sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Meu nome é eu (3)


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(III) - Loreley

[...] estava na hora de se vestir: olhou-se ao espelho e só era bonita pelo fato de ser uma mulher: seu corpo era fino e forte, um dos motivos imaginários que faziam com Ulisses a quisesse; escolheu um vestido de fazendo pesada apesar do calor, quase sem modelo, o modelo seria seu próprio corpo [...], (p.23).

Como já observei, todo o romance de Clarice Lispector está centrado na vida interior da personagem, Lóri. Nas páginas iniciais, no entanto, o narrador demonstra grande preocupação em esboçar as linhas gerais da personagem. Assim, das páginas 19 a 33, a partir da narração da cena na qual a personagem tenta se decidir sobre o encontro com Ulisses, Lóri vai se apresentando como uma pessoa, concreta.

No entanto, a personagem não chega a ser descrita. Sabemos de seus cabelos castanhos, mas não chegamos a saber mais nenhum detalhe. O narrador observa que a personagem é bonita pelo simples fato de ser mulher; não é pouca coisa. Nessas páginas iniciais, Clarice nos apresenta uma personagem muito preocupada com as formas, com a adequação aos estereótipos do feminino: vestidos justos, perfumes e um zelo excessivo em relação à aparência e ao desejo do outro - esse outro a quem tenta seduzir. No início, esta é a maneira pela qual Lóri lida consigo mesma, com sua feminilidade e com o outro.

Ainda que Clarice esteja nos falando da feminilidade desajeitada de Lóri, não é apenas disso que fala. Em meio a estas páginas iniciais, encontra-se um trecho que Clarice posteriormente publicaria em sua coluna de crônicas [In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Racco, 1998], sob o título "A condição humana':

E pelo fato mesmo de se haver visto ao espelho, sentiu como sua condição era pequena porque um corpo é menor que o pensamento - a ponto de que seria inútil ter mais liberdade: sua condição pequena não a deixaria fazer uso da liberdade. Enquanto a condição do Universo era tão grande que não se chamava condição. A condição humana de Ulisses era maior que a dela que, no entanto, tinha um cotidiano rico. Mas seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguia acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais. (O paradoxo é que deveria acertar de bom grado sua condição de manca, porque isto também fazia parte de sua condição.) (Só quando queria andar certo com o mundo é que se estraçalhava e se espantava). E de repente sorriu para si própria com um riso amargo, mas que não era mau porque também ele era de sua condição, (p.27-8).

Temos assim uma relativização da condição feminina; temos aí uma Lóri que é sobretudo um indivíduo descompassado com o mundo, que se sente prisioneiro da própria condição. Não se trata nem mesmo de maior ou menor liberdade, pois primeiro é necessário libertar-se da própria condição ou, ao menos, do medo que se tem dela.

Mas que condição é esta? Essa talvez seja a pergunta sociologicamente relevante, pois parece-me possível pensar que se trata da condição do indivíduo aprisionado ao discurso sobre si mesmo; é uma condição de conformação aos limites das formas legitimadas de experiência de si. Lóri apresenta-se como uma mulher tensa porque mesmo sua passividade é intranquila; ela como que pressente as imensas possibilidades que sua ousadia poderia abrir. Clarice nos confronta com a localização dessa questão em Lóri logo nas primeiras páginas e nos enreda por meio de uma questão: quem é Lóri a partir do momento em que recusa ser o que é? Pois a pergunta que dá início à jornada é aquela feita por Ulisses: quem você quer ser?

O amor de Ulisses é a força que impulsiona Lóri a ser diferente de si mesma. Porque se trata de um amor libertador, que busca conciliar o desejo - que está ao rés-do-chão (cf. Marilena Chauí. Os laços do desejo. In: Adauto Novaes (org.). O Desejo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990) - e um amor que é amor pelo humano e suas possibilidades. Ulisses tenta colocar Lóri na trilha de um caminho que a levará a apropriar-se do discurso sobre si mesma, sobre seu desejo, modificando a experiência de sua constituição como sujeito. Assim como para a criança pequena, um dos últimos sinais de aquisição da linguagem oral é referir-se a si mesma como "eu", Lóri precisará reconquistar a linguagem para descrever e identificar a si mesma.

O processo é lento e Ulisses é um tutor amoroso e paciente:

[...] Eu não dou conselhos a você. Eu simplesmente - eu - eu acho que o que faço mesmo é esperar. Esperar talvez que você mesma se aconselhe, não sei, Lóri, juro que não sei, às vezes parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito de usar o tempo: o de te esperar, (p.64).

Ulisses a convida a praticar uma espécie de ascese quando se recusa a ter relações com Lóri até que ela esteja inteira. Ele é um homem livre e deseja estar com alguém em condição de igualdade, alguém igualmente livre: maior que seu desejo por Lóri e o desejo de que sua união seja fruto de um ato de liberdade.

Lóri reconhece a necessidade de ser "eu" antes de ser "nós":

Mas também sabia de uma coisa: quando estivesse mais pronta, passaria de si para os outros, o seu caminho era os outros. Quando pudesse sentir plenamente o outro estaria salva e pensaria: eis meu porto de chegada.
Mas antes precisava tocar em si própria, antes precisava tocar o mundo,
(p.67).

Reitera-se aqui a necessidade de constituição de uma integridade autônoma, que permita estar no mundo sem se deixar estraçalhar por ele, sem fragmentar-se em tarefas e papéis cotidianos.

É uma pena que seu apelido seja Lóri, porque seu nome Loreley é mais bonito. Sabe quem era Loreley? - Era alguém? - Loreley é o nome de um personagem lendário do folclore alemão, cantado num belíssimo poema de Heine. A lenda diz que Loreley seduziu os pescadores com seus cânticos e eles terminavam morrendo no fundo do mar, (p.114).

Ulisses apresenta Lóri à história de seu nome. E vale destacar que se trata de uma história que, de certo modo, também diz respeito a ele, já que sabemos que, na Odisseia, Ulisses se amarra ao mastro do navio para ouvir os belos cantos das sereias, sem sucumbir a eles. Ulisses, do romance de Clarice Lispector, vê a beleza de Lóri, mas resiste e espera até que ela esteja pronta.

Há mais: enquanto, na Odisseia, Ulisses empreende a viagem enquanto Penélope espera, no romance de Clarice tais papéis se invertem: Ulisses estimula Lóri a empreender a travessia, enquanto ele é quem espera. O reencontro se dá ao fim da viagem de Lóri, quando esta conquista a liberdade de ser um "eu", ao mesmo tempo aproximando-se de sua essência e percebendo a imensa liberdade que reside no fato de ser uma "essência" esvaziada de significantes.

Ora, esta é justamente a liberdade que falta à Susan Rawling.

Imagem: www.gettyimages.com.br

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