quinta-feira, 25 de março de 2010

Pobreza erótica

Eu cheguei bem por acaso no objeto do post, pensando que era mais algum esquema do sempre borbulhante mercado da autoajuda (auto-ajuda?). Num blog da revista Época, o título é 'Capital erótico: você tem?'. A coluna começa assim:

"Você está satisfeito com sua formação acadêmica? Fala línguas, tem experiência, um currículo admirável para progredir na vida? E capital erótico, tem? Sabe usá-lo a seu favor?

'Capital erótico' é um termo novo criado por Catherine Hakim, socióloga da London School of Economics and Political Science, na defesa de uma quarta categoria de habilidades pessoais, ao lado de capital econômico, social e cultural. No estudo Capital Erótico, recém-publicado na European Sociological Review, Catherine explica sua proposta: 'Beleza e sex appeal se tornaram valores individuais importantes em nossa moderna e sexualizada cultura, tão importantes quanto qualificações educacionais'."

Socióloga? London School of Economics and Political Science? A escola do Anthony Giddens, entre outros... Como assim? ... 'Capital erótico' a minha mente suja esperava ser algo bem menos 'sério', algo como aqueles hilários manuais sobre técnicas de como fisgar homens em bares (ou vice-versa: como ser fisgado(a)).

O paper está disponível para download, e eu transcrevo o resumo:

Erotic Capital
Catherine Hakim

We present a new theory of erotic capital as a fourth personal asset, an important addition to economic, cultural, and social capital. Erotic capital has six, or possibly seven, distinct elements, one of which has been characterized as ‘emotional labour’. Erotic capital is increasingly important in the sexualized culture of affluent modern societies. Erotic capital is not only a major asset in mating and marriage markets, but can also be important in labour markets, the media, politics, advertising, sports, the arts, and in everyday social interaction. Women generally have more erotic capital than men because they work harder at it. Given the large imbalance between men and women in sexual interest over the life course, women are well placed to exploit their erotic capital. A central feature of patriarchy has been the construction of ‘moral’ ideologies that inhibit women from exploiting their erotic capital to achieve economic and social benefits. Feminist theory has been unable to extricate itself from this patriarchal perspective and reinforces ‘moral’ prohibitions on women’s sexual, social, and economic activities and women’s exploitation of their erotic capital.

(tradução meia boca: Nós apresentamos uma nova teoria do capital erótico como um quarto recurso pessoal, em adição importante ao capital econômico, cultural, e social. O capital erótico tem seis, ou possivelmente sete, elementos distintos, dos quais um foi caracterizado como "o trabalho emocional". O capital erótico é cada vez mais importante na sexualizada cultura das sociedades afluentes modernas. O capital erótico é não somente um recurso principal em mercados dos encontros amorosos e do casamento, mas pode também ser importante nos mercados de trabalho, na mídia, na política, na propaganda, em esportes, nas artes, e na interação social diária. As mulheres têm geralmente mais capital erótico do que homens porque trabalham mais duramente nele. Dado o desequilíbrio grande no interesse sexual entre homens e mulheres durante a vida, mulheres estão bem colocadas para explorar seu capital erótico. Uma característica central do patriarcado foi a construção dos ideologias "morais" que inibem mulheres de explorar seu capital erótico para conseguir benefícios econômicos e sociais. A teoria feminista foi incapaz de extirpar-se desta perspectiva patriarcal e reforça proibições "morais" nas mulheres no sexo, nas atividades sociais e econômicas e na exploração pelas mulheres de seu capital erótico).

A autora parte de exemplos como Madonna ou Pierce Brosnan como indivíduos que notoriamente possuem capital erótico, e explica que o capital erótico não é mera beleza física (ufa!) mas um conjunto de qualidades, tais como a maneira de andar, falar e interagir atrativamente, e que dão aos seus possuidores vantagens não só na seleção de parceiros sexuais mas também em outros vários e vários contextos - vantagens que podem ser inclusive medidas, dimensionadas, como sucesso profissional dos bonitões ou a 'popularidade' no colegial das bonitonas.

O conceito central de capital erótico é, para Hakim:
"Erotic capital is thus a combination of aesthetic, visual, physical, social, and sexual attractiveness to other members of your society, and especially to members of the opposite sex, in all social contexts. In some cultures, fertility is a central element of women’s greater erotic capital. We use the terms ‘erotic power’ and ‘erotic capital’ interchangeably, for stylistic variation. Erotic capital includes skills that can be learnt and developed, as well as advantages fixed at birth. Women generally have more of it than men, even in cultures where fertility is not an integral element, and they deploy it more actively." (p.3)

(Capital erótico é, assim, uma combinação da estética, da atração visual, física, social, sexual para outros membros de sua sociedade, e especialmente aos membros do sexo oposto, em todos os contextos sociais. Em algumas culturas, a fecundidade é um elemento central do capital erótico das mulheres. Nós usamos os termos "poder erótico" e "capital erótico" alternadamente, para a variação estilística. Capital erótico inclui habilidades que podem ser aprendidas e desenvolvidas, como bem como as vantagens fixadas no nascimento. As mulheres geralmente têm mais dele do que os homens, mesmo em culturas onde a fertilidade não é um elemento integrante, e [o capital erótico] implanta-se mais ativamente.)

Eu não tenho as credenciais necessárias - destucanando, não estudei - para dizer se a relação entre esse conceito de capital erótico e os conceitos de capital econômico, social e cultural é pertinente e/ou faz sentido. O que eu posso dizer é que os argumentos da autora parecem ser bastante claros e bem apresentados, em uma primeira leitura. E se por um lado a posse de capital erótico parece ser uma boa explicação, por exemplo, para a mobilidade da ascensão individual, nos contextos do casamento entre pessoas com grandes diferenças dos outros três capitais - ou, em palavras bem mais rudemente estereotipadas, como a 'gostosura' facilita o golpe do baú, com o perdão da destucanada - seria necessário talvez um maior desenvolvimento crítico (aparentemente, a autora prepara um livro) em relação aos modelos explicativos mais conhecidos, isto é, se mesmo a teoria convencional do capital individual não dá conta. Quanto a isso, a autora tem uma posição que me parece instigante, a de que a sociologia (como ciência 'macha') não se livrou do senso comum que censura importância ao erotismo, mesmo quando parece ser evidente que nas sociedades modernas a aparência, a sexualidade, as competências estéticas e habilidades sedutoras ganham relevância em contextos diversos e importantes. Haveria então um déficit na sociologia quanto ao conhecimento das relações em torno, ou relacionadas, ao erotismo e às relações de poder fundamentadas nele. Mas, em todo caso, meus calos epistemológicos acenderam um alerta amarelo. Eu acho prudente ter algum ceticismo quando algum conceito parece ser bom demais, muito certinho, isto é, tem um superpoder explicativo aparente, direto e intercambiável: Madonna é bilionária em capital erótico, portanto... já se a fulana é gorda, feia, chata... ainda sinto falta de uma 'grade' explicativa mais robusta, mesmo que mais 'suja' ou indeterminada, o que pode ser parte implicância minha, parte falta de estudar esse assunto.

Voltando um pouco, o esboço de uma 'economia' erótica também parece ter interesse, em especial nos aspectos envolvidos em relações de troca e de (re)produção, não apenas afetivas ou econômicas, mas também culturais. A base, digamos, biológica é dada pela escassez da beleza natural e pelo fato (que eu acho que tem que ser mais bem demonstrado) que homens tem, ou manifestam, muito mais interesse em sexo, durante a maior parte de suas vidas, que as mulheres. Esse desnível entre oferta e demanda levaria ao surgimento das mais variadas práticas, mediadas pela cultura (ou seja, das sancionadas e estimuladas até as censuradas e controladas), da pornografia/prostituição à arte da conversa fiada de sala de visita, passando pelos cuidados na entrevista de emprego e se comportar na carreira a como encontrar e agarrar um príncipe encantado, à moda e ao vestuário adequado à determinada situação, e assim por diante. Nas sociedades modernas, tecnológicas, instantâneas e velozes, e aqui sou eu viajando um pouco, o erótico seria praticamente uma força produtiva.

"Beauty and sex appeal, and female beauty in particular, are a creation, a work of art, which can be achieved through training. Women have more erotic capital than men in most societies because they work harder at personal presentation and the performance of gender and sexuality. This sex differential is not fixed, and can vary over time, due to social and economic changes. Homosexuals often devote more time and effort to the performance of sexuality and personal presentation than is typical among heterosexuals (Green, 2008). The performance of gay subculture styles (such as clones or leather) is the equivalent of heterosexual performance of masculinity and femininity." (p.6)

(Beleza e sex appeal e beleza feminina em particular, são uma criação, uma obra de arte, que pode ser alcançado através de treino. As mulheres têm mais capital erótico do que os homens na maioria das sociedades, porque elas trabalham duro na apresentação pessoal e no desempenho de gênero e sexualidade. Este diferencial de sexo não é fixo, e pode variar ao longo do tempo, devido às mudanças sociais e econômicas. Os homossexuais muitas vezes dedicam mais tempo e esforço para o desempenho da sexualidade e da apresentação pessoal do que é típico entre os heterossexuais (Green, 2008). O desempenho dos estilos da subcultura gay (como clones ou couro) é o equivalente de desempenho heterossexual de masculinidade e feminilidade.)

Acho que dá para dizer que a 'economia erótica' moderna segue o modelo da grande indústria, ou melhor, da corporação (ela de novo) multinacional. O erotismo, assim como a fome, é 'satisfeito' nos mais diferentes graus e modos, e repercute ao longo de uma vasta 'cadeia produtiva'. Qualquer foto de capa de revista é o pico de uma, ou de várias indústrias, e seus interesses, mas também de suas capacidades técnicas e artísticas em complexa divisão do trabalho. Destucanando, fazer uma capa de revista só é possível porque há um batalhão de organizações, com milhares de horas de trabalho e conhecimento acumuladas em objetos como roupas, cosméticos, objetos de cena, mas também no próprio corpo da modelo, e também em processos industriais tecnológicos muito sofisticados que se destinam a criar e manter mercados e consumos, e ao acúmulo do tal 'capital erótico' em cada camada de baton.

O que não é dito por Catherine Hakim, e aí é ainda apenas elocubração, é a desigual apropriação do capital erótico. Ou seja, se há os bilionários, haveria também a vasta camada dos 'pobres', sem acesso, os sem-terra, sem-erotismo. Se, como demonstra o modo com o qual topei com a sociologia do capital erótico num semanário de entretenimento, é lícito imaginar que a curto prazo esse conceito, tal como os de 'capital intelectual' e 'capital humano', será apropriado pelos agentes econômicos - pode-se imaginar a capa da Cosmopolitan com uma manchete tipo 'no fail: how to boost your erotic capital' - então a pobreza erótica será bem mais evidente. Talvez nem tudo seja ruim: não me parece que trazer a satisfação erótica ao nível de não só um imperativo biológico do corpo, mas transformá-lo como um direito de homens e mulheres à uma existência mais plena (e prazerosa, claro), tem um delicioso potencial subversivo e antirrepressivo, já sabia a geração dos sessenta. Mas agora, vamos ter que pensar em políticas públicas...

Referência:
HAKIM, Catherine. Erotic Capital. European Sociological Review, Volume 0 Number 0, 2010. p. 1–20. Available online at www.esr.oxfordjournals.org

Um comentário:

  1. Sinceramente, de todas as leituras que fiz a respeito do tema, esta certamente foi a mais brilhante. Sou de acordo com o desenvolvimento de políticas públicas para o desenvolvimento da plenitude do ser humano, incluindo aí, o capital erótico...rs...

    Na verdade, se o capital erótico é capaz de produzir qualidade de vida e aumentar o bem estar - e consequentemente a saúde mental - dos cidadãos, creio que o Governo poderia investir em "bolsa capital erótico", para que os menos privilegiados possam desenvolver esta habilidade tão essencial para o desenvolvimento humano.

    Abraços,
    Viviane

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