quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Meu nome é eu (1)

Depois do post do Edu sobre o Belchior, eu tinha pensado em escrever sobre um conto da Doris Lessing chamado "O quarto 19" (O Quarto 19. Rio de Janeiro: Record, s/d. Tradução: Tati Moraes, p.360-396), relacionando-o a um artigo de João Frayse-Pereira (Identidade e Modernidade: o lugar do segredo. Cadernos CERU, nº 4, Série 2, 1993, p.32-46).

Mas aí, tá tudo super corrido por aqui e não consegui sentar para fazer isso direito. Então, começo hoje a publicar trechos revisados de um trabalho muito antigo, que fiz no meu último semestre de graduação (2000). Nesse trabalho, tentei pensar a questão da constituição do indivíduo na modernidade confrontando o referido conto da Doris Lessing com um romance de Clarice Lispector, Uma aprendizagem dos Prazeres (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993). O trabalho acabou sendo quase um ensaio, e hoje eu certamente abriria espaço para uma reflexão mais cuidadosa sobre a liminaridade da experiência feminina; de todo jeito, ele ajuda a pensar sobre a constituição da identidade e, de algum modo, também sobre o direito e as condições de nos liberarmos dos papéis que por vezes nos aprisionam.

***

(I)

Esta análise se propõe a refletir sobre as maneiras com que os conceitos sociológicos de indivíduo, razão e liberdade podem ser pensados a partir de dois textos literários: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector e o conto "O quarto 19", de Doris Lessing, que integra o livro homônimo.

Considero os textos escolhidos interessantes para pensar os conceitos porque ambos tratam, de modo bastante diferente, das possibilidades ou não da construção do indivíduo, dadas as limitações de determinadas experiências históricas, sociais e culturais. Em ambos os textos, o indivíduo aparece em tensa relação com a estrutura social, explicitando-se a dificuldade de constituição de sua própria especificidade em meio à fragmentação de papéis e expectativas sociais. A questão que os textos parecem propor é: o que pode o indivíduo frente ao mundo? Quais os limites da ação humana quando a administração do mundo se torna crescente e quase insuportável?

Optei por uma leitura imanente dos textos, buscando na estrutura mesma deles as tensões que propõem. Ao adotar tal procedimento, sei que corri o risco de me distanciar do conhecimento de tipo sociológico, aproximando-me da teoria literária. No entanto, o esforço de voltar os olhos para a produção cultural da sociedade que procuramos entender, sem a preocupação de encaixá-la rapidamente ao discurso sociológico, pode trazer bons resultados, no sentido de inserir na sociologia as desarticulações necessárias para que não se torne ela mesma reificada, incapaz de transformar seu próprio não saber em instrumento de conhecimento.

Dessa forma, reconheço que a forma geral tenha ficado, talvez, pouco "sociológica"; no entanto, as questões que conduziram a análise certamente são de caráter sociológico.

O eixo que articula a análise é a questão do nome. Ele foi escolhido após minha observação de que, na estrutura dos dois textos escolhidos, o nome aparece como importante signo dos descaminhos da constituição da identidade. Assim, na primeira parte da análise, apresento as características gerais das personagens a partir de sua relação com seus nomes: Lóri (no romance de Clarice Lispector) e Susan (no conto de Doris Lessing). Na segunda parte, procuro apresentar os diferentes percursos de ambas, a partir de sua experiência de que o nome pode se transformar em uma prisão, impelindo ao exercício de "ser outro", isto é, de transbordar os significados da experiência de si mesmo que o nome contém. Finalmente, procuro sublinhar as consequências que as autoras extraem nas situações em que suas personagens são mergulhadas, sugerindo que as soluções literárias encontrada por uma e outra correspondem a diferentes experiências de constituição do indivíduo e, também, a diferentes experiências do feminino.

(II) Lóri

Por que o nome tem importância? Porque nomear significa se apropriar do mundo por meio da linguagem. O nome é, assim, signo da apropriação: aquilo que sou capaz de nomear, me pertence, ainda que apenas simbolicamente.

A razão pela qual esta análise de estrutura em torno da questão de nome se deve às transformações que a personagem de Clarice Lispector, inicialmente apresentada como Lóri, experimenta em sua relação com seu próprio nome. Ao longo do texto, ela modifica a forma de se chamar, caminhando na direção da assunção de seu próprio nome e de si mesma.

Logo nas primeiras páginas, enquanto ainda nos apresenta esta que é a personagem principal de seu romance, Clarice Lispector chama a atenção para a questão do nome:

[...] ele [Ulisses] dissera uma vez que queria que ela, ao lhe perguntarem seu nome, não respondesse "Lóri" mas que pudesse responder "meu nome é eu", pois teu nome, dissera ele, é um eu (p.20).

Introduzida pelo homem que Lóri ama, a questão proposta por Ulisses detona a busca dolorida de Lóri por seu "eu", isto é, por sua individualidade e identidade.

No início, Lóri é apresentada como alguém totalmente imersa em sua luta com as coisas cotidianas: o mundo lhe pesa, suas preocupações são superficiais... O mundo lhe invade, e ela é incapaz de traçar limites entre o mundo externo e seu mundo interno - eles se confundem. Mesmo seu modo de se preparar para o encontro com Ulisses - elemento catártico de seu processo de construção de identidade - é apenas preparação do corpo.

É interessante notar que, além da condição humana da personagem, transparece sua condição feminina. Enquanto se questiona sobre se deve ir ou não ao encontro de Ulisses, Lóri oscila sob a influência de algo desconhecido: oscila entre querer ir e não querer, entre ir e ficar, entre telefonar ou não. Oscila também sobre o penteado e o vestido. Conforme a narradora, a razão de tantas oscilações se encontra em uma espécie de secura, isto é, na esterilidade de sua vida atual:

Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas, ah, a falta de sede. [...] Só os dentes estavam úmidos (p.30).

E não chove, não chove. Não existe menstruação. Os ovários são duas pérolas secas (p.32).

A secura do início é também o reconhecimento da necessidade da mudança; não por acaso, ao final do romance, simultaneamente ao encontro ocorre uma chuva torrencial: a água, natureza e fluidez, é signo da efetivação da mudança e da plenitude do encontro.

Nessa cena inicial, no entanto, a sensação de mal-estar só se abranda quando ela se esforça para arrancar de si mesma um choro, umedecendo um pouco suas decisões - metáfora para a retirada de seu discurso daquilo que é ódio, racionalidade, banalidade do comum. Ao umedecer suas decisões, ela logra alguma ousadia.

Quem é esta Lóri a quem Clarice nos introduz? É uma personagem voltada para o mundo exterior (cf. Maria Helena Oliva Augusto. O indivíduo na teoria social e na literatura; o momento contemporâneoCadernos CERU, nº4, Série 2, 1993, p.26). Uma personagem que é um tanto indecifrável para si mesma, experimentando um relacionamento que exige dela uma aprendizagem: tornar-se outra, tornar-se livre.

É necessário notar ainda que a este início, Clarice Lispector dá o título "A origem da primavera ou a Morte necessária em pleno dia". Como no título do livro, há a dificuldade de encontrar o nome específico: afinal, dar nome à difícil aprendizagem de se construir indivíduo é tarefa delicada - chamar as coisas pelo nome é entrar em contato com sua essência e isso implica em responsabilidade.

Imagem: www.gettyimages.com.br

2 comentários:

  1. E "Ulisses", na mitologia, é aquele que negou o seu nome, quando enganou o ciclope dizendo que se chamava "Ninguém". (o que deu um baita pano pra manga na análise de Adorno&Horkheimer).

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  2. É mesmo!
    Nas seções seguintes, acho que comento bem brevemente o fato dele se chamar Ulisses, e também do nome da Lóri, que é Loreley, ser o nome de uma figura lendária, que seduz marinheiros, levando-os ao fundo do mar (o que remete, mais uma vez, ao tema da Odisséia e da travessia).

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