quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Guerra ao terror (The Hurt Locker - 2008)

Na corrida do Oscar 2009/2010, o filme The Hurt Locker (vou usar o nome original, pois o nacional... ) tem tantas indicações quanto o uberblockbuster Avatar. Aqui não vou fazer uma resenha propriamente dita, que pode ser facilmente encontrada na rede (por exemplo, esta do New York Times). Essa resenha que eu citei é de junho de 2009 - o filme está estreando hoje (5/fev) nos cinemas aqui em São Paulo - e desde então estava esperando The Hurt Locker chegar aqui. Mas eu esqueci do assunto, até que já em 2010, com a premiação do Globo de Ouro, a imprensa voltou a falar do filme, trazendo o detalhe que ele já havia sido lançado aqui no Brasil direto em DVD.

Mas como assim? Eu olho a prateleira de lançamentos da locadora semanalmente, pelo menos, e não tinha visto nada parecido. Checando na locadora, descobrimos que sim, o filme havia sido lançado há algum tempo, e estava disponível. Só que o nome era o tal 'Guerra ao Terror'. Então, alugamos e assistimos o DVD.

Os comentários da imprensa são que o distribuidor brasileiro não acreditou nas 'possibilidades comerciais' do filme, optando pelo lançamento direto nos disquinhos, por volta de setembro de 2009. Além disso, como mostra a capa (reprodução aí embaixo), a promoção do filme é, pode-se dizer, propaganda enganosa. Os atores citados no alto do cartaz - David Morse, Ralph Fiennes, Guy Pearce - praticamente não 'aparecem' no filme (quer dizer, é difícil identificá-los até). Jeremy Renner, que foi indicado (não só) ao Oscar, não aparece na capinha do DVD. A foto em destaque é do David Morse, e tudo dá pista que o filme tem a fórmula dos filmes 'de guerra' - tiros, explosões, pancadaria kickboxe, homens-tocha e testosterona - tipo, sei lá, 'Pearl Harbor' ou qualquer filme do Chuck Norris + Vietnã. A probabilidade então é que se eu vi a caixinha na prateleira da locadora, passou tão batido quanto o último filme do Steven Seagal.

Cartaz/capa do DVD nacional : pontas viram protagonistas

Aí quando o filme virou um sucesso de crítica - nos Estados Unidos - a lambança aqui já estava feita. Claro, ainda em tempo de fazer um 'lançamento' do filme nos cinemas, aproveitando as 9 indicações ao Oscar, e o fato de ser dirigido por uma mulher (Kathryn Bigelow, favorita ao Oscar de direção), que ainda por cima é ex-mulher do James 'Terminator-Titanic-Avatar' Cameron, e providenciar um novo cartaz (esse aí:).

Cartaz de cinema : pelo menos o Jeremy Renner (indicado ao Oscar de ator) tá nele.

Podiam ter aproveitado e mudado de nome: 'Guerra ao Terror' parece ter sido escolhido pelo George W. Bush, ou melhor dizendo, pelo Dick Cheney. Mas aí, se a distribuidora (que eu não sei qual é e nem interessa tanto) tivesse feito tudo direitinho a coisa não seria tão sugestiva. A guerra do Iraque, como já é de reconhecimento público, foi feita com base em manipulações grotescas de informações, intimidações, patriotadas deslavadas, mentiras descaradas e todo o arsenal discursivo imaginável para invadir o Iraque e assegurar contratos lucrativos para companhias americanas e fornecimento de petróleo pros jipões das pacatas housewives.

Mas a pequena nota, ou talvez uma mera vibração sugestiva dessa trapalhada é o makeover do cartaz do filme, de uma aventura de guerra "B" para os machos de locadora para algo mais próximo do que o filme de fato é - tirando o título - ou seja, um drama tenso, muitíssimo bem concebido e encenado - há uma cena, envolvendo sucrilhos, que eu achei um primor de síntese -, e que atingiu o nervo da audiência no momento em que não há saída fácil da imensa c***da que é a Guerra do Iraque. Eu realmente gostaria de saber de alguém que tenha alugado gato por lebre o que achou de The Hurt Locker. E mesmo para quem for assistir a lebre, digo, o filme, como provocação eu deixo um desafio: troque o Iraque por "periferia de São Paulo", e imagine a nossa Polícia Militar no lugar dos soldados americanos. E pense bem na grande operação política que levou o Brasil os Estados Unidos a afundarem nessa encrenca. Daria um filme, e não é Tropa de Elite.

Imagens: clique sobre os posters.

3 comentários:

  1. Na verdade a história da distribuição do filme é ainda mais longa. Ele estreou acho que em Veneza no meio de 2008, uns bons 17 meses atrás. A Summit comprou no festival e sentou em cima. Ficou esperando a onda do Slumdog passar (já que não tinha chance pra mais ninguém) e pôs nos cinemas americanos em junho passado. Aí sim começo a campanha mais pesada pro Oscar, ainda que "downsized" por causa da economia.

    O Renner, apesar de fazer um bom trabalho (spoiler alert!) não deve ganhar. É a vez do El Duderino, Jeff Bridges. Aqui (http://nymag.com/movies/features/63661/) na NY Magazine tem mais explicações...

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  2. Jorge Gustavo11/02/2010 19:19

    E eu ainda não assisti. Mas vou.

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  3. Só pra constar: o lançamento no cinema, pelo menos em São Paulo, foi bem caça-níqueis! Todas as cópias em exibição digital, ou seja, praticamente pegaram o DVD e começaram a passar no cinema...

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