quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Up in the air (2009)

 

(O texto abaixo contém informações sobre o filme. Se não assistiu e pretende fazê-lo, não leia!)


Há algumas semanas, assistimos Up in the air, filme indicado ao Oscar 2010 e estrelado pelo charmosíssimo George Clooney (cada vez mais charmoso - uma  observação aliás, muito científica e comprovada por centenas de pesquisas de opinião ;-).
Sem querer seguir o argumento do Edu de que os títulos em português por vezes acabam incorrendo em propaganda enganosa (mas já seguindo), aqui o filme saiu como "Amor sem escalas", o que dá a entender que se trata de uma comédia romântica, ou algo do gênero, o que está longe da verdade.
O filme me encheu de melancolia, por uma porção de motivos. Aqui, vou tentar falar um pouco dos motivos sociológicos que transformaram o assistir a esse filme numa experiência dolorida.
O filme se centra em um momento na vida do executivo vivido por Clooney. Seu trabalho é pouco usual: sua tarefa é demitir os funcionários de empresas e oferecer-lhes consultoria para recolocação profissional. Pelo que entendemos, a personagem de Clooney é representante de uma empresa cujo objeto é diverso de uma intermediadora de mão-de-obra: eles lidam com a tarefa desagradável de realizar a demissão e com o acompanhamento do funcionário durante um tempo variável (conforme o contrato fechado pela empresa), uma espécie de apoio até que o funcionário recém-desempregado visualize novas possibilidades. Ou seja, eles ficam ao mesmo tempo com a tarefa chata de dar a notícia e de procurar motivar os demitidos a identificar oportunidades. São mediadores, no sentido de que estão entre o funcionário e a empresa.
A vida de Ryan Bingham começa a mudar quando seu chefe contrata uma nova funcionária de apenas 22 anos, vinda diretamente da universidade,cheia de ideias para revolucionar o modelo de negócios da "intermediação da demissão". Mediação por mediação, ela aposta na tecnologia de vídeoconferência para despersonalizar ainda mais todo o processo, economizando nos recursos gastos nos deslocamentos e também nos próprios profissionais - é bastante engraçada a maneira com que ela vai anotando todas as situações que observa a fim de construir um roteiro de possíveis perguntas, reações, dúvidas... Esse roteiro seria a ferramenta para transformar o negócio da demissão numa espécie de "telemarketing especializado".


Apesar da loucurinha imatura e excessivamente confiante no conhecimento acadêmico-científico, a mocinha é uma das personagens mais queridas do filme, talvez tendo tanta responsabilidade na crise de Ryan quanto sua aventura romântica.
A personagem de Clooney se sente ameçada pelas mudanças propostas pela menina, que põem em xeque a sua forma de vida e as estratégias que construiu para lidar com a espécie de vácuo constante no qual vive. Acima da terra, certamente, valorizando a "lealdade" aos signos intercambiáveis que mais ou menos lhe ordenam os elementos de um espaço reconhecível: a acolhida a um só tempo pessoal e impessoal das variadas cadeias prestadoras de serviço constituem para ele o valor do "estar em casa". Trata-de de uma vida em suspenso, de uma identidade em suspensão, planando acima de todas as relações e situações "ao rés do chão", mas nisso perdendo também a possibilidade de qualquer enraizamento.
Ele sofre ao ter que permanecer ao chão - ao se deparar com a passagem da vida para todos os outros, ao ser confrontado com emoções e funções para os quais não se sente preparado. Mas, quando tem que voltar à rotina das viagens, sofre também, por ter passado a desejar coisas diversas das metas que havia estabelecido para si. A cena em que ele finalmente ganha a honra que tanto procurara é bastante eloquente em relação às fantasias de glamour que cercam o trabalho de executivos desterrados - a realização da fantasia, ao invés de trazer prazer, traz angústia e frustração, o sentimento que se esperava ter é completamente diferente, e tudo o que sobra é o vazio entre céu e chão.
De certa maneira, nas distâncias que evidencia (entre terra e céu, entre fantasia e sua realização, entre o romantismo e o pragmatismo, entre os vínculos e a metáfora de Ryan sobre "viajar sem peso"), traça um retrato bastante incômodo da sociedade contemporânea (e, de modo especial, do que é a sociedade norte-americana).
A crise do papel masculino ocupa um papel importante nesse retrato, tanto a partir da decepção experimentada por Ryan Bingham quanto, por exemplo, da invisibilidade do marido de Alex ou da facilidade com que o chefe de Ryan, provavelmente com medo de "virar dinossauro", se deixa levar pela proposta amalucada de Natalie (a jovenzinha).
A crise do trabalho sem dúvida também ocupa papel central, já que carreiras longas terminam em uma conversa com um estranho, que nada tem a oferecer senão receitas gerais, sobre motivação e oportunidades (e, vale notar, parte dos desempregados que aparecem no filme foram entrevistados inicialmente para um documentário sobre o desemprego, e alguns deles relataram a importância de poder reencenar o momento da demissão como uma espécie de terapêutica para ressignificar um momento dramático. Veja a matéria, em inglês, aqui).
A narrativa do filme termina de forma ambígua, com uma surpresa e uma decepção, com um novo caminho (embora não para Ryan) e o retorno a outro. É melancólico e dolorido e dá vontade de pegar o Clooney, por no colo e levar pra casa (tá... acho que isso não tem a ver com o fim do filme...). O filme termina com um suspiro e um pouco de resignação - é claro que ninguém é mais o mesmo (a não ser talvez a Alex), mas é difícil saber o que pode sair de tudo o que aconteceu. Não há redenção. O mundo continua rodando, os aviões continuam partindo e chegando...E de certo mesmo, só o sofrimento de Ryan, que, antes feliz em seu estado de suspensão, agora parece ter sido "caught in the middle" - nem na terra, nem no céu, a meio caminho de ambos.
Imagens: daqui e daqui.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O risco das análises quantitativas

No recém-lançado The Quants: How a New Breed of Math Whizzes Conquered Wall Street and Nearly Destroyed It, o jornalista Scott Paterson, do Wall Street Journal, pretende mostrar como a aplicação entusiasmada e irrestrita dos modelos matemáticos como única referência para os investidores de Wall Street foi um dos fatores cruciais para a crise econômica que recentemente assolou o mundo.

A proposta de Paterson é contar como essa nova geração de matemáticos, os tais quants, imprimiram seus modelos matemáticos como única forma de cálculo dos riscos de investimentos. A ideia por trás do modelo era bastante simples - "mesmo se o risco individual de calote de cada hipoteca fosse grande, quando um volume muito grande desses empréstimos era agrupado em um só papel, o risco acabava diluído pois a probabilidade de um grande número de hipotecas deixar de ser pago ao mesmo tempo era remoto" -, e o avanço das tecnologias de informação permitiu rapidamente a difusão do modelo via softwares especialmente desenvolvidos, garantindo altos lucros em curto prazo.

O problema, que o modelo estatístico não conseguiu prever, também parece bastante simples (visto aos olhos de hoje, é claro): num momento de crise, os devedores passam a se tornar inadimplentes simultaneamente, estourando a bolha e destruindo a eficácia do modelo que, como se viu tarde demais, funcionava apenas em ambiente de estabilidade econômica.

O maior mérito do livro parece ser o de mostrar como a adoção pura e simples desses modelos unicamente quantitativos (e que deixam de levar em conta outros fatores econômicos, como taxa de crescimento, vendas e lucratividade dos papéis de cada empresa) não é apenas um fato recente e isolado, mas tem também a sua história, tendo exercido papel fundamental em pelo menos duas outras crises, a de 1987 e a de 1988. A conclusão do autor é simples: crises como essa ocorrerão novamente.

Gênios matemáticos erram as contas em Wall Street

Democracia em xeque

Nesta entrevista, o britânico Humphrey Hawksley, comentarista de relações internacionais da BBC, responde algumas questões a respeito de seu livro mais recente, "Democracy Kills: What's So Good About the Vote?" (lançado em setembro de 2009, já está esgotado na Amazon).

Já faz uns bons anos que Francis Fukuyama lançou a sua polêmica tese sobre o fim da história. Para Fukuyama, a democracia liberal seria a última etapa da história humana, a realização do Espírito tal como propôs Hegel. Desde então, os acontecimentos reais parecem contradizer o tempo todo esta tese.

Nesse sentido, Hawksley enxerga na China a maior ameaça à tese de que a democracia liberal seria a aspiração universal da humanidade. Ao contrário, a China parece caminhar a passos largos para um papel de dominação mundial, sem que suas instituições políticas autoritárias encontrem-se sequer ameçadas. E os EUA, segundo ele, também deixaram de oferecer um modelo ideal de democracia passível de exportação, com a sua política externa tendenciosa: democracia sim, mas apenas se os vencedores forem os nossos aliados.

A sua conclusão é de que a democracia, se ainda não está totalmente em perigo como modelo mundial, também não se encontra mais na posição privilegiada de aspiração política universal. Para Hawksley, para o regime democrático funcionar a contento, deve ter instituições políticas e partidárias fortes, e não ser baseada em critérios étnicos ou religiosos. Os países da América Latina, segundo o comentarista, encontram-se fora de perigo.

A democracia está em decadência

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Para mudar seus conceitos sobre o rock progressivo

The Wall, do Pink Floyd, em versão inusitada, divertidíssima, achada acidentalmente aqui (via LOL, do Estadão). Aos músicos de churrascaria (ou de praças de alimentação), minhas homenagens.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sem comentários

Não tenho condições nem palavras pra comentar o amontoado de afirmações a respeito da língua portuguesa, tal como apropriada pelos brasileiros, feita pelo jornalista Alex Bellos na edição online do jornal inglês The Guardian.

Ainda que cada frase merecesse um extenso comentário, e mais ainda o conjunto de interpretações a respeito do Brasil, melhor mesmo é deixar o texto falar por si:

A Bigger Splash

(agradeço à Ju Biscardi pela indicação)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Guerra ao terror (The Hurt Locker - 2008)

Na corrida do Oscar 2009/2010, o filme The Hurt Locker (vou usar o nome original, pois o nacional... ) tem tantas indicações quanto o uberblockbuster Avatar. Aqui não vou fazer uma resenha propriamente dita, que pode ser facilmente encontrada na rede (por exemplo, esta do New York Times). Essa resenha que eu citei é de junho de 2009 - o filme está estreando hoje (5/fev) nos cinemas aqui em São Paulo - e desde então estava esperando The Hurt Locker chegar aqui. Mas eu esqueci do assunto, até que já em 2010, com a premiação do Globo de Ouro, a imprensa voltou a falar do filme, trazendo o detalhe que ele já havia sido lançado aqui no Brasil direto em DVD.

Mas como assim? Eu olho a prateleira de lançamentos da locadora semanalmente, pelo menos, e não tinha visto nada parecido. Checando na locadora, descobrimos que sim, o filme havia sido lançado há algum tempo, e estava disponível. Só que o nome era o tal 'Guerra ao Terror'. Então, alugamos e assistimos o DVD.

Os comentários da imprensa são que o distribuidor brasileiro não acreditou nas 'possibilidades comerciais' do filme, optando pelo lançamento direto nos disquinhos, por volta de setembro de 2009. Além disso, como mostra a capa (reprodução aí embaixo), a promoção do filme é, pode-se dizer, propaganda enganosa. Os atores citados no alto do cartaz - David Morse, Ralph Fiennes, Guy Pearce - praticamente não 'aparecem' no filme (quer dizer, é difícil identificá-los até). Jeremy Renner, que foi indicado (não só) ao Oscar, não aparece na capinha do DVD. A foto em destaque é do David Morse, e tudo dá pista que o filme tem a fórmula dos filmes 'de guerra' - tiros, explosões, pancadaria kickboxe, homens-tocha e testosterona - tipo, sei lá, 'Pearl Harbor' ou qualquer filme do Chuck Norris + Vietnã. A probabilidade então é que se eu vi a caixinha na prateleira da locadora, passou tão batido quanto o último filme do Steven Seagal.

Cartaz/capa do DVD nacional : pontas viram protagonistas

Aí quando o filme virou um sucesso de crítica - nos Estados Unidos - a lambança aqui já estava feita. Claro, ainda em tempo de fazer um 'lançamento' do filme nos cinemas, aproveitando as 9 indicações ao Oscar, e o fato de ser dirigido por uma mulher (Kathryn Bigelow, favorita ao Oscar de direção), que ainda por cima é ex-mulher do James 'Terminator-Titanic-Avatar' Cameron, e providenciar um novo cartaz (esse aí:).

Cartaz de cinema : pelo menos o Jeremy Renner (indicado ao Oscar de ator) tá nele.

Podiam ter aproveitado e mudado de nome: 'Guerra ao Terror' parece ter sido escolhido pelo George W. Bush, ou melhor dizendo, pelo Dick Cheney. Mas aí, se a distribuidora (que eu não sei qual é e nem interessa tanto) tivesse feito tudo direitinho a coisa não seria tão sugestiva. A guerra do Iraque, como já é de reconhecimento público, foi feita com base em manipulações grotescas de informações, intimidações, patriotadas deslavadas, mentiras descaradas e todo o arsenal discursivo imaginável para invadir o Iraque e assegurar contratos lucrativos para companhias americanas e fornecimento de petróleo pros jipões das pacatas housewives.

Mas a pequena nota, ou talvez uma mera vibração sugestiva dessa trapalhada é o makeover do cartaz do filme, de uma aventura de guerra "B" para os machos de locadora para algo mais próximo do que o filme de fato é - tirando o título - ou seja, um drama tenso, muitíssimo bem concebido e encenado - há uma cena, envolvendo sucrilhos, que eu achei um primor de síntese -, e que atingiu o nervo da audiência no momento em que não há saída fácil da imensa c***da que é a Guerra do Iraque. Eu realmente gostaria de saber de alguém que tenha alugado gato por lebre o que achou de The Hurt Locker. E mesmo para quem for assistir a lebre, digo, o filme, como provocação eu deixo um desafio: troque o Iraque por "periferia de São Paulo", e imagine a nossa Polícia Militar no lugar dos soldados americanos. E pense bem na grande operação política que levou o Brasil os Estados Unidos a afundarem nessa encrenca. Daria um filme, e não é Tropa de Elite.

Imagens: clique sobre os posters.