quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Meu nome é eu (2)



(para ler a primeira parte, clique aqui).


Como já comentei, nesse início Lóri está indecisa e isso acaba por colocar a narrativa em uma espécie de suspensão: é preciso que ela decida para que o livro aconteça. Já no título desse "capítulo" (A origem da Primavera ou A morte necessária em pleno dia), Clarice nos dá a pista de que a personagem dirá sim, dando origem à sua jornada na direção de seu renascimento. Nesse título, Clarice anuncia que irá narrar um desabrochar.

A referência ao tempo cíclico da natureza é prenúncio, ainda, do longo processo até a conquista do que se deseja: é inútil tentar adiantar as coisas: elas levam tempo para serem gestadas - o que mais uma vez nos remete à condição feminina de Lóri - e tornadas realidade.

O romance começa no verão e durante o livro temos a referência constante às estações. O tempo da construção do indivíduo, nesse livro, parece não caber no tempo homogêneo e linear; há que existir a possibilidade de experiência de outra temporalidade, porque é nela que parece estar contida a possibilidade mesma de exercício de liberdade.

O resgate daquilo que é cíclico e orgânico, em tempos de racionalidade e desencanto (Max Weber. Ciência e Política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1970), fala da inteireza buscada por ela e por Ulisses:

- Lóri, disse Ulisses [...] foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também (p.33).

O amor de Ulisses, provocador nas condições que coloca antes de se efetivar em uma relação sexual, torna-se motivo e apoio para que Lóri realize a travessia que a levará até um "eu". Mas, como Ulisses não cansa de reiterar, Lóri deverá empreender a travessia sozinha.

Como contraponto a essa mulher e aos processos de assunção de si mesma que a personagem permite discutir, temos Susan Rawling, a personagem do conto de Doris Lessing.

Suponho que esta seja uma história sobre um fracasso em inteligência: o casamento dos Rawlings era baseado em inteligência (p.360).

Introduzindo o conto dessa maneira, é interessante notar como em poucas linhas Doris Lessing ao mesmo tempo que confere um caráter ao casamento dos Rawlings, assume a perspectiva das personagens quando se pensam como inteligentes e pensam seu casamento como fruto de escolhas racionais: o fracasso, desse modo, está na inteligência, isto é, nas razões que deram forma ao casamento. Esta introdução também é importante porque explicita o fio a partir do qual a história será contada.

Tudo na vida do casal, até mesmo o encontro de ambos, parece dotado do tom de que "é assim que as coisas devem ser". Ambos são adultos e bem sucedidos quando se apaixonam; têm suas próprias casas, mas ao casar decidem se mudar para uma terceira, para que não houvesse "[...] uma submissão da personalidade da parte daquele a quem o apartamento não pertencia" (p.361). Até mesmo a ordem de nascimento dos filhos parece ser premeditada: "[...] aquela consciente e equilibrada família não era mais do que lhes era devido por causa do infalível senso que tinham de escolher certo", (p.361 - grifos do original).

Susan Rawlings consiste em contraponto interessante à Lóri porque não sofre na mesma inadaptação às exigências da vida prática. Ao contrário: no início do conto, a encontramos perfeitamente integrada à realidade cotidiana: casada, com seus quatro filhos, sua casa com jardim, com seus sonhos e desejos parcialmente realizados, e até mesmo consciente do "no entanto" que é inclusive esperado, já que a vida que escolheram continha em si mesma um período de previsível estagnação.

É interessante notar em que termos as dúvidas serão colocadas:

E se achassem que simplesmente aquele amor não era bastante forte, bastante importante, para sustentar toda a organização, de quem era a culpa? Certamente não de Susan ou de Matthew. Estava na natureza das coisas. E sensatamente os dois não culpavam a si mesmos nem um ao outro.
Pelo contrário, eles usavam sua inteligência para preservar o que tinham criado num mundo doloroso e explosivo: olhavam em seu redor e aprendiam lições,
(p.362).

Temos aqui uma concepção de mundo radicalmente oposta à que aparece no romance de Clarice. Enquanto lá as personagens estão ligadas ao ciclo orgânico da vida, em busca de encontrar o que desejam para, só então, ser, aqui temos um casal integrado aos ciclos socioculturais da vida, com sonhos e desejos conformados ao que deve ser sonhado e desejado por pessoas de sua classe e idade. Eles são vistos como paradigma de sucesso simplesmente por encarnarem à perfeição os papéis e funções que se esperam deles. Para usar uma imagem, enquanto Ulisses e Lóri parecem mergulhar nas entranhas da vida em sua busca pela intensidade, Matthew e Susan deslizam pela pele da vida, em sua busca pela linearidade tranquila do que é esperado e previsível.

A diferença entre os textos se dá também no desenrolar da narrativa pois, enquanto Clarice narra a construção de um "eu", o conto de Doris Lessing narra o esfacelamento de um "eu", incapaz de produzir-se a si mesmo em desacordo. Enquanto Lóri, à primeira vista uma personagem em descompasso com o mundo, logra construir uma integração (que talvez seja mais precisamente um processo de tornar-se íntegra, inteira), Susan, aparentemente muito mais integrada, é quem vê fracassar seus esforços de manter-se assim.

Nome é reconhecimento e Susan progressivamente deixará de se reconhecer em seus papéis e, então, deixará de reconhecer-se a si mesma. Fora de seus papéis, ela perderá sua coerência, tornando-se irracional.

Mas mesmo para se reconhecer como louca, ela espera a imagem que o marido lhe reflete: em duas cenas, ela está sentada à frente do espelho e estranha o descolamento entre a imagem refletida e aquilo que lhe vai por dentro; é o descolamento entre "aparência" e "essência" que lhe dá a medida da insanidade. Não seria possível pensar que a insanidade não está essencialmente nela, mas na insistência com que tenta permanecer fiel ao discurso que faz sobre si mesma e suas escolhas?

Certamente esses dois indivíduos chamados Susan e Lóri estão marcados também por sua condição feminina: são também duas mulheres lutando com os contornos de seu gênero, com as especificidades que a ele são atribuídas.

Especificidade que, segundo Maria Rita Kehl consiste na

[...] dificuldade que enfrenta em deixar de ser objeto de uma produção discursiva muito consistente, a partir da qual foi sendo estabelecida a verdade sobre sua 'natureza', sem que se tivesse consciência de que aquela era a verdade do desejo de alguns homens - sujeitos dos discurso médico e filosófico que constituem a subjetividade moderna - e não a verdade 'da mulher', (Deslocamentos do feminino. Rio de Janeiro: Imago, 1998, p.35).

Os nomes nos são dados, sem que possamos opinar sobre eles. E se tornam um dos fatores centrais à constituição de nossa identidade. Lóri, em seu processo, passa pela assunção de seu nome até que ele deixe de ser uma prisão e possa se desdobrar em tantos quanto ela deseja: Lóri se torna um "eu" livre para procurar "um significante que a realize" (Maria Rita Kehl, p.35). Susan, ao contrário, está presa a seu nome, a seus papéis, está fixada às escolhas que fez e ao que parece ter se tornado: o que a sufoca é a rigidez dessa estrutura (não à toa, o sufocamento será a maneira com que escolhe morrer).

Essas são, portanto, as personagens; resta-nos agora conhecer seus diferentes destinos.

Imagem: www.gettyimages.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário