segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Meu nome é eu (Final)

(Para ler as partes anteriores, veja 1, 2, 3 e 4)

III - Eu

"- Um dia será o mundo com sua impersonalidade

soberba versus minha extrema individualidade de
pessoa, mas seremos um só" (C. Lispector)


Os caminhos trilhados por Susan e Lóri são quase incomunicáveis. Aparentemente, elas têm pouco em comum. Mas o que compartilham é justamente o que torna interessante pensar suas experiências a partir do confronto entre as narrrativas nas quais se encontram: ambas as personagens são mulheres e ambas parecem sofrer de algum grau de "desajuste", isto é, de um mal-estar que é sinal de sua inconformação à situação na qual se encontram.

Susan, já vimos, sente o mal-estar da opressão a que está submetida, mas não enxerga possibilidade de escapar: como a racionalidade a partir do qual estruturou sua vida lhe diz que o problema está nela mesma, Susan se encontra impedida de fazer a crítica à ordenação que lhe sufoca. A narrativa de Doris Lessing é precisa ao demonstrar a tensão dos pensamentos e sentimentos de Susan: o tempo todo, no mesmo movimento em que a narradora traz as angústias de Susan, traz também as justificativas racionais para elas, seguindo de perto o esforço de Suan para atribuir significados a seu desajuste. A impotência está na própria incapacidade de legitimar sua angústia: afinal, de tão naturalizada que a ordem das coisas aparece em sua percepção, o problema deve, certamente, estar em Susan. Ela sucumbe porque sua inconformação não resulta em desejo; seu mal-estar não resulta na crítica e na transgressão da linguagem do mundo: todo seu esforço é por adaptar-se a significantes que sua própria experiência mostrar que são desprovidos de sentido. Seu suicídio, nesse sentido, é um ato de vontade, mas ainda adaptação a seu papel de louca: o desfecho, como o início do conto anunciara - é o fracasso da inteligência.

Lóri percorre um caminho diverso: ela rompe com o sabido e se lança à travessia que vai de um nome oco, à assunção de um "eu":

Mas sua busca não era fácil. Sua dificuldade era ser o que ela era, o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível, (p.147).

A aprendizagem de Lóri é tão difícil porque não tem modelo. O romance narra a busca pelo "eu" e pelo encontro e o faz explorando a tensão entre o vivido no interior da personagem e anecessidade literária de arranjar tais ideias indizíveis em palavras: Lóri também procura se apropriar da linguagem, pois isso significaria ser sujeito do discurso.

O início do livro é marcado pelos pensamentos de Lóri e pelos longos monólogos "didáticos" de Ulisses. Ao longo do livro, os diálogos vão se equilibrando, até a troca plena do final.

A cena em que Lóri se percebe pronta é bastante delicada: ela experimenta uma epifania, ao morder uma maçã. Aliás, é bom notar que a aprendizagem de Lóri não é jamais apenas racional: ela aprende com gostos, cheiros e texturas, com a comida e o mar. E nem sempre entende o aprendido; por vezes, limita-se a acolher o saber até que, maturado, este se transforme em palavra.

Lóri, que só sabia viver com dor, experimenta o prazer simples de morder uma maçã. E essa experiência se dá em meio ao tempo que pede a Ulisses para estar sozinha. Finda a epifania, Lóri fica com a sensaão de que

Havia experimentado alguma coisa que parecia redimir a condição humana, embora ao mesmo tempo ficassem acentuados os estreitos limites dessa condição. E exatamente porque depois da graça, a condição humana se revelava na sua pobreza implorante, aprendia-se a amar mais, a esperar mais. Passava-se a ter uma espécie de confiança no sofrimento e em seus caminhos tantas vezes intoleráveis, (p.158).

Logo após esse momento, ela decide encontrar Ulisses para que ele - o outro - também lhe reconheça a prontidão. de fato, não demora até que Ulisses note a transformação longamente gestada:

- Você está pronta, Lóri. Agora eu quero o que você é e você quer quem eu sou. (p.160).

A assunção da própria individualidade se consuma:

- Você tinha me dito que, quando me perguntassem meu nome eu não dissesse Lóri, mas "Eu". Pois só agora eu me chamo "Eu", (p.173).

O final do romance de Clarice é encontro, o que nos traz à ideia de que a redenção individual é possível, ainda que haja dor, espera, resvalos. E não há caminho conhecido: cabe a cada um reconhecer e transgredir os limites de sua própria experiência.

Apesar de individual, tal redenção tem consequências sociais, pois os redimidos são aqueles que, inconformados com os limites constituídos, encontram formas de ultrapassá-los.

Embora a proposta seja comparar as experi~encias de Susan e Lóri, Susan não chega a se constituir como um "eu". Mesmo em seus momentos de solidão, no quatro 19, tudo o que consegue é não ser a Sra. Jones - trata-se de uma fuga, um esconderijo dos papéis que a pressionam, mas não de uma assunção.

Como notei, o caminho de ambas não se comunicam, a despeito das condições que compartilham. Susan morre: o conto acaba tradicionalmente, com um ponto final. Lóri, no entanto, continua a viver: o romance termina com dois pontos.