quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Darwin não disse o que administradores acham que ele disse

... e não só administradores. Vejam a frase (tradução tosca minha mesmo): "Não é a mais forte das espécies que sobrevive, nem a mais inteligente que sobrevive. É a mais adaptável à mudança" (‘It is not the strongest of the species that survives, nor the most intelligent that survives. It is the one that is most adaptable to change.’). Mas tal frase não é de Darwin, não foi por ele escrita, mas é largamente atribuída a ele (bem como algumas variações).


2009 é ano de efemérides para os darwinólogos: são 200 anos de nascimento e 150 anos da publicação de 'A Origem das Espécies'. Eu sou semi analfabeto na teoria da evolução; não li 'A Origem...' como deveria, tenho preconceito contra darwinistas sociais, mas está há muito, muito tempo estabelecido que a evolução é baseada em fatos comprovados e que Darwin é um dos mais importantes pensadores que já existiram. E acho que o criacionismo e o seu braço armado 'design inteligente', que alegam que a teoria da evolução está errada (ou não passa de uma 'teoria') e que todos os seres vivos foram criados por uma 'entidade superior', são movidos pela fé cega como maior motivação (talvez bem próxima da motivação monetária: parece que se criou uma gigantesca indústria para, ao mesmo tempo, bater na evolução e em Darwin; vender livros, cursos e palestras; fazer lobbys contra o ensino laico e; last but not least, angariar almas perdidas para religiões criacionistas).

Acho que Darwin é um dos grandes pilares do 'desencantamento do mundo', e certamente é visto como um dos responsáveis pela 'desdivinização' da condição humana, reduzida à sua condição de espécie animal e sujeita à mesmas leis da natureza que qualquer outro ser vivo. Isto é, a espécie humana não é fruto de vontade divina, mas dos mesmos mecanismos evolutivos comuns às minhocas ou à mandioca (e parece que mesmo essa afirmação sequer é de Darwin, mas de seu principal divulgador Thomas Huxley). Embora pareça que existam religiões nas quais essa condição rasa e nada especial dos humanos não é contraditória, mas sim fundamental para sua fé, Darwin provavelmente foi dos indivíduos de toda a história mais odiado, xingado e difamado pelos defensores de Adão e companhia.

Mas a idéia deste post não é falar nem da teoria da evolução (sobre isso, há muito a ler na internet, por exemplo, esse resumão e esse guia da New Scientist) nem das polêmicas que provocou e provoca. No seu excelente blog no New York Times, a bióloga evolucionista Olivia Judson vem ao longo do ano comentando sobre a importância de Darwin e sua obra. Ela tem o bom hábito de citar e comentar todas as suas fontes, e aí cheguei ao Darwin Correspondence Project, que pretende colocar online toda a prodigiosa correspondencia de Darwin. E esse site tem um curioso concurso cultural, que é o de localizar a origem de algumas frases mal ou erradamente atribuidas a Darwin, entre elas, a frase citada no primeiro parágrafo, que teve seu 'paciente zero' descoberto por um estudante de graduação de Berkeley. Para resumir a história, a frase é de um estudioso do 'management', Leon C. Megginson, professor da Louisiana State University, num paper de 1963. Aparentemente, sua paráfrase sobre a adaptação como mecanismo de sobrevivência (de empresas, suponho) foi, em algum momento, tomada como sendo do próprio Darwin. O campo da Ciência da Administração parece ser bastante propício a metáforas e ao empréstimo de idéias e teorias de outros campos, observação da Fabiana, para o bem e para o mal. E sem contar que se a inspiração dominante na administração parece ser a metáfora da guerra (tipo Clausewitz e/ou Sun Tzu para negócios ou ainda 'planos estratégicos'), também há espaço para numerologia, economia, astrologia, física quantica, estatística, psicologia, literatura, e claro, sociologia. Sem metáforas, passar à prática uma teoria ou metáfora (ainda mais emprestada de outro campo de conhecimento) sem, digamos, os devidos cuidados, parece ser, no mínimo criar chance para confusão - ou pior, para se aproveitar da confusão.

Dá para entender o engano, porém: a frase é bastante sintética, e parece razoável em certos contextos, mesmo se você não for um dinossauro diante da megacolisão de um asteróide. Na verdade, 'o sobrevivente é o adaptável' ser uma máxima adotada pelos negócios nos últimos 50 anos faz bastante sentido, uma vez que as empresas capitalistas foram campo de sucessivas adaptações - corporações e incorporações, aberturas de capital e financismo, globalização, novos processos produtivos (toyotismo etc.), novas tecnologias e assim por diante, sem contar toda a indústria dos 'management studies'. 'Sobreviver' na 'selva dos negócios' pela 'adaptação' também embasaria, por extensão mais ou menos lógica, o questionamento dos direitos dos trabalhadores, a oposição aos sindicatos e à regulação do trabalho, a agressividade predatória, a desresponsabilização pela destruição do meio ambiente, o uso de processos e substâncias perigosas, o incentivo pornográfico ao consumo, o esmagamento da vida comunitária, e até a conspiração, corrupção e a fraude: capitalismo 'selvagem', em suma. Mas é claro que Darwin não tem nada a ver com empresas capitalistas dispostas a tudo para sobreviver, entregues aos primados animais tipo 'devorar ou ser devorado' ou o que quer se se entenda (ou fantasie) ser a competição capitalista. A metáfora do sobrevivencialismo a qualquer custo suplanta, na prática, a metáfora da guerra (tradicional, não a genocida), e novamente, Darwin não parece ter nada a ver com isso. Nem mesmo com a penúltima versão do capitalismo, o neoliberalismo, que dá a crer que a competição pura (sem Estado regulando, entenda-se) é o mecanismo 'mais natural' da evolução capitalista e do desenvolvimento econômico. E justamente por não ter a ver é que Darwin é ideal para ser demonizado como se tivesse alguma responsabilidade ou relação com o fato do capitalismo sobrevivencialista subjugar e corroer todas as crenças e valores, e não só dos criacionistas.

Se lembrarmos que existem profissionais dedicados, conscientemente ou não, a 'desviar a bala' dos ressentimentos populares contra a presente crise capitalista para os bodes expiatórios mais à mão, o sujeito que (não) disse que 'o que importa é a adaptação' é quase ideal. E enquanto isso, os governos são 'obrigados' a 'garantir a sobrevivência' de empresas temerariamente administradas para não provocar uma crise sistêmica, ou seja, aquele meteoro exterminador de dinossauros. Isto é, talvez haja mais que um debate sem fim sobre se Darwin e os neodarwinistas estão mais certos ou menos certos, se um ser superior criou-nos a partir de Adão há poucos milhares de anos ou se o cérebro humano é tão complexo e maravilhoso que não pode ser fruto do acaso evolutivo ou, se pelo contrário, não passamos de máquinas para perpetuar nossos genes (conforme R. Dawkins). Darwin, e Marx (que admirava Darwin), e Freud, Einstein e mesmo Weber ('culpado' (!) pela burocracia) circulam por aí mistificados, com pouca relação com o que de fato escreveram, como produtos pop como a camiseta de Che numa rave, e nisso também não há nenhuma grande novidade. Os gênios da humanidade não poderiam mesmo escapar dos mecanismos de poder (vejam os posts do Maurício) que são, ao mesmo tempo, diluidores, ressignificantes e/ou 'contra significantes' e vampirizadores de idéias, mecanismos dos quais nem mesmo (ou especialmente) os textos sagrados e os próprios deuses escapam. A graça da história da frase de Darwin que não é de Darwin e da 'vida própria' que tomou num ambiente favorável, é pelo menos mostrar que o cérebro, essa maravilha da evolução (ou de Deus, vá lá), nos deu alguma capacidade de achar algumas pequenas pistas nessa tempestade. Minha fé aqui é achar que todos temos os genes certos para isso.

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