partir do momento em que, portanto, o poder intervém sobretudo nesse nível para aumentar a vida, para controlar seus acidentes, suas eventualidades, suas deficiências, daí por diante a morte, como termo da vida, é evidentemente o termo, o limite, a extremidade do poder. [...] O poder já não conhece a morte. No sentido estrito, o poder deixa a morte de lado", (p.294-6).

Momento confissão trash: no último mês, marido e eu temos assistido muitas séries, duas delas que retratam o universo médico, embora de formas distintas. Assim, assistimos a 8ª temporada de Scrubs e também a última temporada de ER. Scrubs é uma comédia com toques líricos; ER é aquela tragédia que quase todos conhecemos... Mas não deixa de ser interessante observar como são encenadas as situações de vida e de morte nesses dois espaços tão distintos.

ER, até mesmo pelo caráter das urgências que chegam, tem um ritmo inestancável: da chegada até o desfecho, o paciente será submetido a qualquer procedimento visto como necessário para lhe salvar a vida, ficando em segundo lugar as possíveis sequelas que impactam sobre a vida que será possível depois do acidente ou evento. É um festival de entubações, horas de tentativas de ressuscitação, tratamentos arriscados, cirurgias... Mas é muito interessante como a série, cujo foco é sobre os médicos e seus dramas, não deixa de retratar as ambiguidades desse modelo de atendimento. Tem imensa importância os erros médicos, as más decisões, os pequenos desencontros cujos resultados são incontroláveis. Ao mesmo tempo em que afirma a importância do saber médico, a série o relativiza, mostrando muitas das "variáveis", de curto e longo prazo, que interferem sobre a formação desse saber.

Já Scrubs é bem mais lento, dá tempo para a criação de vínculos entre médicos e paciente, de maneira que as escolhas pelos tratamentos acabam sendo escolhas de fato: decisões, tomadas em conjunto com o paciente, avaliando a especificidade daquele indivíduo. É claro que há pressão e um pouco de terrorismo (do tipo "se você não aceitar ser salvo por este medicamento ou procedimento, vai morrer"), mas bem menos do que em ER, em que salvar vidas é o imperativo absoluto.

Essas séries levam ao extremo o "fazer viver", pois é na área da saúde que morte e vida estão tão explicitamente postas como objeto de saber e intervenção. No entanto, a própria ideia de uma sociedade de bem-estar se ancora na constante produção da vida: saúde preventiva, previdência, poupança, seguros... São todas maneiras de produzir uma vida longa e boa.

A vida, nesse sentido, torna-se o cotidiano para reprodução das condições da própria vida: fazemos exercício para que nosso corpo funcione bem; comemos comida ou, melhor ainda, alimentos funcionais, para melhorar o funcionamento do nosso corpo; paramos de fumar, de beber café ou de ingerir determinados alimentos porque podem nos fazer mal ou, então, bebemos café descafeinado, leite desnatado, queijos light para que nosso prazer seja outorgado por uma espécie de "salvo conduto".

Todas essas situações fazem eco à provocação de Zizek, referindo-se à São Paulo (o santo, não à cidade...):

"[...] Na medida em que "morte" e "vida" designam para São Paulo duas posições existenciais (subjetivas), e não fatos "objetivos", é justificável que se faça a pergunta paulina: "Quem está realmente vivo hoje?.
E se somente estivermos realmente vivos se nos comprometermos com uma intensidade excessiva que nos coloca além de uma "vida nua". E se, ao nos concentrarmos na simples sobrevivência, mesmo quando é qualificada como "uma boa vida", o que realmente perdemos na vida for a própria vida? [...]
É assim um paradoxo nietzschiano o fato de o grande perdedor nessa aparente afirmação da Vida contra todas as Causas transcendentes ser a própria vida. O que torna a vida "digna de ser vivida" é o próprio excesso de vida: a consciência da existência de algo pelo que alguém se dispõe a arriscar a vida (podemos chamar esse excesso de "liberdade", "honra", "dignidade", "autonomia", etc.). [...]
A postura sobrevivencialista "pós-metafísica" dos Últimos Homens termina num espetáculo anêmico da vida a se arrastar como sombra de si mesma" ("De Homo Otarius a Homo Sacer". Bem-vindo ao deserto do real: São Paulo, Boitempo Editorial, 2003, p.108-9).

Imagem: daqui

Um comentário:

  1. Fabiana,
    só uma correção: House é infectologista e nefrologista (episódio 1x3) (IMDB). Epidemiologista é o cara que estuda algo como a 'sócio-ecologia' da doença; analisa condições de saúde numa população, prevê, previne e monitora surtos e epidemias entre outras coisas.
    E um comentário: há algo de dionisíaco em House, no sentido de ser, às vezes literalmente, libertário ao ponto de quase obsceno.

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