sábado, 12 de setembro de 2009

Realização da Ficção e Ficções do Real


Pensando sobre o que poderia escrever aqui, em relação ao 11 de setembro, confesso que tive alguma dificuldade em definir qual caminho seguir: muito já foi dito a respeito e, a despeito de uma vaga sensação de irrealidade que a evocação da lembrança e das imagens trazem, tantos foram os desdobramentos desde aquele momento em que os ataques ocorreram que a realidade mesma dos ataques parece ter ficado subsumida na continuidade da passagem do tempo.

Passados oito anos, pensar o 11 de setembro é mais que pensar sobre seus possíveis significados: é também pensar sobre o que ele iniciou, sobre as mudanças que introduziu no campo das possibilidades, isto é, nas alterações que ele provocou em nossa forma de experimentar o presente.

O post do Edu, escrito no calor da hora, nos oferece pistas importantes: a cidade como preparação para a guerra; o elemento surpresa que consistiu simplesmente em realizar os riscos que virtualmente estão presentes no prédio, na viagem de avião, na comunicação instântanea. Há também a amplificação do evento, na multiplicação de imagens que ao mesmo tempo que registravam o ocorrido, nos distanciavam dele, transformando-o em espetáculo, filtrando-o pela mediação da imagem. O irrepetível do acidente foi substituído pela infinita repetição das imagens dos aviões colidindo com as torres - como se rever pudesse levar a alguma pista sobre os significados de tudo aquilo. Mas o significado, como sabemos, não estava na própria imagem e sim nas análises feitas e nas decisões que foram tomados após os ataques.

De certa maneira, o sucesso do modelo da série de TV 24 Horas, lançada pouco após os ataques (novembro de 2001) é indicador de que uma das possibilidades aventadas pelo Edu acabou se concretizando: estrelada pelo agente Jack Bauer (Kiefer Sutherland), a série leva a preocupação com a segurança até os limites do paroxismo, explicitando os riscos e perigos de cada atividade cotidiana de uma cidade grande. Além disso, a despeito da série tomar como ponto de partida a campanha presidencial que elegeria o primeiro presidente negro da história dos EUA - o Presidente Palmer - a trajetória de Bauer, progressivamente à margem da lei, a quem se dá carta-branca para fazer tudo o que é necessário, desde que isso resulte em informações que significam "salvar milhões de vidas", segue de perto a hipocrisia do próprio Estado em estimular a burla a todo e qualquer direito humano em nome da proteção de "inocentes" (termo que reiteradamente aparece na série). A série, com 24 episódios, a cada temporada narra um dia na vida de Jack Bauer, desfiando um rol de situações impossíveis que, no entanto, acontecem.

Em 11 de setembro de 2001, não foi justamente essa a situação? Não foi justamente que o impossível aconteceu?

Apesar de impossível, dos ataques não se pode dizer que eram exatamente impensáveis. Como Slavoj Zizek já notou (em seus ensaios sobre o assunto, publicados em Bem-vindo ao deserto do real. São Paulo: Boitempo, 2003), junto com a sensação de terror diante das cenas, havia também uma outra sensação, estranha: "onde é que já vi isso antes?". Pois quase todos os filmes de catástrofes e ataques alienígenas já tinha destruído cidades e seus ícones, atacando ao mesmo tempo os monumentos arquitetônicos e a sociabilidade que eles representam e suportam. A ficção já realizara tais feitos diversas vezes, mas é claro que nós sabemos como separar realidade e ficção. Se é assim, então porque a incômoda sensação de que, a despeito de que daquela vez era realidade, aquilo já tinha sido visto?

Uma possível resposta, a meu ver, encontra-se em parte naquilo que o Edu comentou: a genialidade (do mal) dos ataques foi a de realizar as virtualidades dos riscos presentes em nossas sociedades. Mas talvez seja necessário sublinhar que trata-se de uma virtualidade em duplo sentido: a virtualidade dos riscos - o risco que sempre há de que um prédio desabe; o risco que sempre existe de que um avião caia; o risco de que um acidente em um prédio lotado, localizado em meio a um lugar de trânsito intenso machuque muita gente... - e a virtualidade das imagens que fazem a mediação de nossa relação com a cidade e com a própria realidade. Os ataques foram "realizados" também por meio de sua rápida disseminação e amplificação, como se imediatamente codificados por uma mediação que lhes conferisse sentido (sobre o tema da bifurcação do real na virtualidade das probabilidades e das imagens, ver Susan Sontag. AIDS e suas metáforas. São Paulo, Companhia de Bolso, 2007). É muito interessante que a maior parte das imagens tenha sido filmada com foco nas torres - no youtube, há cenas dos mais variados ângulos, de diversos pontos da cidade, mas quase todas se concentram nos prédios. As pessoas eram secundárias nos ataques, como se fossem todos figurantes dos filmes de catástrofe, em que apesar das tragédias serem grandes, a história é contada com preocupação somente sobre um núcleo de protagonistas. O que também explica a explosão de programas e documentários realizados depois, para registrar a memória dos "heróis anônimos", que sobreviveram e que em meio à confusão da tragédia, encontraram forças para "fazer diferença".

Os ataques deram ao mundo, e sobretudo aos EUA, a chance de repensar os limites da experiência do presente. No entanto, foi uma chance desperdiçada: apesar da eleição recente de Obama, que de novo parece ter aberto as possibilidades de transformação, nos últimos oito anos o que vimos foi a reafirmação da paranóica expectativa de que alguma coisa ruim está prestes a acontecer e a paranóica preparação para lidar com seu acontecimento e suas consequências. É como se vivessemos sempre à espera de que se realize o "worst case scenario", o que justifica variadas formas de controle e esforços para reassegurar a ilusão de segurança perdida.

Desde o 11 de setembro de 2001, ninguém mais é inocente.

PS: na próxima semana, volto ao tema, comentando um pouco sobre os significados possíveis das diversas teorias da conspiração e suas tentativas de modificar o sentido dos ataques.

Imagem: do filme "O dia depois de amanhã", daqui.

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