sábado, 5 de setembro de 2009

As(sombra)ções do 11 de setembro, 2001

A provocação de setembro é quase óbvia, o que não quer dizer fácil: em 11 de setembro de 2001, em Nova York, os edifícios conhecidos como World Trade Center... bem, você sabe o que aconteceu. Se não, é só procurar. Decorridos 8 anos, duas eleições presidenciais americanas, pelo menos duas guerras alegadamente por consequência, o 11 de setembro, será que ainda nos assombra? Ou, para não perder o trocadilho e a rima, estaremos à sua sombra?
O texto abaixo é de um e-mail que mandei pros amigos, a quente, escrito na madrugada de 11 para 12 de setembro. A seguir, outro e-mail, já do dia 24 de setembro, elaborando um pouco mais usando algumas idéias de Paul Virilio, em especial. Sim, eu tenho uma certa vergonha desses textos agora, mas estão aí ao modo de registros, de fragmentos, de muletas para minhas lembranças, e tirando uma concordância nominal errada, não mexi neles.

Guerra?!
Meninos e meninas, socorro!
Hoje, “menas” abobrinhas. Tudo bem que não dá pra pensar direito, se sabe pouco sobre como um punhado de alucinados vira um Boeing-bomba ou Jumbo-bomba, tudo é especulação e impressionismo, ainda. Achei pouca coisa sendo dita de inteligente, mesmo pelos “inteligentes” ou sabidos. Talvez devamos prestar atenção no impressionismo propriamente dito, nas expressões, nas frases, nas comparações com o cinema ou com Pearl Harbour (este, nas duas categorias), no espetáculo inescapável nessa altura do campeonato. Depois dessa salada de perplexidade pânico surpresa medo horror desorientação americanismo vingança terrorismo mortos discursos palpites especialistas saturação de imagens etc. virá o prato principal, talvez definidor desse começo de século XXI, o projeto americano para os “outros” e nosotros. De sobremesa, a vingança, quente, ao molho acre-amargo.

Talvez o impressionismo e impressionante e a dificuldade de achar algo inteligente sendo dito venha do fato que para além de abomináveis, monstruosos, trágicos, os atentados é que foram muito inteligentes, nesse sentido. Pensados, planejados e executados praticamente sem armas convencionais. Utilizaram apenas a manipulação de riscos tecnológicos inerentes, intrínsecos de uma sociedade ultra-moderna. Explico melhor: o risco inerente de uma viagem de avião é o dele cair. O risco de um arranha-céu, o de desabar. O de concentrar milhares de pessoas numa única construção é o delas ficarem presas numa emergência. O risco da comunicação instantânea é o poder de transmitir mensagens ruins, muito ruins. Os terroristas (?) tiveram a manha de aprender a manobrar um 767, cuja cabine é de uma complexidade pra lá de cinematográfica, talvez até treinando no “Flying Simulator” da Microsoft, mas fora isso, foi só inverter por instantes a lógica da sócio-maquinaria ocidental, juntar tudo no mesmo pacote, e pronto. O avião caiu, o prédio desabou, as pessoas ficaram presas, o mundo acompanhou on-line, real-time. Uma coisa só. Não por acidente(s), mas por vontade e ação de alguém. Foi quase uma obra de arte de síntese, arte demoníaca, pra ficarmos no assunto. Uma demonstração da fragilidade que chega algo mais fundo que o contexto do governo Georgezinho Bush, e vai até o modelo de sociedade que vivemos americanos e nós ocidentais (metrópoles, máquinas, tecnologias, velocidade). Daí o sentimento ambíguo de proximidade e de estranheza: não foi conosco, mas foi como se houvesse sido. Poderia ter sido. As criaturas contra o criador. As fantasias (cinema) e fantasmas que se materializaram. E por aí vai. Enquanto isso, no Congo há uma guerra civil, que em 2001 matou entre 200 mil e um milhão de pessoas, ninguém sabe direito.
Deu vontade de ouvir Bruce Springsteen: War.

Beijos, e desculpem pelo tamanho do texto.
Foi a ocasião.

(12 de setembro de 2001)

Paul Virilio
Ois! E sou eu de novo, enchendo a caixa postal e o saco de vocês. Tudo bem, estou ciente que o destino de certos emails é ser deletado e ir para o paraíso dos bits perdidos. Na selva digital, só os mais aptos sobrevivem. Darwinistas digitais já estudam (ou deveriam estudar) isso. Os mais aptos aparentemente são as piadas e correntes, lutando bravamente com a pornografia por espaço nos discos rígidos e largura de banda nas infovias.

O problema é que só me caiu a ficha agora, muitos dias depois da hora certa. Bom, se eu fosse tão esperto eu já estaria rico e famoso e poderia dar emprego pra todos vocês. Sorry.


Paul Virilio é filósofo e urbanista francês. Dos polêmicos, diga-se. Mas vale ler ou reler “Guerra Pura” (Brasiliense, 1984, acho. Deve estar esgotado). É um livro de entrevistas, onde Virilio, entre outras idéias, trata de cidades, velocidade, acidentes e, claro, da guerra, assunto pelo qual a tal da ficha presa caiu. A cidade, para V., apareceu historicamente como proteção e, principalmente, como preparação para a guerra. A velocidade é a variável que se quer controlar: pela localização, por muros e fossos, pelo controle de acesso, trincheiras etc. Na guerra antiga, a proteção das cidades visava atrasar, diminuir a velocidade do atacante e com isso exaurir-lhe as forças. O atacante, ao contrário, procurava aumentar a velocidade do ataque e diminuir as chances de defesa. A organização das cidades nada mais era que consequência da preparação para um eventual combate. Não sei que sentido isso faz aí para os que entre vocês são aprendizes de urbanistas.


O desenvolvimento da técnica já a partir da II Guerra culminou com a
blitzkrieg (espero ter escrito certo), ou seja, a guerra relâmpago baseada na tecnologia e desprezando as tomadas de posição tradicionais. Isso é uma coisa. A outra é que a técnica, e através dela ou vice-versa, a produção, politizadas pelo belicismo latente, foram transformadas numa preparação contínua da guerra. Isto é, a cidade é o sítio da preparação permanente para a guerra, da atividade logística em primeiro plano, mesmo que não haja batalha nenhuma. Os objetivos estratégicos deslocam-se e integram-se a todas as outras atividades. Todas. A guerra se totalitariza: Guerra Pura. Guerra instantânea, pois a velocidade da guerra também foi acelerada ao ponto da vertigem, ao ponto de que a Guerra nuclear teria uma primeira, única e última batalha.

A técnica hipertrofiada permite cidades idem, através basicamente do aumento da potência e velocidade das atividades comuns. Resumindo até aqui: guerra é velocidade, técnica é velocidade, cidade é veloz, cidade é guerra, técnica é guerra. Estou simplificando e, pior, citando tudo de cabeça.


Só que nem tudo dá certo o tempo todo: existe sempre o acidente, o desastre. V diz que na filosofia aristotélica, a substância era o essencial, e o acidente, o que acontecia de acessório, complementar. Agora, segundo V estamos tendo uma inversão: o acidente se torna essencial e a substância, acessória. V fala que a técnica e a velocidade transformam o que poderia ser um desastre ou incidente banal num fato extraordinário. V notou que a técnica, que inventou a viagem de avião, inventou ao mesmo tempo, o acidente aéreo. A invenção do trem a vapor ao mesmo tempo criou as colisões; a do automóvel, os engarrafamentos de 300 carros, e assim por diante. Virilio propôs a criação de um museu do acidente, assim como se tem museus de objetos históricos quaisquer... V propõe que se mude a maneira de pensar: se criamos uma técnica, temos que pensar ao mesmo tempo, seu desastre, não como mera consequência ou efeito colateral, mas como finalidade potencial, por vezes oculta. O avião seria tanto sua viagem quanto seu desastre.


Só me lembro disso tudo porque eu usei na minha dissertação. E pensava em acidentes nucleares. Outra frase, do historiador Pierre Nora, também é de se guardar: o desastre é o maravilhoso das sociedades modernas, e nós nos apropriamos deles como acontecimentos na forma de grandes espetáculos.


Então, acho que eu já disse, há algo nos atentados terroristas profundamente perturbador e inteligente (num sentido estreito e negativo): as cidades e objetos técnicos banais tornaram-se locais e armas inusitadas por simples manipulação de finalidades. É o susto, e a síntese: o acidente, aviões, prédios tornaram-se guerra. A cidade realizou seu potencial de guerra e de acidente e de espetáculo. Talvez daqui por diante, tenhamos que pensar tudo que há nas cidades pelo lado que Ulrich Beck e Giddens chamam de risco criado, de baixa probabilidade mas alta consequência. E daí talvez venha o pânico mais profundo, que se mostra no medo dobrado em viajar de avião, proibição de facas de cozinha, canivetes e estiletes, mas vai até o friozinho que dá olhar o prédio do Banespa (que o Jorge sentiu) ou encanamentos da Comgás.

Guerra pura: a economia brecou, isto é, a logística sentiu o tranco, ficamos todos por aqui mais pobres, mas também nos sentimos soldados involuntários e sem comandante de um exército sob ataque de nosso próprio mundo material. Literalmente, o chão que nos sustenta e o teto que nos cobre.


Talvez a gente venha a ver o espetáculo dos marines detonando uns caras de barba e turbante, e ver a ironia de Neil Young cantando
Imagine no tributo aos heróis (sexta passada) seja esquecida. Talvez tudo volte mais ou menos ao normal, com a exceção dos filmes de ação, tipo o Pacificador. Com muita, muita sorte, talvez caia uma grande ficha: se tivermos que tomar mesmo todos os cuidados, ou vem o Grande Irmão, que vai vigiar todos os fósforos que usamos, ou a gente começa a pensar em sair dessa reinventando tudo, tirando o pé do acelerador. Muita sorte e orações. Haja ecumenismo.
Beijos


PS: Momento Agente 86: As Tvs andaram mostrando uns caras morenos e de barba tirando dinheiro de caixas automáticas do aeroporto como sendo os pilotos-kamikases-terroristas. Maxwell Smart pergunta: se os caras iriam se matar, tavam tirando dinheiro pra quê? Pra fugir? Pra gastar no paraíso? No inferno? O inferno, pelo menos, deve aceitar cartão. Explica essa, Fox Mulder.

(24 de setembro de 2001)

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