quinta-feira, 10 de setembro de 2009

UP Altas Aventuras (2009)

Resenha
'UP' (veja no IMDB) é a nova animação da Pixar, e que chegou atrasada ao Brasil em relação ao verão americano devido, segundo veiculado, à 'fila' de filmes 3D nas poucas salas 3D existentes. Os filmes da Pixar, os curtas inclusive, são sempre lançamentos altamente esperados devido à façanha da empresa de ano após ano conseguir lançar filmes que estão quase sempre entre o melhor que a indústria do entretenimento norte americano pode fazer, e isso quer dizer que são irresistíveis à maneira de 'Cantando na Chuva', 'ET', 'Noviça Rebelde' ou 'Guerra nas Estrelas'. Feita minha reclamação por ter que esperar quase 3 meses para ver o filme (e resistir à tentação de baixá-lo da internet), UP segue as aventuras de Carl Fredricksen, um viúvo ranheta de 78 anos, em busca da 'selva desconhecida', nas quais terá a companhia de um escoteiro atrapalhado de 8 anos, um cachorro falante, um passarozão, um vilão tipo cientista louco obcecado... (não vou contar mais sobre o que é; pode ir aqui, por exemplo, se quiser ver uma crítica, fotos e traileres).

UP tem os primeiros minutos mais fortes, 'cinematograficamente falando' (alerta de clichê!), desde, sei lá, "O Resgate do Soldado Ryan", ou, para ficar nas animações, desde "Procurando Nemo". Fazer uma abertura forte é um recurso bem usado por Spielberg, por exemplo, desde 'Tubarão' (com a nadadora pelada, a câmara do ponto de vista do tubarão se aproximando...). Ou da abertura maravilhosa de 'Janela Indiscreta', de Hitchcock, onde a câmera passeia por pontos de um apartamento de tal modo que quando ela chega no personagem de James Stewart o filme nem bem começou e já sabemos todos os seus antecedentes, sem usar nenhuma palavra. Se você embarcar na abertura de UP, como eu desbragadamente embarquei, então você já estará com os pontos entregues até o fim, entre perseguições, piadas, referências pop, referências para 'dog-people' ("esquadrão cinza"!), referências para cachorros e momentos emotivos cuidadosamente distribuídos.

Apesar de assumida inspiração em Sir Arthur Conan Doyle (de 'Sherlock Holmes') em 'Mundo Perdido' (não li), selva amazônica e bichos desconhecidos, eu vi pelo menos uma outra referência da 'literatura de aventura' filmada, nada menos que Júlio Verne, com 'Robur le Conquerant (1885)' que na sua adaptação cinematográfica ganhou o título aqui no Brasil de "Robur o Conquistador", de 1961, com Vincent Price como Robur e um jovem e canastrão Charles Bronson como mocinho. Esse filme passava muito na sessão da tarde, e é sobre um malucão (Price, lógico) dono de um dirigível (zepelim) incrementado, tal como o dirigível e o vilão em UP. 'Robur o Conquistador' é como '20.000 Léguas Submarinas' com um dirigível ao invés de submarino.

Em UP, como no já comentado Gran Torino, o protagonista é um velho, e dessa condição é que parte o filme. Mas UP, vamos lá, aí vai o meu palpite, é mais tipo um 'road movie' da terceira idade (e eu acho que 'Wall-e' é um musical). Carl, desenraizado na marra, sem laços, literalmente quadrado, se move pelos ares e pela selva (literalmente também) arrastando seu passado. A viagem de Carl é também a sua última, no princípio da história. Trata-se da última escolha que quer realizar, a de onde vai ter sua última morada, também a vontade de sua amada e falecida esposa, nas selvas da 'América, só que no Sul'. Mas para isso é necessário viajar, cruzar os ares - e os elementos estão lá: ar, terra, fogo, água, passando pelo filme, diferentes faces da mobilidade-estabilidade. Submarino, dirigível, céu, oceano... Júlio Verne é escritor de proto road movies. E como num bom 'road movie', cenários e personagens devem ajudar a contar a história de como o personagem viaja de A para B em si mesmo, mais que pelo espaço, e se transforma durante essa jornada heróica. Vejam bem, esse é um filme DISNEY-Pixar, não se espere nada revolucionário nem muito anti-convencional, nada de final aberto nem nada contra os valores familiares, muito ao contrário. O que não quer dizer que isso não possa ser mostrado com algum encanto... O lance da paternidade (ausente), tema muito caro à Pixar, sabe-se lá a causa (filme para crianças?), tem sua releitura bem explícita e otimista, claro.

De certa maneira, o grande truque pixariano parece ser contar e encenar (bem) histórias com estruturas tradicionais, mas com personagens improváveis (peixes palhaço rabugentos, monstros que tem medo de crianças, formigas individualistas, brinquedos vivos, robozinhos apaixonados, ratos cozinheiros, superheróis domesticados e barrigudos - deixemos de fora 'Carros'...) resolvendo suas 'contradições' de uma maneira ou outra. Numa certa tradição Disney, aliás: ratos, patos, anões... E não se pode falar da Pixar sem mencionar a tecnologia de animação: nada de 'captura de atuação', o que se obtém é o resultado de algo como se pupeteiros talentosos mandassem nos caras dos computadores. Explico melhor: o método artístico da Pixar (como da Dreamworks e outros) é o de um animador que dá vida a um personagem, que é pouco mais que um boneco de arame 3D virtual, com movimentos e expressões através da manipulação de 'controles' como cordinhas high-tech de marionetes, ainda que esse personagem e cenário só exista na barriga de computadores; quanto mais sensível e manipulável o boneco, mais expressividade é disponível ao animador. Coisa de ponta (contador de clichês, ativar!), mas a 'atuação' ainda é, em grande parte, mérito direto da habilidade humana 'old fashion'.

A Pixar é um exemplo raro do que pode acontecer quando se resolve 'quem manda' nos caras dos computadores (e porque manda: os caras criativos no final é que trazem a grana e a fama). Claro que não deve ser assim tão fácil nem tão simples, imagino que deve ter havido altos conflitos, e por 'mandar' entenda-se a melhor articulação entre idéias e técnicas, competências, recursos, processos, oportunidades, muito trabalho duro e todo o resto para chegar nos filmes. Há um documentário onde John Lasseter, animador mor, falando dos primórdios da computação gráfica, dizia que os filmes em computação eram, antes da Pixar, como se os fabricantes de tintas e molduras pintassem as telas, e não os pintores (Lasseter é bom em fazer essas fórmulas). Um filme em computação gráfica é também um empreendimento industrial, grande, muito caro, muito complicado, e tem lá seus riscos. Há o desafio artístico, de elaborar personagens, o roteiro, as vozes (de atores profissionais de carne e osso), os cenários e assim por diante. Há o desafio técnico, de criar um mundo virtual 3D convincente, com luzes, sombras, ventos, movimentos, reflexos... Essa história é razoavelmente bem documentada (visão oficial e autorizada: deve-se dar o devido desconto), e vem nos extras dos DVDs, como nos 'comentários dos diretores'. Mas também há o desafio que podemos chamar de administrativo ou gerencial: organizar, financiar, comercializar, distribuir, contentar os egos... sobre isso (parece haver estudos) a Pixar seguiu a escola não ortodoxa de Steve Jobs, da Apple, financiador da empresa e talvez a maior figura de empreendedor tecnológico. A Pixar tem assim um lado de grande corporação, mesmo que seja uma corporação 'nerd' e não uma petrolífera poluidora ou um banco ganancioso, e talvez por isso, pelo seu tamanho e recursos, consiga manter o ritmo de inovação e a qualidade dos seus filmes ao longo do tempo. E, apesar de ser uma corporação, ter atitudes como esta (que a Pixar não confirma).

O aspecto malévolo da 'corporização' da vida atinge Carl, no começo da história, e o empurra à jornada para a selva. Em Wall-e é uma corporação fonte da destruição do ambiente, e das vontades legítimas e da autonomia. Carl tem na sua obsessão egoísta em terminar sua jornada um equivalente, que é a obsessão egoísta do vilão Charles Muntz; simbolizada até pelo fato de usarem balões/dirigíveis. Mas, pelo que parece querer dizer o filme, a obsessão de Carl é amorosa, e pode ser transferida, como se sublimada, corrigida, a um filho adotivo, cachorros e passarinhos. Uma obsessão legítima mas desfocada, pois, e a trama de Carl é o seu processo de transferência e desarme. O vilão, cujo exílio também tem causas 'corporativas', no entanto, sofre do narcisismo deformado e característicamente afirmado nos fins que justificariam os meios, e se a sua vilania também é o resultado de uma injustiça passada, não há para ele nenhuma redenção - não é assim nenhum 'Kiriku e a Feiticeira'. O velhinho Carl, o moleque atrapalhado, o cachorro e o passarinhão tem seus desentendimentos, mas se unem num empreendimento que os levará a construir seu futuro contra todas as adversidades e contra a vilaneza 'calculada' e metódica, maquinal, maciça, militarizada, administrada - corporativa, enfim - de Muntz. A corporação não é perdoável, nos diz a Pixar.

Se a Pixar é uma 'corporação suave' de fato ou se constrói para si uma imagem pública diferente da Disney, denunciada pelos métodos de trabalho draconianos, de 'taylorismo artístico' de artistas operários anônimos desenhando e pintando milhões de páginas (mas que resultaram em 'Branca de Neve'), é uma questão para daqui a um tempo. Se Carl é a projeção das aspirações para a velhice do time de Lasseter, agora sujeitos milionários de meia idade mas que só se vestem com camisas havaianas, isso é só um palpite. Mas se em Disney a maldade era quase sempre sobrenatural, na Pixar a maldade é tão concreta e humana quanto uma 'holding' pode ser; e não é pouco o progresso em contar às crianças histórias onde a 'vida má administrada' é vencida pelos outsiders, e não por príncipes puro-sangue.

Trailer de Robur:


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