quarta-feira, 31 de março de 2010

Seu peixe da Sexta-feira Santa é sustentável?

Você comeria alguma coisa que estivesse à beira da extinção? Normalmente, não, certo? Mas provavelmente você e eu não temos como escapar de consumir alimentos que, se não estão diretamente ameaçados de extinção, também não são 'sustentáveis' no longo e mesmo em médio prazo. Isso é bastante o caso de quem gosta de peixe e outros bichos aquáticos - meu caso e de muita gente. A poluição, a destruição de habitats, o aquecimento global e a pesca intensiva, predatória são as causas mais comuns, mas também a construção de barragens, a introdução involuntária ou não de espécies exóticas, e mais recentemente, a criação comercial de algumas espécies de peixes, ostras e camarões, que geram uma grande quantidade de resíduos, em alguns casos poluição química por abuso de antibióticos e hormônios. Mas não é o tema desse post os grandes, urgentes problemas ambientais, pelo menos não diretamente.
No player abaixo, o chef Don Barber conta na TED 2010 sua história de paixão por um peixe, ou como conseguiu servir um prato sustentável. Mas acaba descobrindo algo mais (está disponível com legendas em português do Brasil, no comando 'view subtitles').





No site, você também pode ter acesso a um monte de comentários, apoiando ou contestando e fazendo um monte de cálculos sobre a reprodutibilidade do modelo. Pode ser delírio meu, mas não pude deixar de pensar que talvez nossas praias, rios e florestas poderiam e deveriam ter um outro tratamento com esse 'approach'. A maioria das praias do Estado de São Paulo estão praticamente mortas ante o que já foram, assim como mangues já foram aterrados e poluídos em grande parte. Que o meio ambiente original do Brasil era um 'supermercado' gigantesco de delícias, que foi em grande parte arrasado por imensas monoculturas... e que a Kátia Abreu e todo o setor do 'agrobusiness' poderia considerar, muito, muito seriamente, mudar seu 'modelo de negócio'. Ou ser obrigados a tanto, pelo consumidor, e por todo mundo interessado na sustentabilidade ambiental. Como diz o Dan Barber, o pior é que o que produzem nem saboroso é. A parte tudo o que objetivamente perdemos com o modelo dominante de produção de alimentos - recursos naturais desperdiçados e populações estressadas, limitadas, dezenraizadas e em conflito pela posse da terra, por exemplo - perdemos nossa capacidade de sentir sabores e discernir detalhes, delicadezas e aromas, como se isso devesse ser privilégio dos que frequentam o Fasano. A 'ditadura do sabor' produzido em massa seria um sintoma das anomalias de um modelo predatório de produzir comida. Então, devemos pedir, e brigar por sabor. Por comida fresca e com gosto, como diz minha mãe. Saudades do lambari farto, saudável e delicioso dos riachinhos do Brasil...

terça-feira, 30 de março de 2010

Google vs. China

Neste texto, o historiador inglês Timothy Garton Ash comenta a recente decisão do Google de abandonar suas operações na China, transferindo-as para Hong Kong. Entendendo que a internet é a maior revolução nas tecnologias da informação desde a invenção da imprensa por Gutemberg, Ash ressalta que, entre o "poder virtual" das grandes corporações cibernéticas, e o "poder real" dos grandes Estados, a recuperação da informação via internet sofre, de toda maneira, um processo de seleção cujos mecanismos não são bastante claros para a maior parte da população. Afinal, os algoritmos do Google possuem critérios bastante definidos para que determinada página apareça nos primeiros lugares dos resultados de busca, sejam eles mercadológicos, econômicos ou atendendo a interesses nem sempre tão explícitos. E é essa a aparência "fantasmagórica" da pesquisa de informação via internet, à qual nos tornamos tão dependentes: achamos que temos o mundo à disposição, mas esse mundo só nos aparece pelo viés desses poderes diversos que filtram aquilo que iremos ler. A saída do Google da China só tornou esses filtros mais explícitos, uma vez que até agora a empresa de bom grado aplicou a censura exigida pelo governo chinês, e muitas outras empresas de informação continuam no país, sob as mesmas condições.

É aí que entra o papel dos "cidadãos da rede" (netizens, como Ash os chama). Se, nos países com regimes ditatoriais, a internet tem se tornado um importante meio de protesto (como ocorreu com os encontros marcados via Twitter para denunciar as fraudes nas últimas eleições iranianas), nos países ditos democráticos é preciso levar em conta que, muitas vezes, esta censura é abertamente requerida por uma parcela imensa da população - o exemplo de Garton Ash são os espectadores da Fox News nos Estados Unidos, que só assistem o canal porque sabem que a informação ali só chega pelo filtro da extrema direita.

A conclusão é que, no embate sobre o acesso à informação, há 3 grandes "jogadores": os Estados, as corporações, e os cidadãos da rede. Garton Ash vislumbra quatro cenários possíveis para a disputa: "(1) O Estado no qual vivo decide o que posso e não posso ver, e tudo bem; (2) As grandes empresas das quais dependo (Google, Yahoo, Baidu, Microsoft, Apple, China Mobile) escolhem o que posso ver, e tudo bem; (3) Quero ser livre para ver o que quiser: notícias sem censura de todas as partes do mundo, toda a literatura mundial, manifestos de todos os partidos e movimentos políticos, propaganda jihadista, instruções para a fabricação de bombas, detalhes íntimos sobre a vida particular de outras pessoas, pornografia infantil - tudo deve ser disponibilizado livremente e sou eu quem decide o que ver ou não (opção libertária radical); (4) Todos devem ser livres para ver o que quiserem, com exceção daquele conjunto limitado de conteúdos que regras globais claras e específicas determinem que não deve ser disponibilizado. A tarefa dos Estados, empresas e internautas [netizens] deve ser então de fazer valer essas normas internacionais."

A conclusão do autor é a de que vivemos num misto dos cenários (1) e (2), e que a evolução das tecnologias nos levará fatalmente ao cenário (3). O mundo (4), segundo Ash, é a opção ideal à qual devemos aspirar, ainda que, também devido ao limitado espaço do artigo, não fique nada claro como seriam estabelecidas as tais "regras globais claras e específicas". De todo modo, o que importa colocar como reflexão é a necessidade urgente do debate sobre as regras do jogo, e sua explicitação. Do contrário, ficaremos perdidos entre esses dois poderes gigantes, achando que o que recuperamos é a informação em si, quando de fato o que chega até nós é apenas o resultado de uma combinação de micro-poderes.

Beyond Google's clash with China, we must find rules for a global village

(apesar deste texto ter sido publicado na edição do último domingo de O Estado de São Paulo, a nova política editorial do jornal restringe o acesso aos artigos apenas aos assinantes. Por isso fiz referência ao texto em inglês, publicado originalmente no jornal The Guardian).

quinta-feira, 25 de março de 2010

Pobreza erótica

Eu cheguei bem por acaso no objeto do post, pensando que era mais algum esquema do sempre borbulhante mercado da autoajuda (auto-ajuda?). Num blog da revista Época, o título é 'Capital erótico: você tem?'. A coluna começa assim:

"Você está satisfeito com sua formação acadêmica? Fala línguas, tem experiência, um currículo admirável para progredir na vida? E capital erótico, tem? Sabe usá-lo a seu favor?

'Capital erótico' é um termo novo criado por Catherine Hakim, socióloga da London School of Economics and Political Science, na defesa de uma quarta categoria de habilidades pessoais, ao lado de capital econômico, social e cultural. No estudo Capital Erótico, recém-publicado na European Sociological Review, Catherine explica sua proposta: 'Beleza e sex appeal se tornaram valores individuais importantes em nossa moderna e sexualizada cultura, tão importantes quanto qualificações educacionais'."

Socióloga? London School of Economics and Political Science? A escola do Anthony Giddens, entre outros... Como assim? ... 'Capital erótico' a minha mente suja esperava ser algo bem menos 'sério', algo como aqueles hilários manuais sobre técnicas de como fisgar homens em bares (ou vice-versa: como ser fisgado(a)).

O paper está disponível para download, e eu transcrevo o resumo:

Erotic Capital
Catherine Hakim

We present a new theory of erotic capital as a fourth personal asset, an important addition to economic, cultural, and social capital. Erotic capital has six, or possibly seven, distinct elements, one of which has been characterized as ‘emotional labour’. Erotic capital is increasingly important in the sexualized culture of affluent modern societies. Erotic capital is not only a major asset in mating and marriage markets, but can also be important in labour markets, the media, politics, advertising, sports, the arts, and in everyday social interaction. Women generally have more erotic capital than men because they work harder at it. Given the large imbalance between men and women in sexual interest over the life course, women are well placed to exploit their erotic capital. A central feature of patriarchy has been the construction of ‘moral’ ideologies that inhibit women from exploiting their erotic capital to achieve economic and social benefits. Feminist theory has been unable to extricate itself from this patriarchal perspective and reinforces ‘moral’ prohibitions on women’s sexual, social, and economic activities and women’s exploitation of their erotic capital.

(tradução meia boca: Nós apresentamos uma nova teoria do capital erótico como um quarto recurso pessoal, em adição importante ao capital econômico, cultural, e social. O capital erótico tem seis, ou possivelmente sete, elementos distintos, dos quais um foi caracterizado como "o trabalho emocional". O capital erótico é cada vez mais importante na sexualizada cultura das sociedades afluentes modernas. O capital erótico é não somente um recurso principal em mercados dos encontros amorosos e do casamento, mas pode também ser importante nos mercados de trabalho, na mídia, na política, na propaganda, em esportes, nas artes, e na interação social diária. As mulheres têm geralmente mais capital erótico do que homens porque trabalham mais duramente nele. Dado o desequilíbrio grande no interesse sexual entre homens e mulheres durante a vida, mulheres estão bem colocadas para explorar seu capital erótico. Uma característica central do patriarcado foi a construção dos ideologias "morais" que inibem mulheres de explorar seu capital erótico para conseguir benefícios econômicos e sociais. A teoria feminista foi incapaz de extirpar-se desta perspectiva patriarcal e reforça proibições "morais" nas mulheres no sexo, nas atividades sociais e econômicas e na exploração pelas mulheres de seu capital erótico).

A autora parte de exemplos como Madonna ou Pierce Brosnan como indivíduos que notoriamente possuem capital erótico, e explica que o capital erótico não é mera beleza física (ufa!) mas um conjunto de qualidades, tais como a maneira de andar, falar e interagir atrativamente, e que dão aos seus possuidores vantagens não só na seleção de parceiros sexuais mas também em outros vários e vários contextos - vantagens que podem ser inclusive medidas, dimensionadas, como sucesso profissional dos bonitões ou a 'popularidade' no colegial das bonitonas.

O conceito central de capital erótico é, para Hakim:
"Erotic capital is thus a combination of aesthetic, visual, physical, social, and sexual attractiveness to other members of your society, and especially to members of the opposite sex, in all social contexts. In some cultures, fertility is a central element of women’s greater erotic capital. We use the terms ‘erotic power’ and ‘erotic capital’ interchangeably, for stylistic variation. Erotic capital includes skills that can be learnt and developed, as well as advantages fixed at birth. Women generally have more of it than men, even in cultures where fertility is not an integral element, and they deploy it more actively." (p.3)

(Capital erótico é, assim, uma combinação da estética, da atração visual, física, social, sexual para outros membros de sua sociedade, e especialmente aos membros do sexo oposto, em todos os contextos sociais. Em algumas culturas, a fecundidade é um elemento central do capital erótico das mulheres. Nós usamos os termos "poder erótico" e "capital erótico" alternadamente, para a variação estilística. Capital erótico inclui habilidades que podem ser aprendidas e desenvolvidas, como bem como as vantagens fixadas no nascimento. As mulheres geralmente têm mais dele do que os homens, mesmo em culturas onde a fertilidade não é um elemento integrante, e [o capital erótico] implanta-se mais ativamente.)

Eu não tenho as credenciais necessárias - destucanando, não estudei - para dizer se a relação entre esse conceito de capital erótico e os conceitos de capital econômico, social e cultural é pertinente e/ou faz sentido. O que eu posso dizer é que os argumentos da autora parecem ser bastante claros e bem apresentados, em uma primeira leitura. E se por um lado a posse de capital erótico parece ser uma boa explicação, por exemplo, para a mobilidade da ascensão individual, nos contextos do casamento entre pessoas com grandes diferenças dos outros três capitais - ou, em palavras bem mais rudemente estereotipadas, como a 'gostosura' facilita o golpe do baú, com o perdão da destucanada - seria necessário talvez um maior desenvolvimento crítico (aparentemente, a autora prepara um livro) em relação aos modelos explicativos mais conhecidos, isto é, se mesmo a teoria convencional do capital individual não dá conta. Quanto a isso, a autora tem uma posição que me parece instigante, a de que a sociologia (como ciência 'macha') não se livrou do senso comum que censura importância ao erotismo, mesmo quando parece ser evidente que nas sociedades modernas a aparência, a sexualidade, as competências estéticas e habilidades sedutoras ganham relevância em contextos diversos e importantes. Haveria então um déficit na sociologia quanto ao conhecimento das relações em torno, ou relacionadas, ao erotismo e às relações de poder fundamentadas nele. Mas, em todo caso, meus calos epistemológicos acenderam um alerta amarelo. Eu acho prudente ter algum ceticismo quando algum conceito parece ser bom demais, muito certinho, isto é, tem um superpoder explicativo aparente, direto e intercambiável: Madonna é bilionária em capital erótico, portanto... já se a fulana é gorda, feia, chata... ainda sinto falta de uma 'grade' explicativa mais robusta, mesmo que mais 'suja' ou indeterminada, o que pode ser parte implicância minha, parte falta de estudar esse assunto.

Voltando um pouco, o esboço de uma 'economia' erótica também parece ter interesse, em especial nos aspectos envolvidos em relações de troca e de (re)produção, não apenas afetivas ou econômicas, mas também culturais. A base, digamos, biológica é dada pela escassez da beleza natural e pelo fato (que eu acho que tem que ser mais bem demonstrado) que homens tem, ou manifestam, muito mais interesse em sexo, durante a maior parte de suas vidas, que as mulheres. Esse desnível entre oferta e demanda levaria ao surgimento das mais variadas práticas, mediadas pela cultura (ou seja, das sancionadas e estimuladas até as censuradas e controladas), da pornografia/prostituição à arte da conversa fiada de sala de visita, passando pelos cuidados na entrevista de emprego e se comportar na carreira a como encontrar e agarrar um príncipe encantado, à moda e ao vestuário adequado à determinada situação, e assim por diante. Nas sociedades modernas, tecnológicas, instantâneas e velozes, e aqui sou eu viajando um pouco, o erótico seria praticamente uma força produtiva.

"Beauty and sex appeal, and female beauty in particular, are a creation, a work of art, which can be achieved through training. Women have more erotic capital than men in most societies because they work harder at personal presentation and the performance of gender and sexuality. This sex differential is not fixed, and can vary over time, due to social and economic changes. Homosexuals often devote more time and effort to the performance of sexuality and personal presentation than is typical among heterosexuals (Green, 2008). The performance of gay subculture styles (such as clones or leather) is the equivalent of heterosexual performance of masculinity and femininity." (p.6)

(Beleza e sex appeal e beleza feminina em particular, são uma criação, uma obra de arte, que pode ser alcançado através de treino. As mulheres têm mais capital erótico do que os homens na maioria das sociedades, porque elas trabalham duro na apresentação pessoal e no desempenho de gênero e sexualidade. Este diferencial de sexo não é fixo, e pode variar ao longo do tempo, devido às mudanças sociais e econômicas. Os homossexuais muitas vezes dedicam mais tempo e esforço para o desempenho da sexualidade e da apresentação pessoal do que é típico entre os heterossexuais (Green, 2008). O desempenho dos estilos da subcultura gay (como clones ou couro) é o equivalente de desempenho heterossexual de masculinidade e feminilidade.)

Acho que dá para dizer que a 'economia erótica' moderna segue o modelo da grande indústria, ou melhor, da corporação (ela de novo) multinacional. O erotismo, assim como a fome, é 'satisfeito' nos mais diferentes graus e modos, e repercute ao longo de uma vasta 'cadeia produtiva'. Qualquer foto de capa de revista é o pico de uma, ou de várias indústrias, e seus interesses, mas também de suas capacidades técnicas e artísticas em complexa divisão do trabalho. Destucanando, fazer uma capa de revista só é possível porque há um batalhão de organizações, com milhares de horas de trabalho e conhecimento acumuladas em objetos como roupas, cosméticos, objetos de cena, mas também no próprio corpo da modelo, e também em processos industriais tecnológicos muito sofisticados que se destinam a criar e manter mercados e consumos, e ao acúmulo do tal 'capital erótico' em cada camada de baton.

O que não é dito por Catherine Hakim, e aí é ainda apenas elocubração, é a desigual apropriação do capital erótico. Ou seja, se há os bilionários, haveria também a vasta camada dos 'pobres', sem acesso, os sem-terra, sem-erotismo. Se, como demonstra o modo com o qual topei com a sociologia do capital erótico num semanário de entretenimento, é lícito imaginar que a curto prazo esse conceito, tal como os de 'capital intelectual' e 'capital humano', será apropriado pelos agentes econômicos - pode-se imaginar a capa da Cosmopolitan com uma manchete tipo 'no fail: how to boost your erotic capital' - então a pobreza erótica será bem mais evidente. Talvez nem tudo seja ruim: não me parece que trazer a satisfação erótica ao nível de não só um imperativo biológico do corpo, mas transformá-lo como um direito de homens e mulheres à uma existência mais plena (e prazerosa, claro), tem um delicioso potencial subversivo e antirrepressivo, já sabia a geração dos sessenta. Mas agora, vamos ter que pensar em políticas públicas...

Referência:
HAKIM, Catherine. Erotic Capital. European Sociological Review, Volume 0 Number 0, 2010. p. 1–20. Available online at www.esr.oxfordjournals.org

terça-feira, 23 de março de 2010

Camelos-biblioteca


Conta a lenda que o grão-vizir persa não podia separar-se de seus livros. Possuidor de mais de 170.000 exemplares, fazia-os viajar com ele, levando-os em uma imensa fila de camelos, organizados rigorosamente em ordem alfabética.

Muitos anos depois, e com propósitos totalmente diferentes, a biblioteca sobre camelos reaparece no Quênia. Só não acho que os camelos se organizem na mesma ordem...

BBC Photo journal: Kenyan camel library

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sobre o papel dos intelectuais

"O que é necessário para uma democratização bem-sucedida dos genuínos valores culturais, em contraste com o processo de nivelamento por baixo que os degrada em mercadorias para o entretenimento comercializado? Toda expansão da educação tanto ao nível social como intelectual deve ser uma questão de estratégia. Em ambos aspectos o aperfeiçoamento pode ser efetuado gradativamente. No campo social as oportunidades educacionais e intelectuais podem ser ampliadas sistemática e cientificamente através de um melhor planejamento total do sistema educacional em conexão com o aconselhamento vocacional. Ao nível intelectual o avanço deve proceder gradualmente até níveis intelectuais e morais progressivamente mais altos. O fundo comum de conhecimentos poderia ser apresentado em diferentes formas para grupos sociais diferentes, levando em consideração seu contexto, mentalidade e níveis educacionais variados. A democratização não significa necessariamente nivelar por baixo para eliminar as diferenças, mas sim dar condições para que a existência de variedade na vida cultural e apreciar as diferenças culturais como valiosos pontos de partida na busca humana de conhecimento.
Um grupo social particular que deve ser preservado como um freio contra a monotonia e as tendências niveladoras em uma cultura planejada é o dos intelectuais independentes. Uma sociedade composta apenas de grupos profisisonais, burocracias e grupos de interesses limitados corre perigo de desenvolver uma mentalidade rígida,preocupada principalmente com o aperfeiçoamento institucional e os expedientes imediatos. Faltará a ela idéias dinâmicas e imaginação social, capazes de transcender a estrutura existente de instituições sociais. No passado, grupos de intelectuais independentes produziram uma mentalidade dinâmica que ultrapassou as fronteiras do que quer que existisse. A função deles seria difícil de ser substituída. Mais precisamente, uma sociedade democrática deve planejar deliberadamente carreiras desvinculadas das escalas sociais e educacionais regulares.
O grupo dos intelectuais formará um paralelo no campo intelectual às mentes pioneiras na esfera econômica, preferindo caminhos inexplorados aos modos rotineiros de conduta e pensamento. Da mesma maneira, deve ser deixado um campo para a competição entre agrupamentos culturais e intelectuais. Seus antagonismos não são meros caprichos, que a sociedade pode muito bem dispensar. Esses grupos são as principais fontes sociais de vida cultural produtiva, a qual está ameçada atualmente pela reprodução mecânica e consumo em massa do antigo, do 'clássico', do seguro. Apoiar e proteger tais grupos criativos do impacto da burocratização e superorganização não apenas levanta um baluarte contra o nivelamento por baixo, como assegura o processo oposto de aperfeiçoamento. Tais grupos podem ser perigosos se isolados ou segregados. Postados na principal corrente de opinião pública, eles são fortalezas de crescimento gradual, abrigos para o desenvolvimento da sensibilidade, dos sentimentos fortes e das idéias imaginativas.
As novas idéias sempre se originaram em pequenos grupos com contatos pessoais duradouros. As idéias circulam no mercado através do meio da publicidade de massa, mas não são produzidas ali. Ainda é o pequeno grupo dissidente que favorece aventuras mentais inspiradas e entusiasmo intelectual. Tais grupos desenvolvem e testam novas idéias antes que assumam uma forma adequada à disseminação entre os círculos mais amplos do público. Deste modo, os oásis intelectuais protegem a sociedade em uma Era das Massas do grande perigo de os padrões de propaganda e publicidade tornarem-se modelos para o planejamento cultural".

K. MANNHEIM. "Alguns aspectos redistributivos da educação democrática". In: Marialice M. FORACCHI (org.) Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 1982, p.164-5. (Texto originalmente publicado em 1950).

A decifrar

"La trajectoire de la question: Was ist der Mensch? dans le champ de la philosophie s'achève dans la réponse qui la récuse et la désarme: der Übermensch."

Em tradução livre:

"A trajetória da questão: O que é o homem? no campo da filosofia chega a termo na resposta que a recusa e a desfaz: o além-do-homem".

(parágrafo final da "Introduction à L'Anthropologie de Kant" de Michel Foucault, apresentado como tese complementar para obtenção de seu doutorado, em 1964. Paris: Vrin, 2009, p. 79.)

sábado, 6 de março de 2010

Ainda sobre Up in the air

"Observemos, inicialmente, a nova moral do trabalho. As mudanças nas relações de trabalho foram bem estudadas por Richard Sennett em A corrosão do caráter. Segundo o autor, as transformações econômicas das três últimas décadas alteraram a tradicional imagem do 'trabalhador'. Os indivíduos, afetados pela competição crescente por empregos inseguros, começaram a adaptar suas condutas psicológicas ao perfil social do 'vencedor'. O 'vencedor' deve ser maleável, criativo, afirmativo e, sobretudo, superficial nos contatos pessoais e indiferente a projetos de vida duradouros. Para ganhar mobilidade no volátil mundo do emprego, ele deve aprender a não ter elos sólidos com família, lugares, tradições culturais, antigas habilidades e, por último, com o próprio percurso biográfico.
Sennett define essa nova identidade como a do indivíduo 'desenraizado' e Zygmunt Bauman, em O mal-estar da pós-modernidade, como a do 'turista'. O turista ou o desenraizado é o indivíduo que não se fixa em identidades passadas, que vê o mundo como um espaço de circulação permanente e que jamais projeta o futuro a partir das condições de vida presentes. Esse é um dos principais motivos pelos quais o desejo de possuir objetos industriais se acentuou. Os objetos passaram a ser aquilo que o turista pode ter, ao mesmo tempo, de mais estável e mais mutável. De mais estável porque são as únicas coisas que o sujeito transporta consigo onde estiver e para onde for; de mais mutável por serem facilmente trocáveis se a nova condição do trabalho assim exigir. Em outros termos, a posse de mercadorias permitiu ao indivíduo preservar a necessidade psicológica de estabilidade sem renunciar à elasticidade pessoal exigida pelo mundo dos negócios.
Além disso, os objetos continuaram sendo o que sempre foram desde que surgiram no cenário da economia capitalista, ou seja, a marca do sucesso profissional e social. A aparência do sujeito afluente é determinada pela maneira como se veste; pela qualidade dos objetos de adorno pessoal; pelo tipo de automóvel, de artigos eletroeletrônicos e de objetos de decoração doméstica que possui; pelos restaurantes que frequenta e tipos de esporte que pratica; pelos lugares onde desfruta o lazer; pelas viagens que faz etc. Os objetos de consumo 'agregam' valor social aos seus portadores. Eles são o crachá que identifica 'o turista vencedor' em qualquer lugar, situação ou momento de vida".
COSTA, Jurandir Freire. Perspectivas da juventude na sociedade de mercado. In:NOVAES, Regina; VANUCCHI, Paulo (orgs.) Juventude e Sociedade. Trabalho, Educação, Cultura e Participação. São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2004.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Causa e efeito - OK Go, This Too Shall Pass (2010)

Você já viu desenhos animados como os do Papa-léguas (Bipe-bipe) e do Coiote (Road Runner e Wile.E Coyote), então provavelmente já sabe qual a ideia de uma "Rube Goldberg Machine". A banda OK Go, famosa pelo clipe das esteiras elétricas, montou uma gigantesca máquina Rube Goldberg para o vídeo de 'This Too Shall Pass'. Assista no player abaixo:



Uma das primeiras coisas que passou pela minha cabeça é imaginar o trabalho que deu para fazer esse vídeo. A revista Wired tem uma descrição aqui, com direito a "making of" e referências dos 'artistas-técnicos' (ou 'tecno-artistas') que trabalharam na coisa. Meses, milhares de homens-hora de trabalho, planejamento e execução, e finalmente, um monte de ajustes, de tentativas e erros, até que o 'take' perfeito foi conseguido.

Eu achei o efeito fantástico - tudo bem que eu devo ter tendências autistas, sou capaz de ficar observando coisas se movendo durante horas, tipo roupa lavando na máquina. Mas, voltando à questão do trabalho envolvido na sua formulação/execução, eu diria que esse vídeo, em outros termos, mostra uma grande brincadeira / um grande brinquedo e, nesse sentido, é um comentário ao mundo 'adulto' e 'sério', fundado no trabalho (e na política...) e seus temas relacionados - como a técnica. Se, aparentemente, não há nenhuma ação 'humana' direta em todo o sistema a não ser a que inicia a máquina, derrubando o primeiro dominó, e partir daí, apenas acompanhamos os ligeiros suspenses dos movimentos de bolinhas, alavancas, cordinhas e toda a miríade de objetos banais descartados e em 'deslocamento' de suas funções habituais perdidas (ou seja, lixo), é bastante claro que há um plano, um encadeamento, um resultado a ser alcançado, que houve mãos e engenhos e preparo. Nossa surpresa é justamente observar que do aparente caos de tranqueiras se desequilibrando uma após outra se deu dento de uma certa ordem, um certo sentido e finalidade. Essa clareza é obtida por evidente que foi uma 'técnica' que organizou os objetos dessa forma, na forma de máquina, em contraste ao caos ou ainda a uma organização ou poder mais misterioso, como da natureza ou, sei lá, místico-mágico ou sobrenatural.

Para que caiba no conceito de máquina rubegoldberguiana, ou seja, 'como executar uma tarefa fácil do jeito mais complicado', a finalidade da coisa, seja jogar tinta na cara ou amarrar a perna do Papa-légua, na verdade pouco importa. "O importante é o processo". Já ouviu esse lema? Foi num curso de Administração? De Direito? De Sociologia? Numa palestra sobre Recursos Humanos? Ao complicar até o limite o 'processo', ao exagerar ao máximo os próprios termos da divisão de trabalho, da fragmentação de uma tarefa, na criativa inovação nonsense de mecanismos procrastrinadores, a máquina, no nosso caso pelo menos, investe menos na comicidade ou no drama, e muito mais na ironia. Como se dissesse ironicamente: complicaaaado, não é? Então acho que é isso: toda essa monumental montagem é uma máquina auto-irônica sobre sua própria 'desnecessária' complicação, e ao mesmo tempo, sobre a atração que a complicação desnecessária produz na atenção (como a minha, pelo menos).

E eu posso estar enganado, mas a letra da música me parece que meio que consola/aconselha alguém com um problemão não dito, bem complicado, que fique na boa, que vai passar em algum momento, que não se deixe abalar. A ironia na música é doce, discreta, para desarmar o peso do tal problema.

Para tentar não complicar mais... esse post está virando uma máquina Rube sem querer... voltando à ideia do brinquedo, podemos dizer que uma diferença entre algo 'de verdade', e um brinquedo desse 'algo', é que no brinquedo o efeito, mesmo que idêntico ao seu congênere 'sério', não é 'real', não é produtivo ou adulto, não tem risco nem responsabilidade. Brincar, de certa forma, serve (também!) para aprender a ser sério, adulto, ser responsável, seguir normas, socializar pessoas... mas brincar, pelo menos, pode ser divertido - E diversão é muito importante, mas quase nunca imaginamos que um trabalho ou objeto 'sério' seja "divertido". O que nos (re)conta o que 'estaria por trás' desse vídeo do OK Go, o engenho, a arte, o trabalho duro todo, também é que, se levarmos uma brincadeira ao paroxismo (mesmo que brincar de complicar muito uma tarefa), ao máximo da sofisticação, dedicação e paixão imaginável, teremos no fim nada menos que um profissional. Adulto, sério, responsável, autônomo - nem digo não-alienado nem não-explorado..., mas que fundamentalmente brinca, se diverte. Daria para construir qual mundo se todos os trabalhadores fossem assim?

Brinde: