segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Memory Lane

Diz a Fabi que fui eu quem escrevi (embora não me lembre muito bem disto) que a amizade se definiria por uma "memória compartilhada", por experiências que se entrecruzam. E foi pensando nisso que eu acompanhei a defesa da sua tese de doutorado. Desde o caminho de ônibus até a USP, relembrando fins de tarde agradáveis no apartamento ao lado da Aliança Francesa, ou passando em frente ao antigo ponto inicial do circular, local para onde fomos num dia como o de hoje, meio chuvoso, após eu ter passado a noite no apartamento dela com a Marcinha na Casa do Ator, escrevendo resenhas sobre Lévi-Strauss para o curso de Antropologia I.

E a Heloísa disse que gostava muito de defesas em dia de chuva. No caso da Bi, pareceu mesmo providencial, pois a chuva foi também limpeza e renovação, lavou tudo e deixou o caminho pronto para recomeços. E a USP tem mesmo essa cara de chuva, do barro que dificulta as caminhadas, e no qual é preciso se sujar para seguir em frente.

Por isso eu me senti um privilegiado em ter acompanhado durante todos esses anos a trajetória da Fabi, a sua ida para a Letras e a volta para a Sociologia, no seu núcleo mais duro, o trabalho, ao mesmo tempo recusando essa dureza e injetando num campo rígido noções e conceitos delicados e estranhos ao corpus instituído. E foi isso o que eu senti na defesa hoje, desde a fofura da Leny até os exageros da Nadya: o que ela o tempo todo defendeu foi não apenas um projeto de pesquisa, mas um projeto de vida mesmo, que consiste em alargar constantemente as margens de um saber sociológico. Foi esse sapere aude, essa coragem de conhecer que o Sérgio Adorno tanto elogiou na Fabi, que estava ali sendo defendido: uma disposição constante para desafiar os limites do que somos e conhecemos, para ultrapassá-los e podermos conhecer outras coisas, para sermos outros, eternamente outros.

Mas este conhecer, como a Leny fez questão de ler na epígrafe da Clarice que abria a tese, é humilde no seu tatear, por mais ambicioso que seja o seu projeto.

Acho que exprimo um pouco o sentimento geral de admiração pela ousadia da Fabi em percorrer esse caminho, e com isso tento apenas colocar em palavras a felicidade de poder compartilhar mais estas memórias, numa renovação da amizade que eu tenho certeza que perdoará o meu freaking out ao final...

E só pra injetar algo de "sociológico" neste blog destinado também a essas margens que a Fabi tanto insiste em alargar, reproduzo a ata da defesa de doutorado de Michel Foucault. Em tempo: se, como já me disseram, a confiabilidade de um blog reside nas credenciais do seu "autor", o nosso aqui já está melhor que muitas universidades por aí: 50% de doutores e 25% de mestres.

No dia 20 de maio monsieur Michel Foucault, encarregado de ensino na Faculté des Lettres et de Sciences Humaines de Clermont-Ferrand, apresentou sua tese de doutorado:

- Kant: Antropologia. Introdução, tradução e notas. Tese complementar, relatada por monsieur Hyppolite.

- Folie et déraison. Histoire de la folie à l'âge classique. Tese principal relatada por monsieur Canguilhem e em segunda leitura por monsieur Lagache.

Também participaram do júri monsieur de Gandillac para a tese complementar e o presidente para a tese principal.

As duas obras apresentadas por monsieur Foucault são muito diferentes e no entanto elogios e críticas serão muito sensíveis. Grande cultura, personalidade forte, riqueza intelectual são as qualidades evidentes de monsieur Foucault. A defesa só confirma esses julgamentos: suas duas exposições se destacam pela clareza, pela fluência, pela precisão elegante de um pensamento que sabe para onde vai, avança sem hesitar, mostra-se seguro de si. Mas cá e lá percebe-se uma certa indiferença com relação às tarefas que sempre acompanham os trabalhos mais eminentes: tradução exata, porém um pouco apressada, não "refinada" do texto de Kant; idéias sedutoras, porém rapidamente elaboradas a partir de alguns fatos apenas - monsieur Foucault é mais filósofo que exegeta ou historiador.

Os dois juízes da tese complementar ressaltam a justaposição de duas obras:

1) uma introdução histórica que é o esboço de um livro sobre antropologia, mais inspirada por Nietzsche que por Kant, observa monsieur Hyppolite.

2) A tradução do texto de Kant, que, reduzida ao papel de pretexto, deveria ser revisada. Monsieur de Gandillac aconselha ao candidato que, por ocasião da publicação, separe essas duas partes desenvolvendo o livro esboçado sob o nome de introdução e apresentando uma edição realmente crítica do texto de Kant.

Os três examinadores que se ocuparam especialmente da tese principal reconhecem a originalidade da obra. O autor procurou na consciência a idéia que os homens de uma época têm da loucura e determina várias "estruturas" mentais na "época clássica", ou seja, nos séculos XVII, XVIII e começo do XIX. Não é possível recapitular aqui todas as questões que sua obra suscita. Assinalemos apenas estas: é uma dialética ou uma história das estruturas?, pergunta monsieur Canguilhem. O autor realmente conseguiu se liberar dos conceitos elaborados pela psiquiatria contemporânea para definir suas estruturas e executar seu afresco histórico?, pergunta monsieur Lagache. O presidente pede ao candidato que se explique sobre a metafísica subjacente a sua pesquisa: uma certa "valorização" da experiência da loucura à luz de casos como os de Antonin Artaud, Nietzsche ou Van Gogh.

O que se deve guardar dessa defesa é sobretudo um curioso contraste entre o incontestável talento que todos reconhecem no candidato e a multiplicidade das reservas expressas durante toda a sessão. Com certeza monsieur Foucault é um escritor, porém monsieur Canguilhem fala de retórica em certos trechos e o presidente o julga preocupado demais em criar "efeito".

A erudição é indiscutível, mas o presidente cita casos que revelam uma tendência espontânea a ultrapassar os fatos: a sensação que se tem é a de que as críticas desse gênero poderiam ser ainda mais numerosas se o júri incluísse um historiador de arte, um historiador de literatura, um historiador das instituições. A competência psicológica de monsieur Foucault é autêntica: no entanto monsieur Lagache considera sua informação psiquiátrica um tanto limitada, as páginas sobre Freud um tanto rápidas.

Assim, quanto mais se reflete, mais se verifica que essas duas teses provocaram críticas numerosas e sérias. Entretanto nos encontramos diante de uma tese principal realmente original, de um homem que por sua personalidade, seu "dinamismo" intelectual, seu talento de exposição se qualifica para o ensino superior. Por isso, apesar das reservas, a menção muito honrosa foi-lhe concedida por unanimidade.

Henri Gouhier, 25 de maio de 1961.

(In: ERIBON, Didier: Michel Foucault 1926-1984. São Paulo, Companhia das Letras, 1990. pp. 22-23)

3 comentários:

  1. Querido,
    primeiro fiquei chorando, emocionada com todo o seu carinho e sua forma de expressá-lo. e depois me diverti muito-muito com a ata do Foucault, que deu nó na banca, deixando todo mundo perdido entre o assombro com a novidade e o medo que todo mundo resolvesse fazer algo parecido, escapando das regras e modelos acadêmicos...
    Em relação à defesa, é fogo, né? Eu perdi tanto tempo dialogando com minha sensação de culpa e minha pena pelo que podia ter sido e não foi, que acabei não dialogando como poderia com a banca. às 3h da manhã tive altos insights de coisas que eu com certeza poderia ter respondido e não consegui. Fazer o que?
    É um privilégio ter alguém como você me acompanhando no caminho... Não é à toa que a tese foi dedicada pra você.
    Beijos.

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  2. E depois que o S. Adorno me disse que o que acabei fazendo foi uma arqueologia, vou ter que criar coragem pra ler As Palavras e as Coisas e História da Loucura, não?

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  3. Sem contar o próprio A Arqueologia do Saber, que eu mesmo tb nunca li... Ai, acho que dezembro deveria durar uns 10 anos pra eu ler tudo o que eu queria...

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