segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Meu nome é eu (4)

(clique aqui para ler as partes 1, 2 e 3)

Susan Rawling, do conto "Quarto 19", de Doris Lessing, divide-se entre variados papéis: mãe, esposa, patroa. São papéis que lhe ocupam a todo o tempo, inclusive durante as férias, quando está longe dos seus mas continua a sentir o peso dos papéis nos compromissos ritmados pelos que ficaram:

Susan perambulava pelos campos agrestes com o fio do telefone prendendo-a às suas obrigações como uma correria. O próprio telefonema que tinha que dar, ou quando aguardava que lhe telefonassem, pregava-a na sua cruz, (p.380).

De fato, a partir do momento em que as crianças saem de casa para ir à escola, Susan começa a tomar consciência de que sua vida esteve pautada pela assunção racional de todos os papéis que "lhe cabiam". Até mesmo a crise pelo crescimento dos filhos ou a dor de se tornar menos necessária estão previstos nos cálculos dos Rawlings:

Culpa de ninguém, nada de errado, ninguém a censurar, ninguém para oferecer e receber... e nada errado, exceto que Matthew nunca era realmente possuído de alegrias, como o desejava; e que Susan cada vez mais e mais frequentemente era ameaçada pelo vazio. [...] Um preço alto tem que ser pago por um casamento feliz com quatro crianças saudáveis na grande casa branca com jardim.
E eles pagavam o preço, de boa vontade, sabendo o que estavam fazendo,
(p.366).

Os Rawlings pretendem conhecer e saber lidar com tudo o que lhes acontece; afinal, são pessoas inteligentes que conhecem o mundo e a ordem das coisas. E porque a razão - ou, melhor dizendo, a razão instrumental - é o princípio da vida de ambos, eles se desvinculam um do outro tão logo tal razão perde sua eficácia: inadaptada à ordem das coisas, Susan se tornará "louca", "perderá" a razão.

O nome de Susan se torna invólucro a partir do momento em que ela não se ajusta mais à ordem das coisas; seu nome passa a envolver somente os papéis que ela se vê obrigada a desempenhar, sempre da mesma maneira, e é então que ela procura abrigo num espaço de vazio e silêncio, que lhe permita sentir e fazer nada. Reconhecer-se no espelho como louca dá à Susan alguma liberdade, e ela assume seu desejo de estar sozinha, alugando o "Quarto 19" que dá título ao conto.

Nesse espaço de segredo, no qual Susan não precisa ser ninguém, ela encontra uma espécie de paz:

O que fazia Susan no quarto? Absolutamente nada. Da poltrona, quando se sentia repousada, ia até a janela, estirando os braços, sorrindo, amando seu anonimato, e espiava para fora. Não era mais Susan Rawlings, mãe de quatro filhos, mulher de Matthew, patroa da Sra. Parkes e de Sophie Traub, com essas e aquelas relações com amigos, professores comerciantes, (p.385, grifo meu).

Amando seu anonimato, experimentando a liberdade de ser qualquer outra além de seus papéis, Susan abriu espaço para que pudesse se sentir ela mesma - "Sim, aqui estou eu, e se nunca mais tornasse a ver ninguém da minha família, eu ainda seria..." (p.386). O anonimato, isto é, a ausência ou a supressão do nome, é algo a ser buscado e amado por esta mulher que por tanto tempo viveu a absurda situação de ser somente o conjunto dos papéis que lhe atribuíam e das relações que conformavam sua posição e situação ainda mais absurda de tentar fazer coincidir sua dimensão humana com as expectativas de outros em relação a ela.

Podemos ir mais longe: Susan expressa que a teatralização das relações sociais é cruel para aqueles que não vivem um cotidiano rico o suficiente, a ponto de preencher seu espaço íntimo: Susan sente o vazio assustador de uma existência inteiramente voltada para fora, justo no momento em que faltam os atores que davam sentido a um de seus principais papéis - uma mãe o é em relação aos filhos.

A questão do outro também está inscrita no conto de Doris Lessing, embora aqui o outro seja um opressor. Relacionando o romance de Clarice e o conto de Lessing, enquanto Ulisses oferece à Lóri um espelho no qual ela deve se reconhecer e assim ser capaz de decidir quem é, Susan sofre porque perde aqueles que lhe dão certeza de quem é. Nenhuma das duas sabe quem é, mas Lóri constrói uma aprendizagem porque nada sabe claramente, enquanto Susan teria que viver este não-saber como fundador de algo novo, ao invés de signo de sua loucura. Para Lóri, há um mundo a conhecer e erigir; para Susan, o que resta é um mundo em ruínas.

Susan se mantém viva por um tempo devido a seu segredo. seu quarto 19, sua solidão, sua "irracionalidade" são elementos de seu segredo: não pertencem a nenhum papel e nem se encaixariam em algum deles. Porém, todo esse arranjo provisório se desfaz quando seu marido lhe descobre o esconderijo:

Ela subiu para se sentar na sua poltrona de vime. Mas não era a mesma coisa. Seu marido tinha descoberto seu esconderijo. (O mundo descobrira seu esconderijo). as pressões haviam voltado, (p.389).

A paz, a partir daí, se desfaz progressivamente pois, ao voltar para casa, Susan se apercebe de que a casa se estruturou sem ela, as funções de seus papéis sendo parcialmente desempenhadas pela empregada ou pela moça au pair. Susan se torna mais sozinha do que nunca pois que, além de representar seus antigos papéis, a descoberta do marido lhe obriga a inventar um amante - algo mais racional e aceitável (mais na ordem das coisas, portanto) do que a simples vontade de ficar sozinha. Nesse momento, Susan se dá conta de forma violenta de toda a irracionalidade presente na forma com que viveu sua vida:

Por dentro, sentia-se dissolver em horror de si mesma e dele, do quanto tinham se distanciado da honestidade de emoção, (p.394).

A expressão que Doris Lessing emprega é exata: dissolução. A descoberta feita pelo marido expõe de maneira radical os limites da experiência de Susan, e marca o ponto final da possibilidade que a personagem continue a viver daquela maneira. É então que ela opta, suicidando-se no quarto 19.

Imagem: www.gettyimages.com.br

2 comentários:

  1. Nossa, Bi, tô lendo o Zizek e relembrando todos os conceitos lacanianos... Esse conto da Doris Lessing daria uma bela interpretação psicanalítica!!

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  2. Ôba! Se quiser, te passo o conto ;-)
    Beijoca.

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