quinta-feira, 4 de março de 2010

Causa e efeito - OK Go, This Too Shall Pass (2010)

Você já viu desenhos animados como os do Papa-léguas (Bipe-bipe) e do Coiote (Road Runner e Wile.E Coyote), então provavelmente já sabe qual a ideia de uma "Rube Goldberg Machine". A banda OK Go, famosa pelo clipe das esteiras elétricas, montou uma gigantesca máquina Rube Goldberg para o vídeo de 'This Too Shall Pass'. Assista no player abaixo:



Uma das primeiras coisas que passou pela minha cabeça é imaginar o trabalho que deu para fazer esse vídeo. A revista Wired tem uma descrição aqui, com direito a "making of" e referências dos 'artistas-técnicos' (ou 'tecno-artistas') que trabalharam na coisa. Meses, milhares de homens-hora de trabalho, planejamento e execução, e finalmente, um monte de ajustes, de tentativas e erros, até que o 'take' perfeito foi conseguido.

Eu achei o efeito fantástico - tudo bem que eu devo ter tendências autistas, sou capaz de ficar observando coisas se movendo durante horas, tipo roupa lavando na máquina. Mas, voltando à questão do trabalho envolvido na sua formulação/execução, eu diria que esse vídeo, em outros termos, mostra uma grande brincadeira / um grande brinquedo e, nesse sentido, é um comentário ao mundo 'adulto' e 'sério', fundado no trabalho (e na política...) e seus temas relacionados - como a técnica. Se, aparentemente, não há nenhuma ação 'humana' direta em todo o sistema a não ser a que inicia a máquina, derrubando o primeiro dominó, e partir daí, apenas acompanhamos os ligeiros suspenses dos movimentos de bolinhas, alavancas, cordinhas e toda a miríade de objetos banais descartados e em 'deslocamento' de suas funções habituais perdidas (ou seja, lixo), é bastante claro que há um plano, um encadeamento, um resultado a ser alcançado, que houve mãos e engenhos e preparo. Nossa surpresa é justamente observar que do aparente caos de tranqueiras se desequilibrando uma após outra se deu dento de uma certa ordem, um certo sentido e finalidade. Essa clareza é obtida por evidente que foi uma 'técnica' que organizou os objetos dessa forma, na forma de máquina, em contraste ao caos ou ainda a uma organização ou poder mais misterioso, como da natureza ou, sei lá, místico-mágico ou sobrenatural.

Para que caiba no conceito de máquina rubegoldberguiana, ou seja, 'como executar uma tarefa fácil do jeito mais complicado', a finalidade da coisa, seja jogar tinta na cara ou amarrar a perna do Papa-légua, na verdade pouco importa. "O importante é o processo". Já ouviu esse lema? Foi num curso de Administração? De Direito? De Sociologia? Numa palestra sobre Recursos Humanos? Ao complicar até o limite o 'processo', ao exagerar ao máximo os próprios termos da divisão de trabalho, da fragmentação de uma tarefa, na criativa inovação nonsense de mecanismos procrastrinadores, a máquina, no nosso caso pelo menos, investe menos na comicidade ou no drama, e muito mais na ironia. Como se dissesse ironicamente: complicaaaado, não é? Então acho que é isso: toda essa monumental montagem é uma máquina auto-irônica sobre sua própria 'desnecessária' complicação, e ao mesmo tempo, sobre a atração que a complicação desnecessária produz na atenção (como a minha, pelo menos).

E eu posso estar enganado, mas a letra da música me parece que meio que consola/aconselha alguém com um problemão não dito, bem complicado, que fique na boa, que vai passar em algum momento, que não se deixe abalar. A ironia na música é doce, discreta, para desarmar o peso do tal problema.

Para tentar não complicar mais... esse post está virando uma máquina Rube sem querer... voltando à ideia do brinquedo, podemos dizer que uma diferença entre algo 'de verdade', e um brinquedo desse 'algo', é que no brinquedo o efeito, mesmo que idêntico ao seu congênere 'sério', não é 'real', não é produtivo ou adulto, não tem risco nem responsabilidade. Brincar, de certa forma, serve (também!) para aprender a ser sério, adulto, ser responsável, seguir normas, socializar pessoas... mas brincar, pelo menos, pode ser divertido - E diversão é muito importante, mas quase nunca imaginamos que um trabalho ou objeto 'sério' seja "divertido". O que nos (re)conta o que 'estaria por trás' desse vídeo do OK Go, o engenho, a arte, o trabalho duro todo, também é que, se levarmos uma brincadeira ao paroxismo (mesmo que brincar de complicar muito uma tarefa), ao máximo da sofisticação, dedicação e paixão imaginável, teremos no fim nada menos que um profissional. Adulto, sério, responsável, autônomo - nem digo não-alienado nem não-explorado..., mas que fundamentalmente brinca, se diverte. Daria para construir qual mundo se todos os trabalhadores fossem assim?

Brinde:




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