quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Eu desisto da Fórmula 1 II - A Missão

Mais uma vez, a Fórmula 1 foi pega numa grande marmelada. Outra vez envolveu um brasileiro, mas que pelo menos mais ajudou do que atrapalhou a desvendar a trama. Nelsinho Piquet revelou a armação da equipe Renault no GP de Cingapura de 2008: bateu seu carro de propósito, a mando de Flávio Briatore, manager da equipe, forçou a entrada do Safety-car e possibilitou ao seu companheiro de equipe Fernando Alonso ganhar a prova.

Mas o grande momento de desconstrução da Fórmula 1 para mim foi no GP da Alemanha de 2002, dia 12 de maio, dia das mães. Veja ou relembre abaixo, cortesia do Youtube:


Vou requentar um e-mail que eu escrevi sobre a corrida imediatamente após: tava puto o suficiente e mandei o mesmo pra toda minha lista de contatos, e até porque o hotmail devorou um monte dos meus e-mails (por sorte, a Fabiana imprimiu e guardou) fica a título de registro público da minha bronca. Só lembro ao leitor que em 2002 o presidente da república era o FHC.

Assunto: Eu desisto da Fórmula 1
Data: Mon, 13 may 2002

Pessoas, tudo bem?

Foi foda. Eu tenho mais anos vendo F-1 (Fórmula 1) que vocês tem de idade. A primeira coisa sobre o assunto que eu me lembro é uma reportagem de uma revista falando da primeira vitória de um certo Emerson Fittipaldi, no GP dos EUA de 1971(!). No ano seguinte, Fittipaldi ganharia o seu primeiro campeonato mundial de F1, com um carro preto e dourado parecido com um caixão com pneus. E aí viramos a pátria sobre rodas. Ditadura braba, euteamomeubrasil etc. etc.

A Ferrari 2002 do Barrichello e do Schuma é um dos troços mais sofisticados e complicados que se consegue fazer. É de um engenho espantoso. Mas, afinal, pra que tanto dinheiro e tantos neurônios e talentos juntos? Por que eu fiquei 30 anos acordando cedo no domingão pra ver uns caras dando voltas e voltas e não chegando a lugar nehum?

Alguém aí viu Os Eleitos (The Right Stuff, 1983, dir. Phillip Kaufmann)? Nele, mostra-se dois eventos paralelos: a quebra da barreira do som pelo piloto de testes da USAF Chuck Yeager e o início da corrida espacial URSS X USA em plena Guerra Fria. É um puta filme, eu acho... há controvérsias. Bom, de acordo com o filme, os melhores pilotos de teste não foram aproveitados pela NASA, que nem precisaria de pilotos propriamente, já que tudo era automático, mas sim do 'efeito-propaganda' de colocar um ser humano em órbita antes dos russos. O tal Chuck Yeager, ao contrário, arriscava o pescoço todo dia só pelo gosto de ver onde um aviãozinho conseguia ir, destruindo vários antes de conseguir passar a barreira do som praticamente no braço, um feito que ficou anônimo e em segredo um bom tempo, por motivos militarmente óbvios. É ele no filme o protótipo do herói tecnológico, do herói moderno, com motores e asas no lugar de armaduras ou chapéu de vaqueiro, e cuja finalidade, ao invés de salvar princesas ou reinos ou ideologias, era o ideal, digamos, alienado, do avanço a todo custo, em si mesmo, além até do patriotismo e dos outros interesses. Engenheiros da NASA X braço do piloto; técnica X talento; política X desejo. Além disso, o herói é narcísico e individualista: faz o que faz só para si, mas ao fazê-lo, ao se sacrificar por isso, abriria o espaço para o avanço do 'coletivo'. Apesar, ou porisso, torcemos pelo herói...

No fim, dá na mistura que puxa o avanço da ciência e da técnica, cuja finalidade é também o avanço em si mesmo (e claro, do já batidão avanço do capital). 'Moral da história': competição aqui na era do capitalismo avançado só quando o talento for suficientemente domado para ser cooptado (não é bem essa a palavra... não existem puros a cooptar) pelos fatores grana, tecnologia, cultura, política (interesses). Só que o rosto, o herói, esse tem que ser uma 'pessoa humana'... isto é, não precisa ser herói, mas parecer um. O herói mesmo é antissocial demais para estar numa propaganda.

O esporte é outro lugar que faz heróis, no sentido que elege o melhor entre nós. Pilotos de carro são pra lá de modernos. O que é que aconteceu pra galera vaiar o seu grande herói Schuma? O Gozado é que a Ferrari, se a gente pensar bem, não fez nada contra sua própria tradição nem contra sua própria torcida: apesar da torcida ter lá seus pilotos favoritos (Gilles Villeneuve, por exemplo), eles torcem pelo carro, pela marca, tal como um time de futebol, onde o time está acima dos jogadores. Desde que o time ganhe, tanto faz que quem fez o gol ou a curva da vitória seja o Basílio ou o Schuma. É claro que não se prescinde do astro, do craque, mas é subentendido que o cara tá lá fazendo gols ou curvas pelo time, e ele é só é glorificado pelo torcedor nesse papel. Rubinho jogou para o time vermelho, declaradamente. Então, o que é que deu errrado? A Ferrari ganhou primeiro e segundo lugares disparado, e mesmo assim, teve tifosi (fanático) ferrarista vaiando, agitando polegares para baixo, queimando bandeiras e berrando: F-1, adeus!

Alguém aí certamente pode explicar isso bem melhor que eu, mas acho que o Rubinho teve o seu instante de gênio revelador. Ao contrário da 'vida real', no esporte não há tantas mediações: numa luta ganha o que ficar de pé, no arremesso de cuspe o que mandar mais longe, o que aguenta mais peso, o que acerta a bola no lugar, o que chega na frente... tá lá, explícito, e as regras procuram equilibrar as disputas, em princípio. Na F1, que é um esporte de grandes corporações (o PIB dos patrocinadores todos juntos deve dar um Brasil e meio...) tá todo mundo cansado de saber que quem pode mais chora menos, e isso, ainda, dentro das regras (cuja grande esperteza é dar espaço ao avanço tecnológico). Ainda assim, deve-se fazer crer que são os talentos que fazem a diferença: o engenho do engenheiro, a agilidade do trocador de pneus, e principalmente, o braço do piloto. Era esse o jogo que todo mundo tava vendo na corrida; nesse domingo, o Rubinho é que juntou todos os ventos a seu favor. Talvez seja isso que leve caras como eu a acordar cedo e aguentar o Galvão Bueno: a ilusão é que no fim, a máquina está aqui e lá e em todo lugar para favorecer o talento, o que há de propriamente humano na disputa, esportiva ou da 'vida real' (eu sei que não está, assim como eu sei que cigarro dá câncer). Se Rubinho ganhasse, realimentaria a ilusão e a máquina que roda em função disso e pronto, no próximo GP começaria tudo de novo. Rubinho, entretanto, fez mais que perder: ele encenou a perda, de modo magistral, espetacular, ao se deixar ultrapassar faltando dois palmos para a linha não deixou dúvida nenhuma sobre seu ato. Rubinho coreografou a marmelada. Ele falou com o pé do freio: pessoal, esse é o jogo, não tenham ilusão, eu sou só um trabalhador, tenho um contrato, cumpro ordens, jogo para o time, para o coletivo, sou um profissional, a competição é ampla e globalizada, no fim, somos todos da corporação, é duro e tal, mas no mundo profissional não há lugar para a paixão, para o coração, para a alegria e outros sentimentalismos, sublimemos todos, não há um 'eu' a proteger nem a projetar... Porra, o cara com o seu gesto explicitou toda a domesticação que a gente tenta espantar com o 'entertainment' nosso de cada dia ou de cada domingo, com a possibilidade e esperança de ver real-time baixar o Senna em alguém e repetir o feito de Davi de dar um pau nos Golias das grandes equipes (antes dele mesmo virar o grande Golias). Rubinho deu uma freada neoliberal e globalizada. Rubinho se sacrificou no altar do bom mocismo. Rubinho Mister M mostrou o truque. Rubinho fez a revolução por dentro. Rubinho matou todos os heróis. Rubinho vilanizou Schumacher. Rubinho nos tirou da infância. Rubinho transcendeu o esporte. Rubinho fez arte.

Pra que serve uma corrida de carros? Pra que serviu ir à Lua? Para fins práticos, para muita coisa, tal como os chips de computadores ou borracha de pneu. Como fim em si, para criar heróis que arriscam o pescoço pelo pioneirismo, por milésimos de segundo, para estar onde nenhum homem jamais esteve, e alargar as fronteiras do possível - esse lugar onde moram os engenheiros, os advogados, os economistas, os donos de equipe e um certo presidente da República.

Rubens Barrichello, obrigado. Eu não quero nunca mais ver F1. De certa maneira, você me libertou. Você derrubou a ficha que eu estava segurando.

nota: apesar da minha bronca, voltei a ver F1 de vez em quando. Afinal, meu filho pequeno acorda cedo mesmo quando é domingo. Mas agora eu prefiro mesmo MotoGP...

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