terça-feira, 8 de setembro de 2009

A jornada de trabalho de 12 horas

O Edu outro dia mostrou como o pensamento de nossos congressistas ainda é atrasado, ao citar a entrevista do deputado Nélson Marquezelli a respeito do "absurdo" que seria a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas. As pressões sobre o congresso, por parte dos industriais, me fazem achar que, no fim das contas, a proposta não vai vingar.

Mas enquanto isso, em julho, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgava uma pesquisa segundo a qual, reduzida a jornada de trabalho para 37 horas semanais, haveria uma situação praticamente de pleno emprego no Brasil - desde que, ressalte-se, "fossem mantidos os investimentos, a produção e, também, aumentada a capacidade produtiva do país". A medida não parece absurda, já que em muitos países desenvolvidos a jornada de trabalho há um bom tempo é menor do que 40 horas. Em 1995, por exemplo, os metalúrgicos alemães conseguiram a diminuição da jornada para 35 horas. Tal medida se justifica, em grande parte, como meio de manter um maior número de empregos.

Mais utópica parece ser uma fala recente do economista-chefe do IPEA, Márcio Pochmann, na UnB: para ele, já seria possível uma jornada de trabalho de 4 horas diárias durante 3 dias na semana, totalizando 12 horas; e assim mesmo, apenas a partir dos 25 anos. Lembra ainda que "Um jovem que trabalha oito horas, fica quatro na faculdade, e ainda gasta de duas a quatro horas por dia com deslocamento, tem uma jornada de 16 horas. 'Isso é uma jornada de trabalho igual a dos operários do século XIX. Como é que alguém vai ter tempo de ainda abrir um livro? Estudar e trabalhar não combina'".

Para chegar a essa conclusão, o economista propõe uma mudança de paradigmas: não se trata de diminuir a jornada para aumentar o número de empregados registrados e gerar maior tempo livre para os demais; as extensas jornadas a que estamos submetidos simplesmente não se justificam, devido à expansão do que ele chama trabalho imaterial. Hoje em dia, o trabalho não se restringe mais ao local da produção: o trabalhador passa praticamente o dia inteiro conectado ao mundo, gerando conhecimento que é aproveitado pelas empresas, e consequentemente, lucros ainda maiores.

Ao contrário do que possa parecer, essa discussão não é nova, já tendo gerado diversas teses e artigos. O que só torna a discussão no Congresso - e o provável resultado - ainda mais absurdos.

3 comentários:

  1. Vi uma fala do Pochmann a esse respeito num evento do movimento sindical bancário (reportagem aqui: http://www.contrafcut.org.br/noticias.asp?CodNoticia=13994
    Vídeo aqui: http://www.contrafcut.org.br/noticias.asp?CodNoticia=13995 ).
    O cara passou imediatamente a ser meu ídolo. O estudo dele parece um começo de uma discussão interessante sobre o arranjo social e produtivo, debate indispensável para se chegar a novas idéias de que sociedade queremos. Como manguaça de esquerda que sou, aplaudo o presidente do Ipea e o pessoal aqui do Margens por divulgar o tema.

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  2. Aproveitando o gancho, amanhã tem lançamento duplo na Martins Fontes da Av. Paulista e um dos livros é justamente sobre as disputas em torno das jornadas de trabalho no Brasil (e senão me engano, também na França):
    - Tempo de trabalho, tempos de não-trabalho: disputas em torno da jornada do trabalhador. De Ana Cláudia Moreira Cardoso (Annablume, Col. Trabalho e Contemporaneidade).
    Das 18h30 às 21h30, para quem se interessar.

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  3. ops! faltou um espaço no "se não" me engano...

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