terça-feira, 30 de março de 2010

Google vs. China

Neste texto, o historiador inglês Timothy Garton Ash comenta a recente decisão do Google de abandonar suas operações na China, transferindo-as para Hong Kong. Entendendo que a internet é a maior revolução nas tecnologias da informação desde a invenção da imprensa por Gutemberg, Ash ressalta que, entre o "poder virtual" das grandes corporações cibernéticas, e o "poder real" dos grandes Estados, a recuperação da informação via internet sofre, de toda maneira, um processo de seleção cujos mecanismos não são bastante claros para a maior parte da população. Afinal, os algoritmos do Google possuem critérios bastante definidos para que determinada página apareça nos primeiros lugares dos resultados de busca, sejam eles mercadológicos, econômicos ou atendendo a interesses nem sempre tão explícitos. E é essa a aparência "fantasmagórica" da pesquisa de informação via internet, à qual nos tornamos tão dependentes: achamos que temos o mundo à disposição, mas esse mundo só nos aparece pelo viés desses poderes diversos que filtram aquilo que iremos ler. A saída do Google da China só tornou esses filtros mais explícitos, uma vez que até agora a empresa de bom grado aplicou a censura exigida pelo governo chinês, e muitas outras empresas de informação continuam no país, sob as mesmas condições.

É aí que entra o papel dos "cidadãos da rede" (netizens, como Ash os chama). Se, nos países com regimes ditatoriais, a internet tem se tornado um importante meio de protesto (como ocorreu com os encontros marcados via Twitter para denunciar as fraudes nas últimas eleições iranianas), nos países ditos democráticos é preciso levar em conta que, muitas vezes, esta censura é abertamente requerida por uma parcela imensa da população - o exemplo de Garton Ash são os espectadores da Fox News nos Estados Unidos, que só assistem o canal porque sabem que a informação ali só chega pelo filtro da extrema direita.

A conclusão é que, no embate sobre o acesso à informação, há 3 grandes "jogadores": os Estados, as corporações, e os cidadãos da rede. Garton Ash vislumbra quatro cenários possíveis para a disputa: "(1) O Estado no qual vivo decide o que posso e não posso ver, e tudo bem; (2) As grandes empresas das quais dependo (Google, Yahoo, Baidu, Microsoft, Apple, China Mobile) escolhem o que posso ver, e tudo bem; (3) Quero ser livre para ver o que quiser: notícias sem censura de todas as partes do mundo, toda a literatura mundial, manifestos de todos os partidos e movimentos políticos, propaganda jihadista, instruções para a fabricação de bombas, detalhes íntimos sobre a vida particular de outras pessoas, pornografia infantil - tudo deve ser disponibilizado livremente e sou eu quem decide o que ver ou não (opção libertária radical); (4) Todos devem ser livres para ver o que quiserem, com exceção daquele conjunto limitado de conteúdos que regras globais claras e específicas determinem que não deve ser disponibilizado. A tarefa dos Estados, empresas e internautas [netizens] deve ser então de fazer valer essas normas internacionais."

A conclusão do autor é a de que vivemos num misto dos cenários (1) e (2), e que a evolução das tecnologias nos levará fatalmente ao cenário (3). O mundo (4), segundo Ash, é a opção ideal à qual devemos aspirar, ainda que, também devido ao limitado espaço do artigo, não fique nada claro como seriam estabelecidas as tais "regras globais claras e específicas". De todo modo, o que importa colocar como reflexão é a necessidade urgente do debate sobre as regras do jogo, e sua explicitação. Do contrário, ficaremos perdidos entre esses dois poderes gigantes, achando que o que recuperamos é a informação em si, quando de fato o que chega até nós é apenas o resultado de uma combinação de micro-poderes.

Beyond Google's clash with China, we must find rules for a global village

(apesar deste texto ter sido publicado na edição do último domingo de O Estado de São Paulo, a nova política editorial do jornal restringe o acesso aos artigos apenas aos assinantes. Por isso fiz referência ao texto em inglês, publicado originalmente no jornal The Guardian).

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