terça-feira, 8 de setembro de 2009

O Enigma Clarice

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.
Alguns poucos escritores possuem a capacidade de terem vivido uma vida tão interessante quanto sua obra. Não que uma dependa da outra (Jorge Luis Borges, por exemplo, passou a vida trancado numa biblioteca, e sua obra é monumental), pelo contrário; nós aqui sempre desconfiamos das interpretações de uma pela outra (a vida pela obra, ou a obra pela vida), quanto mais porque o grosso da interpretação "sociológica" da literatura consiste basicamente em recobrir o "campo" ou as condições sociais como determinantes da construção do texto, esquecendo-se muitas vezes de olhar para o próprio texto, como se este fosse mero reflexo do social. Eu, pelo menos, sempre achei mais interessante o movimento que, a partir do texto, permite iluminar aspectos do social que este - o texto - dá a conhecer melhor.

E no entanto, estou aqui a indicar uma entrevista com um autor de uma nova biografia sobre Clarice Lispector, esta que, como poucos, tem uma obra tão enigmática - no sentido de desafiadora, de impossível de ser exaurida, no sentido de que muitas vezes vale mais experienciá-la do que interpretá-la - quanto sua própria vida. Talvez exatamente por esse caráter de enigma, que sugere que novas chaves interpretativas são muito bem-vindas, as propostas por Benjamin Moser me pareceram interessantes.

A primeira particularidade desta nova biografia é a nacionalidade de seu escritor: Moser é texano, e Why This World foi escrito em inglês - o lançamento em português já está prometido pela Cosac & Naify.

Segundo o autor, a mãe de Clarice contraiu sífilis após ser estuprada num pogrom bolchevique na Ucrânia. Clarice, ou Chaya (vida, em hebraico) foi concebida para salvar sua mãe, de acordo com uma crença local de que a gravidez purificava o corpo da mulher. Esta marca de nascimento - a impossibilidade de salvar a mãe - teria marcado também o impulso de escrever de Clarice, como uma busca impossível de salvar a si mesma pela literatura.

Outra chave interpretativa apontada por Moser é a inserção de Clarice numa longa linha do misticismo judaico, caráter que, até onde sei, foi desprezado pelos intérpretes nacionais.

Seja como for, as resenhas elogiosas ao livro publicadas na imprensa estrangeira servem para, pelo menos, reconduzir Clarice ao panorama literário mundial. Ela que, sem dúvida, é uma de nossas escritoras mais universais, merece desconcertar também leitores de outras paragens.

Link para a entrevista com Benjamin Moser

Nenhum comentário:

Postar um comentário