segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sade e o fim da representação

A primeira parte de As Palavras e as Coisas é dedicada à configuração do saber na Idade Clássica, dominado pela representação. Foucault narra primeiramente a transição do saber da semelhança para o saber da representação. A figura que marca essa transição é a do Quixote. Da mesma maneira, quem marca o final da representação é o Marquês de Sade.
"Todo o sistema clássico da ordem, toda essa grande taxinomia, que permite conhecer as coisas pelo sistema de suas identidades, se desdobra no espaço aberto no interior de si pela representação, quando ela se representa a si mesma: o ser e o mesmo têm aí seu lugar. (...) O fim do pensamento clássico (...) coincidirá com o recuo da representação. (...) [A representação] será duplicada, limitada, guarnecida, mistificada talvez, regida, em todo caso, do exterior, pelo enorme impulso de uma liberdade, ou de um desejo, ou de uma vontade que se apresentarão como o reverso metafísico da consciência. Alguma coisa como um querer ou uma força vai surgir na experiência moderna - constituindo-a talvez, assinalando, em todo caso, que a idade clássica acaba de terminar e com ela o reino do discurso representativo, a dinastia de uma representação significando-se a si mesma e enunciando, na seqüência de suas palavras, a ordem adormecida das coisas. Essa reviravolta é contemporânea de Sade. Ou, antes, essa obra incansável manifesta o precário equilíbrio entre a lei sem lei do desejo e a ordenação meticulosa de uma representação discursiva".
(FOUCAULT, Michel: As Palavras e as Coisas. São Paulo, Martins Fontes, 1992. pp. 223-224)
Este é o cerne da interpretação foucaultiana, que pretende colocar Sade no limiar entre o fim da Idade Clássica, ainda preso a ela mas anunciando o seu fim, e a experiência moderna, como o seu inaugurador. Porque em Sade a ordem clássica ainda tem validade, ao mesmo tempo que irrompe uma experiência do desejo. Sade é o último libertino, pois depois dele o mundo do desejo ficaria preso nas figuras da sexualidade: "o libertino é aquele que, obedecendo a todas as fantasias do desejo e a cada um de seus furores, pode, mas também deve esclarecer o menor de seus movimentos por uma representação lúcida e voluntariamente operada. Há uma ordem estrita da vida libertina: toda representação deve animar-se logo no corpo vivo do desejo, todo desejo deve enunciar-se na pura luz de um discurso representativo" (Idem, p. 224). Donde a sucessão das "cenas" meticulosamente montadas por Sade, que encontram sua expressão mais acabada com La Philosophie dans le Boudoir. "Daí essa sucessão rígida de 'cenas' (a cena, em Sade, é o desregramento ordenado à representação) e, no interior das cenas, o equilíbrio cuidadoso entre a combinatória dos corpos e o encadeamento das razões" (Idem, ibidem).

Ordem e caos convivem simultaneamente no mundo sadeano. Pois "a lei sem lei do desejo" deve ser ordenada e meticulosamente arquitetada de modo a que esse desejo seja satisfeito sem freios (não é outra coisa a metáfora do boudoir, é preciso insistir). Por isto Juliette e Justine estão, no nascimento da cultura moderna, na mesma posição que o Quixote estava com relação ao nascimento da época clássica. Elas já anunciam o fim da representação e os seus limites: "trata-se da obscura violência repetida do desejo que vem vencer os limites da representação" (Idem, p.225). Pois se o desejo está no centro do surgimento da modernidade, ele será em seguida codificado não mais em termos de ordem submetida às suas leis irrefreáveis (como o era em Sade), mas na frieza de uma sexualidade entendida como dispositivo de construção de subjetividades sujeitadas.
"Justine (...) é objeto indefinido do desejo, do qual é pura origem (...). Em Justine, o desejo e a representação só se comunicam pela presença de um Outro que se representa a heroína como objeto de desejo, enquanto ela própria só conhece do desejo a forma leve, longínqua, exterior e gelada da representação. Este o seu infortúnio: sua inocência permanece sempre como um terceiro entre o desejo e a representação. (...) Já Juliette nada mais é que o sujeito de todos os desejos possíveis; mas esses desejos são retomados por inteiro na representação que os funda arrazoadamente em discurso e os transforma voluntariamente em cenas. De sorte que a grande narrativa da vida de Juliette desenrola, ao longo dos desejos, das violências, das selvagerias e da morte, o quadro cintilante da representação. (...) Juliette esgota essa espessura do representado, para que aí aflore, sem a menor falha, a menor reticência, o menor véu, todas as possibilidades do desejo" (Idem, p. 225).
Assim, a narrativa sadeana "fecha a idade clássica sobre si mesma". Vive ainda sob a primazia do nome, mas "ao mesmo tempo reduz essa cerimônia ao máximo (chama as coisas pelo seu nome estrito, desfazendo assim todo o espaço retórico) e alonga-a ao infinito (nomeando tudo, e sem esquecer a menor das possibilidades). (...) Sade atinge a extremidade do discurso e do pensamento clássicos. Reina exatamente em seu limite. A partir dele, a violência, a vida e a morte, o desejo, a sexualidade vão estender, por sob a representação, uma imensa camada de sombra, que nós agora tentamos retomar como podemos, em nosso discurso, em nossa liberdade, em nosso pensamento. Mas nosso pensamento é tão curto, nossa liberdade tão submissa, nosso discurso tão repisado que é preciso realmente nos darmos conta de que, no fundo, essa sombra subterrânea é um poço de dificuldades. As prosperidades de Juliette são sempre mais solitárias. E não têm termo" (Idem, p. 226).

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Este trecho é continuação do post anterior, apenas meio requentado, e encerra as minhas postagens sobre As Palavras e as Coisas, certamente um dos mais difíceis, mais enigmáticos e mais intrigantes livros do Foucault. É um pouco triste pensar que hoje me parece que consigo entendê-lo menos do que na época de minha primeira leitura, mas isso é também só um convite para uma releitura completa do livro...

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