terça-feira, 29 de setembro de 2009

Trabalho e Sofrimento

O Edu me mandou hoje uma pequena nota que saiu no blog do Luis Nassif, sobre o impressionante aumento de casos de suicídio entre trabalhadores de uma empresa de Telecomunicações (France Telecom). A empresa, pelo que parece, levou aos limites do insuportável o desenraizamento de seus trabalhadores e de suas famílias.

Pelas informações que a nota traz, já são 34 casos de trabalhadores que se suicidaram após as modificações introduzidas pela empresa - dentre as quais, o imperativo de periódicas mudanças dos trabalhadores e suas famílias, que a cada três anos eram transferidos para outra cidade. Além disso, a nota informa que a empresa estimulou a intensificação do trabalho e a extrema competitividade entre os trabalhadores, quase tornando impossível, portanto, a partir de um quarteto de estratégias diferentes mas complementares, a constituição de solidariedade entre os trabalhadores. Este quarteto seria composto por: rotatividade dos trabalhadores e seu desenraizamento (ambas relacionadas às transferências periódicas); utilização de todas as forças e energias dos trabalhadores (por meio da intensificação do uso de sua mão-de-obra) e aumento da competitividade, que reforça as estratégias anteriores.

A nota me fez lembrar uma palestra que assisti, há vários anos, com o psiquiatra e psicanalista francês, Christophe Dejours (desculpem; só encontrei verbete na wikipédia em francês!). Acho que seu trabalho mais conhecido entre nós é o livro A loucura do trabalho, e este ano, ele publicou (na França, em colaboração com Florence Bègue) um livro chamado Suicídio e trabalho: que fazer?

Lembrei-me dele porque nessa palestra, Dejours relatou vários casos de suicídios relacionados ao sofrimento advindo do trabalho e, mais do que isso, suicídios que ocorriam nos próprios espaços de trabalho. A palestra deve ter sido em 2006, o que significa que tais casos estão longe de ser novidade por lá ou restritos às ações de uma única empresa.

Naquela época, pensava-se que os significados dos suicídios estariam ligados a pressões provocadas pelas mudanças e reestruturações e ao medo do desemprego. A persistência do fenômeno, porém, parece indicar algo diferente e mais profundo: não se trata apenas de uma solução extrema, num momento de tensão, realizada por pessoas em cargos de gerência ou chefia (como, se minha memória não me engana - e com frequência ela o faz... - eram os casos que então Dejours relatava). Trata-se do tipo de resposta que parece possível em um contexto de empresas reestruturadas, transformações nas relações de trabalho (na França, expressa principalmente na pluralização das formas de contratação e no aumento dos Contratos de Duração Determinada - CDD, bem como estágios, treinamentos etc.) e limitações às ações coletivas. Os suicídios parecem ser a face mais visível e cruel dos sofrimentos que passaram a estar ligados ao esvaziamento dos sentidos que se atribuíam ao trabalho - em termos de cultura e identidade profissionais e também de estabilidade e integração social - e à progressiva individualização das responsabilidades.

Se o padrão de utilização da força-de-trabalho parece ter finalmente realizado a aspiração capitalista de transformar o trabalho, a despeito de sua heterogeneidade, em puro labor, os suicídios apontam incisivamente os limites dessa forma para a produção de novas relações sociais, indicando a necessidade de imaginação e criação de relações que não sejam anômicas a ponto dos trabalhadores decidirem deixar de viver num mundo regulado por elas.

Para ler a nota de Luiz Eduardo Brandão, no blog do Nassif, clique aqui.

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