sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Linguagem e Literatura

Ao analisar a transformação da análise das riquezas em economia política, da história natural em biologia, e da gramática geral em filologia, em As Palavras e as Coisas, Foucault apresenta os conceitos de trabalho, vida e linguagem, respectivamente, como o fundo novo a partir do qual cada uma dessas novas ciências foi constituída, desfazendo assim o saber clássico calcado na representação. Com isso, desaparece também o primado da linguagem. Antes ela exercia um papel privilegiado, pois que se apresentava como o próprio saber sobre a representação. Agora ela se torna também um objeto de saber, equivalente aos outros. Entretanto, Foucault aponta três "compensações" quanto à linguagem, sendo que a terceira delas é o aparecimento da literatura. "Finalmente, a última das compensações ao nivelamento da linguagem, a mais importante, a mais inesperada também, é o aparecimento da literatura. Da literatura como tal, pois, desde Dante, desde Homero, existiu realmente, no mundo ocidental, uma forma de linguagem que nós, agora, denominamos 'literatura'. Mas a palavra é de recente data, como recente é também em nossa cultura o isolamento de uma linguagem singular, cuja modalidade própria é ser 'literária'"[1]. Esse o ponto principal, já anunciado no capítulo 2, que tratava das representações: a literatura reconstitui o ser da linguagem. É de uma nova linguagem que se trata. "É que, no início do século XIX, na época em que a linguagem se entranhava na sua espessura de objeto e se deixava, de parte a parte, atravessar por um saber, ela se reconstituía alhures, sob uma forma independente, de difícil acesso, dobrada sobre o enigma de seu nascimento e inteiramente referida ao ato puro de escrever. A literatura é a contestação da filologia (de que é, no entanto, a figura gêmea): ela reconduz a linguagem da gramática ao desnudado poder de falar, e lá encontra o ser selvagem e imperioso da palavra"[2]. A literatura nega a filologia porque é a própria independência da linguagem: refere-se apenas a si mesma e não tem mais nenhuma lei externa. A literatura nega a linguagem como objeto (levando o pensamento ao extremo, pode-se dizer, ainda que temerariamente, que a literatura é a linguagem tornada sujeito). "(...) a literatura se distingue cada vez mais no discurso de idéias e se encerra numa intransitividade radical; destaca-se de todos os valores que podiam, na idade clássica, fazê-la circular (o gosto, o prazer, o natural, o verdadeiro) e faz nascer, no seu próprio espaço, tudo o que pode assegurar-lhe a denegação lúdica (o escandaloso, o feio, o impossível); (...) torna-se pura e simples manifestação de uma linguagem que só tem por lei afirmar - contra todos os outros discursos - sua existência abrupta"[3]. A literatura como que orbita num universo que é apenas seu, construído e mantido por si mesma. A sua única referência possível é o ato da escrita, que é a gênese desse universo já independente. Esse ato singular inaugural, entretanto, já almeja o universal: "nessas condições, não lhe resta senão recurvar-se num perpétuo retorno sobre si, como se seu discurso não pudesse ter por conteúdo senão dizer sua própria forma: endereça-se a si como subjetividade escriturante, ou busca capturar, no movimento que a faz nascer, a essência de toda literatura; e assim todos os seus fios convergem para a mais fina ponta - singular, instantânea, e contudo absolutamente universal -, para o simples ato de escrever"[4]. Eis que, no momento em que a linguagem se torna mero objeto da filologia, o seu ser puro reaparece em outro lugar. "No momento em que a linguagem, como palavra disseminada, se torna objeto de conhecimento, eis que reaparece sob uma modalidade estritamente oposta: silenciosa, cautelosa deposição da palavra sobre a brancura de um papel, onde ela não pode ter nem sonoridade, nem interlocutor, onde nada mais tem a dizer senão a si própria, nada mais a fazer senão cintilar no esplendor do seu ser".[5]

[1] FOUCAULT, Michel: As Palavras e as Coisas. São Paulo, Martins Fontes, 1992. p. 316.
[2] Idem, ibidem.
[3] Idem, ibidem.
[4] Idem, pp. 316-317.
[5] Idem, p. 317.

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Apesar desse texto ter sido escrito há algum tempo, não classifiquei como "requentado" porque nunca fui publicado sob nenhuma forma.

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