quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Entre os Muros da Escola

É fácil entender as razões que levaram Entre os Muros da Escola [Entre les Murs; França, 2008], de Laurent Cantet, a ganhar a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cinema de Cannes, em 2008. Seus méritos são muitos, e residem tanto no seu valor como obra cinematográfica, quanto nos conteúdos humanísticos que apresenta (a "história" que pretende contar).

Sob um ponto de vista da análise cinematográfica, chama a atenção o uso da câmera naturalista que, à primeira vista, poderia ser chamada de documental. Entretanto, se considerarmos que o cinema documental calca-se basicamente na retrospectiva e na reconstituição, percebe-se que Entre os Muros da Escola está bastante afastado da tradição do documentário. Sua proposta é a de causar um efeito de verdade, no que se aproxima principalmente de uma certa vertente do cinema norte-americano contemporâneo (Estou pensando em Elefante [Elephant, EUA, 2003], de Gus Van Sant, ou nos filmes de Larry Clark, como Bully [EUA, 2001], por exemplo). A narrativa inteira no tempo presente e a câmera a uma distância constante dos atores produz no espectador a sensação de que ele também faz parte da cena, está inserido naquele ambiente que observa, sem contudo poder influenciar no rumo dos acontecimentos. É este o efeito de verdade produzido, a sensação de que tudo ali aconteceu de fato, ou poderia ter acontecido exatamente daquele jeito. Esse efeito de verdade é reforçado, de uma perspectiva extra-imagética, pelo fato de que o ator principal é também o escritor do livro no qual o filme foi baseado, livro este que conta as experiências pedagógicas do ator, também professor na vida real. Essa mistura entre cinema e vida real incrementa o efeito de verdade produzido, e leva a questionar: não seria o professor, todo professor, também um ator?

Quanto à história propriamente dita, ela é bastante simples em seu enredo e composição: trata-se do cotidiano de um professor em uma escola da periferia parisiense, durante o período de um ano letivo. Mas logo se percebe que esta história nada tem de simples, pois os conflitos apresentados revelam ser essa sala de aula um microcosmo da sociedade francesa atual. Diferenças étnicas, culturais e de classe sobressaem-se imediatamente, gerando conflitos entre os alunos e os professores, e entre os alunos entre si, dando movimento e força à história. Outrora uma grande potência colonialista, a França foi alvo de um intenso fluxo migratório na segunda metade do século XX, fluxo este necessário para o desenvolvimento de sua economia. Esta imigração, porém, não se dá sem conflitos, devido principalmente à diversidade de valores e culturas trazidos pelos imigrantes. A França sempre se orgulhou do caráter laico e universalista de sua cultura, e prometia a cidadania francesa a todos os que a abraçassem – no que revela a particularidade de ser universal apenas na medida em que a cultura do Outro desapareça. Porém, nem todos os imigrantes estavam dispostos a abandonar sua cultura prontamente; querem ser integrados, mas mantendo a sua diferença. Por outro lado, os movimentos de expansão e retração da economia aumentam ou diminuem a oferta de trabalho para os imigrantes, gerando, em muitos momentos, uma massa de homens sem espaço na sociedade. São estes os conflitos que reaparecem ao longo do filme, encarnados nas personagens: de um lado o professor, típico representante da cultura laica francesa, e do outro os alunos, filhos desses imigrantes, perdidos entre o desejo de encontrarem espaço nesta configuração social, e a revolta ante a falta de oportunidades devida à sua origem étnica, e a pouca valorização de suas origens culturais.

O ápice deste conflito, também clímax do filme, se dá no julgamento disciplinar do aluno Souleyman, que ao final é expulso da escola. Chama atenção a total impossibilidade de diálogo entre o corpo de professores, e o aluno e sua mãe. Esta não falava francês e, inacreditavelmente, nenhum dos professores conseguia entendê-la; ou seja, entre os professores não havia nenhum com origem étnica semelhante aos alunos (o que mostra bem a dificuldade ou quase impossibilidade de ascensão social), e nem ao menos um que, "apesar" de sua origem francesa, tivesse desejado aprender a cultura ou a língua dos alunos, reforçando a idéia de que, entre os alunos e os professores, há mesmo um abismo intransponível, um diálogo impossível. É este o cerne da questão ética presente no filme: os professores daquela escola sentiam-se tão superiores a ponto de nem sequer se interessarem em aprender alguma pouca coisa a respeito da cultura e da origem étnica de seus alunos? Repondo a questão em nível macro: a França ainda acha que é possível integrar os imigrantes que lá foram para desenvolver a própria economia do país (enquanto seus países de origem, arrasados pela herança colonialista, permanecem em situação de extrema pobreza), apenas em termos de abandono da cultura ancestral, em prol de uma cultura ocidental que se pretenda universal?

É incrível como um pequeno filme, de cenários, locações e orçamento modestos, possa apresentar tantas questões atuais e importantes (e estamos deixando de lado todas as questões relativas à pedagogia e à situação escolar). Ao final, fica claro que estes conflitos não serão resolvidos imediatamente, e a escola tende a reforçar a situação social que os seus alunos vivem em seu cotidiano. Seria preciso, então, um esforço ético de ambas as partes, que principiaria pela necessidade de um maior diálogo entre as partes conflitantes. Esse diálogo deve começar pelo respeito às diferenças, pela necessidade de compreender minimamente o Outro, de se colocar no lugar do Outro, de maneira a entender melhor as suas necessidades e problemas.

INDICAÇÕES DE LEITURA:

HABERMAS, Jürgen: "O Estado-Nação Europeu frente aos Desafios da Globalização". In: Novos Estudos CEBRAP. São Paulo, nº 43, 1995.
__________: "Inclusão: Integrar ou Incorporar?". In: Novos Estudos CEBRAP. São Paulo, nº52, 1998.
SAYAD, Abdelmalek: "Entrevista: Colonialismo e Migrações". In: Mana. Rio de Janeiro, vol. 2 nº 1, 1996.
__________: A Imigração ou os Paradoxos da Alteridade. São Paulo, Edusp, 1998.
STOLCKE, Verena: "Cultura Européia: Uma Nova Retórica da Exclusão?". In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, nº 22, 1993.

Um comentário:

  1. Sabe de uma coisa? Lendo esta resenha me lembrei de Dois Dias em Paris. O marido americano da Julie Delpy não sofre do mesmo problema com os pais da moça? Posso estar bobageando, mas, mesmo superficialmente, penso que há ali algo semelhante... Até mesmo porque (e aqui agindo como um hoax), acho que o final é isso mesmo. Reconhecer a diferença. E na prática, perceber que ela é aquilo que nos falta...

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